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Histórias do Vale Bom

Neste mundo de ódios, divisões e guerras, fazia falta um novo filme de José Luis Guerin. Uma década depois da sua última longa-metragem, «A Academia das Musas», o mestre espanhol está de volta com um documentário que não é bem um documentário – à semelhança de outras obras suas, atravessa-o um desejo poético que contamina as personagens (sim, personagens, ou não integrasse o momento do casting no filme), aqui figuras quase mitológicas esculpidas numa geografia particular. Porquê o título «Histórias do Vale Bom»? Porque são várias as vozes e experiências individuais que se concentram em Vallbona, esse bairro da periferia de Barcelona onde Guerin foi filmar o semblante de uma vida comunitária.

Próximo da filosofia do seminal «En construcción» (2001), que acompanha a mudança da paisagem urbana noBarrio Chino de Barcelona, e também de «Innisfree» (1990), filme em que Guerin segue os passos de John Ford nessa localidade irlandesa onde o cineasta americano rodara «O Homem Tranquilo» (1952), «Histórias do Vale Bom» assenta numa profunda dimensão humana. Ao contrário da maioria dos documentários, que repousa na lógica do “conte lá a sua história”, Guerin misturou-se com as pessoas de Vallbona, sobretudo migrantes, criando laços ao longo de três anos, para colher o que lhe interessava retratar: pedaços do seu quotidiano, dos seus hábitos, das suas conversas ou momentos nostálgicos, que desenham um mapa da vivência daquele lugar.

O resultado é extremamente tocante. Apaixonamo-nos por Tatiana Radchenko, que vê a memória do marido desvanecer aos poucos, tocando piano no alto dos novos prédios da cidade-dormitório; enternecemo-nos com a portuguesa Fátima Dossantos, que habita a zona rural do bairro, levando a neta a apanhar flores pelos montes verdejantes, para lhe falar das árvores e dos mortos; e não menos comovente é o velho com imaginação fértil que sugere a Guerin que faça um western – a referência é aproveitada pelo realizador para revestir a sua silhueta de uma aura qualquer, enquanto este mira o horizonte.

A presença de José Luis Guerin atrás da câmara raramente se manifesta, mas sente-se o tempo todo: há um amor palpável na leitura daqueles rostos (foi o próprio cineasta que usou a palavra “amor” para descrever a posição do seu cinema, na conferência de imprensa de San Sebastián, festival onde venceu o Prémio Especial do Júri), e um respeito infinito pela humanidade que se expõe diante do seu olhar. O que ele procura é tão-só a expressão natural dos corpos na paisagem.

TÍTULO ORIGINAL: Historias del buen valle
REALIZAÇÃO: José Luis Guerin
ELENCO: Antonio López, “el carbonero”, Fátima e Sónia Dossantos, Tatiana Radchenko
ORIGEM: Espanha, França
DURAÇÃO: 122 min.
ANO: 2025

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