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Armand

O filme «Armand», de Halfdan Ullmann Tøndel, concentra-se num único e implacável cenário — uma escola primária norueguesa prestes a encerrar o ano lectivo — onde o choque emerge de uma convocatória tensa. O mote é simples:o pequeno Armand está a ser acusado de um suposto comportamento sexual abusivo com um colega de apenas seis anos, Jon. O espectador acompanha Elisabeth (interpretada magistralmente por Renate Reinsve), mãe de Armand, enquanto ela chega à sala de aula transformada em espaço de averiguações por professores — a direcção, a administração e uma despreparada professora chamada Sunna (Thea Lambrechts Vaulen). O plano, longe de revelar claridade, desdobra-se em brechas de informação que prolongam a reunião e aumentam a sensação de desconforto. A narrativa mantém uma estrita economia de espaço: não vemos nenhuma criança. Armand  e Jon tornam-se vozes fora de campo, espectros que habitam o espaço pelas relações entre adultos. Assim, o foco recai nas emoções de quem está presente; e a sala, retratada com longos planos, close-ups sufocantes e um alarme contra-incêndios intermitente, materializa a crescente claustrofobia, como se a arquitectura se alinhavasse com o estado mental das personagens.

Em termos de representação, todos se destacam, mas é Renate Reinsve quem se impõe: Elisabeth é uma mãe conhecida (uma actriz famosa cujo percurso público sofreu uma pausa), cuja presença irradia intensidade, fragilidade e explosão emocional contida, até que rebenta num ataque de riso histérico e incontrolável que domina a narrativa na sua espectacularidade. Reinsve encarna a personagem em todo o seu esplendor e contradição: há nela magnetismo, violência, humor atravessado por dor — uma força crua que envolve o espectador e impõe a sua dor como centro da cena, transformando o riso em algo histriónico mas profundamente humano. A cena, com cerca de dez minutos de duração, teria sido filmada em múltiplas tentativas — dez horas, segundo algumas fontes — e resultou numa explosão encenada de fúria psicologicamente plausível, retratada em câmara lenta através de gotas de saliva, cansaço físico e tensão extrema.

Mas «Armand» não se resume a um drama realista: Tøndel insere sequências coreografadas de dança performativa que rompem o diálogo para vislumbrar o subconsciente dos adultos. São momentos que funcionam como filtros de percepção emocional e que libertam Elisabeth da rigidez das palavras, levando-a a um terreno quase surreal: o corpo expõe mais do que pode conter em linguagem, num contraponto poético à tensão verbal e ao ambiente escolar asfixiante. O desenho sonoro, com sons intensos de campainha intermitente, portas a ranger, espaços vazios, e o uso do espaço escolar — corredores, salas desertas, uma escola quase fantasma parasitada pelos ecos e pela presença dos adultos — reforçam a ideia de que este encontro não é apenas burocrático, mas ritualístico. A inevitabilidade do confronto — entre acusações, defesas, ressentimentos mal resolvidos e vulnerabilidades antigas — espelha conflitos não resolvidos, com uma mise-en-scène que torna cada olhar, cada pausa, cada gesto um questionamento silencioso. Trata-se da primeira longa-metragem de Halfdan Ullmann Tøndel, realizador norueguês que aqui revela um domínio notável da forma, da tensão e da ambiguidade, apostando com coragem num cinema da interioridade e do desconforto.

Este ambiente é construído para frustrar o espectador: nunca temos uma exposição clara do que realmente aconteceu, apenas fragmentos, lapsos e reacções que sublinham a incapacidade de lidar com tabus — da sexualidade infantil ao peso da fama e do julgamento social, passando pela culpa intergeracional (Elisabeth é viúva; Jon é filho da irmã do seu marido falecido). Lembremos que o tabu da sexualidade infantil — quase sempre silenciado, distorcido ou remetido à patologia — permanece como um dos últimos territórios interditos da discussão social. A ambiguidade é o motor da peça; o filme oferece várias possibilidades, que vão desde uma simples transgressão infantil até a uma acusação gravíssima, mas evita dar resposta definitiva. O suspense que derrete por entre os corredores corre em paralelo com a brutalidade dos silêncios: enquanto o plano inicial oferece um quadro quase documental, a continuação transita para o expressionismo e para a dicção teatral — com momentos de humor seco, pausas religiosas, piadas casuais, atropelos emocionais, fugas para a casa de banho, e intervenções patéticas da direcção escolar. Este jogo de vozes, camadas, tabus e preconceitos reforça a crítica às nossas estruturas sociais — instituições frágeis, comunicação deficitária, preconceitos instalados — e ecoa receios sobre quem decide o que é verdade, o que é inocência, o que é culpa. O filme desafia-nos a não acreditar em certezas fáceis, a questionar a linearidade da narrativa judicializada e a reconhecer que, muitas vezes, o que nos aproxima da justiça é, paradoxalmente, a imaginação e o medo. Aqui, há um vínculo claro com o teatro do absurdo: o espaço único, os diálogos em repetição inconclusiva, a caracterização quase arquetípica das personagens (a mãe, o professor, a direcção, o casal que acusa), as pausas, as risadas extemporâneas e o alarme inflamável em fundo — tudo remete para estruturas dramáticas que quebram o realismo e nos colocam perante a questão: que significado tem este ritual? O absurdo nasce na tensão entre acção e imobilidade, entre linguagem e silêncio, entre o que é dito e o que se omite. Como em Beckett ou Ionesco, a peça não explica nada mas permite ao público sentir o vazio e o estranhamento — como se cada palavra revelasse a falência da comunicação. Elisabeth, ao rir descontroladamente, torna evidente o abismo entre tentar explicar o inexplicável e ficar a olhar para as próprias palavras. O absurdo aqui não é cómico — é existencial e perturbador: remete ao abismo que se abre quando o humano é confrontado com comportamentos que questionam a própria ordem moral e a segurança emocional do mundo adulto. Nesse sentido, o filme converge com o teatro do absurdo no uso do espaço vazio (a escola sem crianças), da repetição do ritual, do silêncio que carrega tanto peso quanto o diálogo, e da pressão de um mundo que deixou de fazer sentido. No final, que não é fim mas suspensão, resta uma sala vazia, um eco de emoções dispersas e a constatação de que, mesmo quando lançamos luz sobre os acontecimentos, continuamos a navegar na escuridão. “Armand” é, assim, um triunfo de intensidade dramática e formal, dialogando com as estéticas do psicodrama e do surreal, encarnando o teatro do absurdo no cerne dos actos humanos. A actuação de Renate Reinsve como Elisabeth é o seu coração pulsante — visceral, desconcertante, a personificação de uma mãe que se torna espectro de si mesma. Tøndel afirma-se como um autor radical, capaz de transformar uma simples reunião parental numa profunda reflexão sobre culpa, linguagem, poder e a intranquilidade de aceitar que, por vezes, nada explica o inexplicável.

Título original: Armand Realização: Halfdan Ullmann Tøndel Elenco: Renate Reinsve, Ellen Dorrit Petersen, Endre Hellestveit Duração:  min. Noruega, Holanda, Suécia, Alemanha, Reino Unido, 2024 

O filme estreia esta quinta-feira na Filmin.

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