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O Diário do Realizador

«Zapisnaja Knizka Rezisera» («O Diário do Realizador»), 2025, de Aleksandr Sokurov, foi estruturado como uma jornada cronológica que, a partir das anotações escritas num diário pelo realizador ao longo de vários anos, usa frases escolhidas do mesmo para as fazer coincidir com a marcha dos acontecimentos que marcaram um período concreto da História da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Mais precisamente, os anos situados entre 1957 e 1991. Estas são as duas grandes datas que balizam o projecto fílmico. No caso da primeira, por um lado, ela corresponde ao quadragésimo aniversário da Revolução Bolchevique de Outubro de 1917 e, por outro, constitui o marco miliário que o cineasta escolheu para dar início a uma mega sistematização no domínio da informação e documentação áudio e visual. No caso da segunda, ela corresponde não só ao material como ao simbólico fim da URSS.

Mas o diário em causa não se fica pela abordagem das circunvoluções políticas, económicas, sociais e culturais vividas no país do cineasta (nascido no Oblast de Irkutsk, Rússia, a 14 de Junho de 1951). Na fixação das diferentes e numerosas ideias, reflexões e mera indicação de factos (alguns dos quais escritos pelo próprio realizador e argumentista sem nunca lhe vermos o rosto, apenas a mão e uma caneta de aparo ao estilo clássico), serão usados grafismos electrónicos onde o cineasta faz referência a muito do que no período abrangido foram (segundo ele e numa perspectiva muito subjectiva e, por isso mesmo, fortemente pessoal, por vezes mesmo, demasiado pessoal, não naquilo que invoca mas naquilo que não refere) os acontecimentos mais relevantes a nível nacional e internacional.

Neste contexto, muita da informação que não se refere directamente ao modelo de influência soviético apresenta, não obstante, uma clara incidência com a História da União Soviética, numa vasta e complexa abordagem do que se passava dentro e fora das respectivas fronteiras. Trata-se no fundo de ampliar a dimensão do que se quer sublinhar numa visão dinâmica, consistente e significativa do que foi uma importante parcela do Século XX. Revela-se assim a estreita dialéctica entre as decisões estratégicas do poder instalado e consolidado no Kremlin com as contas de um rosário que pouco a pouco se desfiava a uma escala mundial, incidindo esta oração profana sobretudo nos ecos das memórias que persistem dos bons e maus momentos da chamada Guerra Fria.    

E chegou a altura de dar voz ao realizador que, após ser questionado sobre as suas motivações, respondeu brevemente sobre o que pensava daquela que, no fundo, se pode avaliar como uma espécie de autobiografia cinematográfica, onde expõe aos nossos olhos de espectadores cúmplices uma parte da sua intimidade, da sua individualidade, do seu pensamento e das suas preocupações: “Que posso eu adicionar ao monólogo do meu filme, que fala convosco ao longo de cinco horas?” Para ser mais rigoroso, 05:09:32, considerando um intervalo de quinze minutos. E acrescentou: “Vejam-no com disponibilidade e atenção, com o coração aberto…Esta história diz igualmente respeito ao vosso país, ao vosso povo”. E concluiu com uma frase algo enigmática: “O Velho Mundo não muda”. Digamos que neste depoimento se encontra a chave, uma espécie de desejo e uma generosa carta-branca dada por Aleksandr Sokurov para o acompanharmos através de um passado de que foi contemporâneo, que observou e, queremos crer, em grande medida viveu. Com este “passaporte” na mão podemos acompanhar as sucessivas propostas de reflexão com a liberdade de circulação necessária e indispensável a uma viagem atenta ao que se passou neste nosso mundo.

E a sensação maior que nos atravessa durante as horas de visionamento será em geral a de sermos convidados a mergulhar numa zona de espiritualidade, não necessariamente de conforto, onde a possível e potencial análise do que vemos e ouvimos surge num exercício de voz que quer ser comum e que permite experimentar a nossa liberdade individual como peça de um mosaico de grande dimensão, uma plataforma onde impera o impacto do impessoal ao mesmo nível do colectivo, diria até, cooperativo. Pelo meio iremos descobrir algumas constantes (por vezes, com alguma perplexidade) quando, por exemplo, o realizador insiste no enumerar de múltiplos acidentes com aeronaves. Há aqui matéria para se deduzir uma obsessão por situações extremas, provavelmente nada fácil de ultrapassar.

A estrutura da montagem define de algum modo uma certeza: o que vemos e ouvimos diz respeito ao quadro soviético da construção do socialismo e, sobretudo, dos grandes feitos da indústria pesada, da agricultura e da ciência que catapultaram a URSS para o estatuto de superpotência. Há uma clara noção de que o grande rival eram os EUA, mas nunca a ideia de que a pátria de Fiodor Dostoievsky, Leon Tolstoi, Sergei Eisenstein, Piotr Tchaikovsky ou Vladimir Lenin pertenciam a um lugar secundário.

Num domínio específico e glorioso, o da conquista do Espaço, o realizador não descura nem ignora o verdadeiro papel de vanguarda que a URSS alcançou, recordando aquilo em que foram pioneiros (primeiro homem no Espaço, Yuri Gagarin, primeira mulher no Espaço, Valentina Tereshkova, primeiro ser não-humano no Espaço, a cadelinha Laika), incluindo ainda a exploração robótica do solo lunar (o Lunokhod-1). Mas refere de igual modo o que se passava noutras latitudes, sem sectarismos que aqui seriam no mínimo deslocados. No plano musical, várias são as inserções de melodias e canções do património da URSS, que emprestam ao fluxo de imagens e sons que as antecedem e precedem uma atmosfera de algum en(canto). E as referências cinéfilas, muitas delas reconhecidamente obras maiores do cinema soviético, cumprem um efeito similar e acrescentam o valor de contraponto da memória ficcionada face aos excertos documentais onde, aqui e além, sentimos a pura realidade misturada com alguma ficção.

Destaca-se ainda a sistemática presença da cidade de Leninegrado, a actual São Petersburgo, inclusive no curioso intervalo de quinze minutos que divide este projecto, na minha opinião sem grandes resultados práticos. Podia ser uma “normal” instalação videográfica.

Aleksandr Sokurov não nasceu ontem e o seu perfil crítico está bem patente no modo como, apoiando-se na cronologia dos anos (que vamos acompanhando graficamente na vertical e no lado esquerdo do enquadramento), se aproxima da era da Perestroika e da correspondente glasnost, defendida desde 1985 pelo então dirigente Mikhail Gorbachev (1931-2022). Transparência e abertura do regime que se mostram reflectidas na montagem das imagens de arquivo de «O Diário do Realizador» quando, nesta fase, aos discursos heróicos e patrióticos se prefere o discurso directo e aparentemente mais livre ou, pelo menos, menos condicionado, dos cidadãos que habitavam no início dos anos noventa as cidades e campos da URSS. Não será só aqui, mas é sobretudo nesta opção de montagem que a “neutralidade” do realizador se dispersa e se perde na colagem dos diversos segmentos que conduzem aos derradeiros planos deste diário, onde vemos a figura de Boris Yeltsin (Presidente da URSS entre 1991 e 1999) naquilo que podíamos apelidar de um impasse existencial. Homem só, isolado da própria História. Planos finais que fecham esta obra monumental, mas que simultaneamente a deixam em aberto.

Seja como for, não posso deixar de saudar a mestria de Aleksandr Sokurov naquilo que se chama “saber levar a água ao seu moinho”. Recordo a propósito que ele dedicou dois documentários ao político em causa, «Sovetskaya Elegiya» (1990), que mostra Boris Yeltsin na sua faceta de homem solitário, e «Primer Intonatsii» (1991), onde o interpela na fragilidade do seio familiar logo após ser eleito como presidente da Rússia. Resta saber que a 31 de Dezembro de 1999, e após múltiplas convulsões, resignou ao cargo e indicou Vladimir Putin como o seu sucessor interino até que se realizassem novas eleições.

Em suma, para quem saiba descodificar muito do que se vê e ouve, «O Diário de Um Realizador» constitui, sem dúvida e parafraseando o realizador, “uma escultura do Tempo”.

Título original: Zapisnaja Knizka Rezisera
Título internacional: Director’s Diary
Realização: Aleksandr Sokurov
Duração: 305 min.
Rússia/Itália, 2025

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João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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