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Festival de Cannes 2026 | A Palma foi para Mungiu, mas Cannes premiou uma Europa inteira em estado de alarme

Com “Fjord”, Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro, num palmarés dominado pelo Leste europeu, pelas guerras do presente e do passado, e por um júri que preferiu multiplicar prémios a fechar portas. O palmarés do Festival de Cannes 2026 foi generoso, carregado, político, um pouco excessivo, por vezes brilhante, por vezes confuso, com tantos prémios divididos […]

Com “Fjord”, Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro, num palmarés dominado pelo Leste europeu, pelas guerras do presente e do passado, e por um júri que preferiu multiplicar prémios a fechar portas.

O palmarés do Festival de Cannes 2026 foi generoso, carregado, político, um pouco excessivo, por vezes brilhante, por vezes confuso, com tantos prémios divididos que, a certa altura, já não sabíamos se estávamos perante uma cerimónia de encerramento ou uma reunião de emergência onde ninguém queria assumir sozinho a responsabilidade de uma decisão directa. Mas enfim, foi no mínimo diplomático — e revelou bem a tendência deste júri, composto por cinco homens, incluindo o presidente, e quatro mulheres: quando a escolha aperta, reparte-se o bolo.

O júri presidido por Park Chan-wook não fez exactamente um palmarés tímido. Fez antes uma espécie de tratado diplomático em forma de lista de prémios. Distribuiu consagrações, compensações, gestos políticos, sinais de amizade, alertas morais e abraços colectivos. Houve Palma de Ouro para Cristian Mungiu, Grande Prémio para Andrei Zviaguintsev, Prémio do Júri para Valeska Grisebach, realização partilhada entre os espanhóis Javier Ambrossi e Javier Calvo e o polaco Pawel Pawlikowski, duas actrizes premiadas — Virginie Efira e Tao Okamoto — pelo mesmo filme, dois actores premiados — Emmanuel Macchia e Valentin Campagne — pelo mesmo filme e um Prémio de Argumento para Emmanuel Marre. No fim, quase parecia que o júri tinha saído da sala de deliberação com uma certeza absoluta: escolher é importante, mas dividir ajuda muito.

E, no entanto, convém dizê-lo desde já: por baixo da aparente barafunda, há uma linha. Uma linha forte, até. O Festival de Cannes 2026 premiou a Europa. Mais ainda: premiou uma certa Europa de feridas abertas, fronteiras morais, ruínas históricas, guerras reais ou fantasmadas, exílios, ressentimentos, minorias, corpos perseguidos, famílias julgadas, sociedades fracturadas e regimes em decomposição. Foi um palmarés com o mapa político debaixo do braço e a consciência histórica enfiada no bolso do smoking.

A segunda Palma de Mungiu: o romeno que foi filmar a Noruega

A Palma de Ouro para “Fjord”, de Cristian Mungiu (ganhou também o Prémio Fipresci da crítica internacional, numa das raras vezes que a critica esta de acordo com o júri e o Prémio do Júri Ecuménico), é o gesto mais forte e talvez o mais simbólico da noite. Primeiro, porque Mungiu entra no clube raríssimo dos cineastas que ganharam duas vezes a Palma de Ouro — Francis Ford Coppola, Bille August, Emir Kusturica, Shohei Imamura, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Michael Haneke, Ken Loach Ruben Östlund — depois de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, em 2007. Segundo, porque desta vez o romeno não regressa à Roménia de Ceaușescu, nem ao universo moral e claustrofóbico que o tornou um dos grandes nomes do cinema europeu contemporâneo. Vai para a Noruega. Ou melhor: leva a Roménia dentro de uma família evangélica romeno-norueguesa instalada numa pequena comunidade dos fiordes, onde o sistema social-democrata, tão civilizado, tão progressista, tão higiénico, tão certo de si, acaba por transformar-se subitamente numa máquina kafkiana.

Sebastian Stan em “Fjord”

“Fjord” parte de uma acusação: um pai é suspeito de maltratar os filhos. Não há provas claras, mas há suspeitas, preconceitos, choque cultural, desconfiança mútua e aquela extraordinária capacidade contemporânea de transformar a virtude pública numa forma muito sofisticada de violência privada. Mungiu, fiel ao seu cinema de dilemas morais sem saída fácil, não faz um filme confortável. Não oferece ao espectador a almofada ideológica onde este possa pousar a cabeça e dormir satisfeito consigo mesmo. Pelo contrário: obriga-nos a desconfiar da nossa própria empatia, das nossas certezas, do nosso progressismo automático e também do nosso medo legítimo perante o fanatismo religioso.

É uma Palma política, mas não panfletária. Uma Palma sobre tolerância, integração, parentalidade, migração, vigilância institucional e guerras culturais. Uma Palma para um filme que olha para a Europa como uma sala de estar impecavelmente aquecida onde, debaixo do tapete nórdico, continuam escondidas as mesmas velhas perguntas: quem tem o direito de educar? Quem tem o direito de julgar? Quem protege as crianças? Quem protege as famílias do excesso de protecção? E quem protege a sociedade da sua própria vontade de ser irrepreensível?

A familia romeno-norueguesa de “Fjord”.

A escolha de Mungiu tem também o peso da consagração. Cannes não premiou apenas um filme. Premiou uma obra, uma coerência, uma autoridade moral e estética. Mas não se trata de um prémio de carreira disfarçado. “Fjord” parece ter tocado precisamente no nervo desta edição: a fractura do mundo, a intolerância recíproca, a dificuldade de viver em comunidade quando todos falam de empatia, mas quase ninguém sabe praticá-la sem regras demasiado rígidas.

O Leste ganhou a noite, mesmo quando filmava fora de casa

Se há uma evidência neste palmarés é a força do cinema vindo do Leste europeu, ou orbitando em torno das suas feridas. Mungiu ganha a Palma. Zviaguintsev leva o Grande Prémio com “Minotaur”. Pawlikowski partilha a melhor realização com “Fatherland”Valeska Grisebach, alemã, recebe o Prémio do Júri por um filme rodado nos confins da Bulgária. A Europa central, oriental e pós-soviética atravessou Cannes como uma corrente subterrânea. Não exactamente como uma moda, mas como um diagnóstico da desordem, do caos, dos regimes repressivos e das falsas democracias em que tantos destes países se foram transformando.

“Minotaur”, de Andrei Zviaguintsev.

O Grande Prémio a “Minotaur”, de Andrei Zviaguintsev, tem uma dimensão cinematográfica e outra inevitavelmente política. Exilado em França desde a invasão russa da Ucrânia, o cineasta russo transforma a guerra numa presença fora de campo, mas omnipresente. Em vez de filmar directamente tanques, trincheiras ou soldados, observa a decomposição moral de uma sociedade através de um drama conjugal e criminal. É a Rússia como casa apodrecida por dentro. A guerra não entra pela porta; está nas paredes, na respiração, no silêncio, na corrupção banalizada.

E depois houve o discurso. Zviaguintsev dirigiu-se a Vladimir Putin e pediu-lhe que acabasse com a carnificina. Cannes adora discursos políticos, é verdade. Às vezes até os consome com a mesma rapidez com que consome vestidos no tapete vermelho. Mas há discursos que não são ornamento. Quando um cineasta russo exilado diz aquilo no palco do Grand Théâtre Lumière, não está a fazer pose. Está a arriscar alguma coisa. E, num festival onde se fala muito de coragem, convém distinguir a coragem real da coreografia da coragem.

Também Pawlikowski, com “Fatherland”, regressa a uma Europa de ruínas. Thomas Mann, Erika Mann, a Alemanha dividida, o pós-guerra, o preto e branco, a memória como ferida nobre mas também como museu demasiado bem iluminado. O prémio de realização, dividido com “La Bola Negra”, é um dos gestos mais curiosos do júri: de um lado, a contenção formal, o classicismo severo, a História emoldurada; do outro, o barroco queer, o excesso, o melodrama pop, a pulsão espanhola de filmar como quem atira confettis para cima de um cemitério.

“Fatherland”, de Pawel Pawlikowski.

Não admira que Pawlikowski tenha reagido com ironia ao caos da partilha. A certa altura, a própria cerimónia parecia uma aula prática sobre má encenação: demasiadas pessoas no palco, demasiadas emoções, demasiada diplomacia, demasiados agradecimentos. Mas Cannes também é isto: uma grande máquina de solenidade onde, de vez em quando, alguém tropeça no tapete e diz finalmente uma frase humana.

Os três ex aequo e a arte de não escolher

O grande traço deste palmarés é a partilha. Ou, se quisermos ser menos simpáticos, a dificuldade de escolher. A realização foi entregue ex aequo a Javier Ambrossi e Javier Calvo por “La Bola Negra” e a Pawel Pawlikowski por “Fatherland”. A interpretação feminina foi para Virginie Efira e Tao Okamoto por “Soudain”, de Ryusuke Hamaguchi. A interpretação masculina foi para Emmanuel Macchia e Valentin Campagne por “Coward”, de Lukas Dhont.

Tecnicamente, nem todos estes duplos prémios são ex aequo no sentido clássico. Mas, na prática, foram três decisões de partilha. Três formas de o júri dizer: não queremos separar aquilo que os filmes uniram. No caso de “Soudain”, faz todo o sentido. O filme de Hamaguchi vive da relação entre duas mulheres, duas línguas, duas formas de escuta, duas solidões que se reconhecem. Premiar apenas Virginie Efira ou apenas Tao Okamoto seria amputar o coração do filme. A dupla é o filme. O diálogo é a matéria. A amizade é a mise-en-scène.

Virginie Efira e Tao Okamoto por “Soudain”, de Ryusuke Hamaguchi.

No caso de “Coward”, a opção também se compreende. Emmanuel Macchia e Valentin Campagne encarnam dois jovens soldados na Primeira Guerra Mundial, unidos por um amor proibido no meio da lama, da morte e da masculinidade militar transformada em máquina de moer corpos. Lukas Dhont, que Cannes conhece bem, volta ao território dos corpos frágeis, dos afectos vigiados, das identidades feridas. O filme poderá dividir, e dividiu, mas os dois actores dão-lhe uma força emocional evidente. O prémio é também um gesto para uma juventude queer ainda obrigada, demasiadas vezes, a pedir licença ao mundo para existir e ser livre nas suas escolhas.

“La Bola Negra”, de Los Javis.

Já o ex aequo da realização é mais sintomático. “La Bola Negra”, de Los Javis, representa a vitalidade espanhola no seu modo mais exuberante, teatral, queer, excessivo, consciente da sua própria electricidade. “Fatherland” representa o prestígio europeu no seu modo mais austero, literário e histórico. Park Chan-wook e companhia não quiseram escolher entre o fogo-de-artifício e a gravura. Deram o prémio aos dois e pronto, está resolvido. É bonito? É. É justo? Talvez. É também uma forma elegante de fugir a uma discussão e sair com paninhos quentes. Naturalmente. Cannes vive disso desde sempre: da arte de transformar hesitações em conceitos.

As surpresas, as desilusões e os cadáveres elegantes à beira da Croisette

Todo o palmarés tem vencedores oficiais e derrotados oficiosos. Em Cannes, os segundos são quase sempre mais interessantes, porque saem da sala com sorriso diplomático e uma pequena faca cravada nas costas da vaidade. Este ano, os grandes ausentes foram James Gray, Pedro Almodóvar, Javier Bardem, talvez Arthur Harari, talvez Rodrigo Sorogoyen, talvez até alguns dos filmes que chegaram com rótulo de favoritos e saíram com a leveza amarga de quem já conhece o caminho até ao aeroporto.

James Gray voltou a sair de mãos vazias. Já começa a parecer perseguição, maldição ou piada privada entre Cannes e um dos grandes cineastas americanos contemporâneos. “Paper Tiger” podia não ser a sua obra-prima, mas havia ali domínio, tensão, cinema de adultos, arquitectura narrativa, mundo moral. Cannes gosta muito de James Gray, mas gosta dele sobretudo como figura trágica do palmarés: está sempre perto, nunca chega à estátua. É o convidado que todos elogiam no jantar e depois ninguém leva a casa.

Pedro Almodóvar também ficou sem prémio. Num ano de afirmação fortíssima do cinema espanhol, talvez se esperasse uma consagração para o mestre. Mas a Espanha acabou representada pela energia mais jovem, mais insolente e mais queer de “La Bola Negra”. É um sinal interessante. Cannes não virou costas a Almodóvar; apenas olhou, desta vez, para os seus herdeiros mais barulhentos. A sucessão simbólica também se faz assim: com o pai sentado na plateia e os filhos a demorarem-se demasiado ao microfone.

Javier Bardem, dado por muitos como forte candidato ao prémio de interpretação por “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen, ficou igualmente de fora. Talvez porque o júri tenha preferido premiar duplas, relações, corpos em espelho, e não grandes performances individuais. Talvez porque Bardem já carrega consigo tanto prestígio que os júris às vezes acham que aguenta tudo. Aguenta, claro. Mas uma coisa é aguentar; outra é não doer.

Yana Radeva em “The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach.

Entre as revelações, destaca-se Yana Radeva em “The Dreamed Adventure”, da alemã Valeska Grisebach, mesmo sem prémio de interpretação. O Prémio do Júri ao filme acaba por funcionar como reconhecimento dessa presença: uma mulher madura, uma paisagem de fronteira, uma Bulgária onde o crime parece a continuação natural do abandono, e uma mise-en-scène que não grita, mas fica. Num festival tantas vezes obcecado com juventude, brilho e estreia de rostos embalados para o mercado, este prémio tem qualquer coisa de justo e raro.

O critério do júri: política, duplas e a Europa em estado de alerta

O que quis dizer este júri? Quis dizer, antes de mais, que o cinema continua a ser uma ferramenta de leitura do mundo. Não necessariamente uma ferramenta de salvação, porque essa conversa já cansa um bocadinho. O cinema não impede guerras, não trava ditadores, não resolve a crise da habitação, não faz baixar os preços nos restaurantes de Cannes e, infelizmente, não impede certos discursos de agradecimento de durarem mais do que deviam. Mas pode organizar o caos. Pode dar forma ao desconforto. Pode obrigar-nos a olhar para a violência quando ela já se tornou ambiente.

A guerra atravessou este palmarés: Ucrânia, Vichy, Segunda Guerra Mundial, Primeira Guerra Mundial, Guerra Civil Espanhola, genocídio ruandês, fascismos antigos e novos, pequenos tiranos, grandes carniceiros, sistemas sociais que protegem e esmagam. Mas não foi um palmarés apenas da guerra. Foi também um palmarés da intimidade sob pressão: famílias, casais, amigos, amantes, pais, filhos, corpos vigiados, minorias historicamente apagadas.

A grande astúcia do júri foi, afinal, premiar filmes onde o político não aparece apenas como tema, mas como estrutura moral. “Fjord” não é sobre a Noruega ou a Roménia; é sobre a suspeita como forma de governo. “Minotaur” não é apenas sobre a Rússia; é sobre a corrupção como ar respirável. “Notre Salut” não é apenas sobre Vichy; é sobre os medíocres que prosperam quando a História precisa de funcionários para fazer o trabalho sujo. “La Bola Negra” não é apenas sobre memória queer; é sobre os capítulos arrancados ao livro oficial da História. “Coward” não é apenas sobre amor homossexual nas trincheiras; é sobre o futuro roubado aos corpos jovens por causas que nunca foram verdadeiramente suas. Olhem para o mundo agora: dificilmente estes temas poderiam ser mais actuais.

Os melhores actores foram Emmanuel Macchia e Valentin Campagne por “Coward”, de Lukas Dhont.

Daí que este palmarés, mesmo quando parece indeciso, tenha uma coerência. A coerência de uma Europa assombrada. Uma Europa onde o passado não passa, o presente range e o futuro parece uma coisa entregue ao departamento errado.

No fim, a segunda Palma de Mungiu é também isto: a vitória de um cinema adulto, desconfortável, moralmente ambíguo, que desconfia tanto dos fanáticos como dos virtuosos profissionais. Num tempo em que tanta gente quer filmes que confirmem aquilo que já pensa, Cannes premiou um filme que parece interessado em fazer-nos pensar contra nós próprios. É uma boa notícia. E, convenhamos, também uma pequena provocação. A Palma foi para “Fjord”, mas o gelo partiu-se em vários sítios.

Palmarés do Festival de Cannes 2026

Competição Oficial

Palma de Ouro
“Fjord”, de Cristian Mungiu

Grande Prémio
“Minotaur”, de Andrei Zviaguintsev

Prémio do Júri
“The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach

Prémio de Melhor Realização
Javier Ambrossi e Javier Calvo, por “La Bola Negra”
Pawel Pawlikowski, por “Fatherland”

Prémio de Melhor Interpretação Feminina
Virginie Efira e Tao Okamoto, por “Soudain”, de Ryusuke Hamaguchi

Prémio de Melhor Interpretação Masculina
Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, por “Coward”, de Lukas Dhont

Prémio de Melhor Argumento
“Notre Salut”, de Emmanuel Marre

Outros prémios

Câmara de Ouro
“Ben’Imana”, de Marie-Clémentine Dusabejambo

Palma de Ouro da Curta-Metragem
“Aux adversaires”, de Federico Luis

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