Há filmes de ficção científica que nos impressionam pela escala. «Projeto Hail Mary» distingue-se por outra ambição: a de transformar a sobrevivência da Humanidade numa história inesperadamente íntima sobre amizade, confiança e comunicação.
Baseado no livro de Andy Weir, o filme de Phil Lord e Christopher Miller começou de forma pouco habitual. Em 2020, ainda antes da publicação da obra, o autor enviou diretamente o manuscrito a Ryan Gosling, convidando-o não só a protagonizar a adaptação, mas também a produzi-la.
Gosling já confessou, em várias entrevistas, que leu o texto de uma só vez e ficou imediatamente “agarrado”. O momento coincidiu com o início da pandemia de COVID-19, quando a indústria cinematográfica estava praticamente paralisada, o que tornou ainda mais simbólico o surgimento de uma história sobre enfrentar uma crise global através da ciência e da cooperação. Num contexto em que o futuro parecia suspenso, pensar um filme para cinema — e sobretudo para IMAX — era quase um exercício de fé. Ainda assim, as peças alinharam-se para aquele que se afirma como um dos projetos mais ambiciosos do género nos últimos anos.

Realizado pela dupla de «O Filme Lego» e «Agentes Secundários», «Projeto Hail Mary» adapta o romance com argumento de Drew Goddard, que já tinha trabalhado numa anterior adaptação de Weir — «Perdido em Marte», protagonizado por Matt Damon. A história segue Ryland Grace (Ryan Gosling), um professor de ciências fora do comum que acorda numa nave espacial sem memória e gradualmente descobre que está numa missão para salvar o Sol e evitar a extinção da Humanidade. Mas é no encontro improvável com Rocky, um ser de outro planeta igualmente em busca de salvar o seu mundo, que o filme encontra o seu verdadeiro centro.
Do ponto de vista técnico, a produção procurou um elevado grau de autenticidade — não como fim em si mesmo, mas como forma de sustentar a imersão emocional. O design da nave Hail Mary, criado por Charles Wood, e a opção por painéis LED, em detrimento do uso extensivo de ecrãs verdes, conferem uma fisicalidade rara a um espaço que poderia facilmente parecer abstrato. A luz existe, reflete-se, envolve os atores, e isso sente-se. Também os efeitos visuais, supervisionados por Paul Lambert, foram desenvolvidos em consulta com cientistas e especialistas em imagens astronómicas, numa tentativa clara de equilibrar espetáculo com plausibilidade.
Outro dos elementos mais distintivos da produção foi a decisão de dar presença física a Rocky. O pequeno ser alienígena não é CGI, mas sim um boneco criado com sistemas avançados de animatrónica e manipulado por uma equipa de puppeteers. Mais do que uma curiosidade técnica, esta escolha traduz-se numa relação mais espontânea e emocionalmente credível, e é precisamente nessa relação que o filme ganha espessura.
Online, «Projeto Hail Mary» tem vindo a destacar-se tanto entre booktalkers como entre comunidades de fãs de cinema, mas o seu impacto não se esgota no entusiasmo antecipado. O filme funciona como um espetáculo de ficção científica que resiste à tentação do excesso, equilibrando avanço futurista com o silêncio do cosmos e com uma sensação constante de urgência de salvar a Terra.

Ryan Gosling está particularmente afinado no papel de Grace, um anti-herói improvável, mais próximo da hesitação do que do heroísmo clássico. Desajustado e sem grandes apegos, é na relação com o outro — mesmo quando esse outro é radicalmente diferente —, a milhares de quilómetros de casa, que descobre não só a responsabilidade de uma missão maior, mas também uma forma de pertença.
Com momentos de humor que quebram a tensão e outros de contemplação que a prolongam, o filme convida-nos a olhar para o planeta com outra atenção — das florestas verdejantes à imensidão das ondas do mar e da areia da praia — e a realizar o que realmente estaria em causa na sua perda. «Projeto Hail Mary» toca-nos precisamente nesses pontos que (ainda) nos fazem sentir humanos: a partilha, a contemplação, a amizade e o valor incalculável da presença, a nossa e a do outro, nem que seja para dormirmos em paz.
Apesar da escala cósmica da premissa, este é um filme sobre o valor da amizade, mesmo quando não entendemos o verdadeiro significado das palavras, mas sentimos a energia de algo maior que nos liga.
Título original: Project Hail Mary
Realização: Phil Lord e Christopher Miller
Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz, Lionel Boyce, Ken Leung, Milana Vayntrub
Duração: 156 m
EUA, 2026




