Em gestação há cerca de cinco anos, desde que «Elle» mobilizou o planeta a partir da singular atuação de Isabelle Huppert, «Benedetta» nasceu como uma erótica leitura das pesquisas de Judith C. Brown no livro “Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy”, com foco numa freira milagreira e a orientação sexual homoafetiva. Mas esperou-se um tom épico de alguém que prefere a ironia e a desconstrução à solenidade da História: o diretor holandês Paul Verhoeven. Ele aqui reestabelece vínculos com a indústria francesa, que tem encampado o seu projeto de regresso aos holofotes do audiovisual após uma ruptura de laços com a Hollywood para a qual dirigiu «Total Recall» (1990) e «RoboCop» (1987). E, em França, o prestígio autoral QB de que desfruta endossa os seus diálogos com o lado B de géneros, como as sagas sobre a Era Moderna, revisitadas aqui a partir de uma estética que lembra as BDs de Milo Manara, na sua maneira de abordar o corpo feminino. Em especial o corpo de Virginie Efira.

No apogeu da sua popularidade e do seu respeito entre os críticos, a atriz belga, elogiada por «Sibyl» (2019), torce as convenções do maniqueísmo levando a sua personagem, Benedetta, a uma fronteira ténue entre a ingenuidade e o mau-carácter. Agraciada com dons típicos das forças de Deus, essa sacerdotisa cai de joelhos diante do desejo por uma colega de hábito, a recém-chegada Bartolomea (Daphne Patakia), na Toscana dos 1600. A relação entre as duas floresce em um momento em que ela ascende na casta da sua Igreja, conquistando um poder antes exercido pela abadessa Felicita (Charlotte Rampling, em memorável desempenho). Esta prefere investigar códigos que lhes soam pecaminosos nos olhares entre Benedetta e a moça que ela adotou como pupila. Aos poucos, uma intriga se arma no âmbito do clero, envolvendo um magistrado da fé, Giglioli (Lambert Wilson), uma figura fundamental para Verhoeven fazer o que de melhor tem produzido desde «Instinto Fatal» (1992): retratos do empoderamento e da revanche das mulheres contra a opressão sexista. A fotografia de Jeanne Lapoirie dá um tom claustrofóbico a essa narrativa cujas cores realçam sua sensorialidade.

Título original: Benedetta Realização: Paul Verhoeven Elenco: Virginie Efira, Charlotte Rampling, Daphne Patakia, Lambert Wilson. Duração: 131 min França/Bélgica/Holanda, 2021

https://www.youtube.com/watch?v=n-31QJXV3iA
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