Rio de Janeiro, 1970. Os meninos jogam à bola descalços na rua, os adolescentes praticam vólei na rede na areia, outros tomam banho de mar e falam dos romances típicos da idade. O sol quente brilha e o oceano estende-se ao longo do areal. Os adultos fumam e bebem whiskey e ouvem discos enquanto conversam sobre a vida, uma vida que tenta “escapar” à ditadura militar que impera no país depois do regime de João Goulart ser deposto em 1964.
O domínio militar só viria a terminar em 1985, depois de 20 anos de usurpação dos direitos civis e políticos da população, de episódios de tortura, sequestros, desaparecimento de pessoas e uma censura atroz da cultura e da arte, mas «Ainda Estou Aqui» não é um documentário sobre este período trágico na história do Brasil que aterrorizou mais de 20 mil pessoas e matou mais de 400 pessoas.
No seu filme, Walter Salles leva-nos numa viagem a esta fase da vida de um Brasil a pulsar de vida mas prisioneiro de um regime castrador através de uma família de classe média do Rio de Janeiro. Rubens Paiva (Selton Mello) é um deputado do regime deposto, casado, pai de cinco filhos, engenheiro de profissão. Em janeiro de 1971, homens armados do regime militar entram em casa e levam-no para interrogatório. Nunca mais o vemos e a família também não.
Da sua personalidade doce e olhar enamorado pela sua esposa e filhos, ficam apenas vestígios e não existem respostas para as perguntas que surgem. Quem o levou, onde está, porque foi preso, quando vai voltar são apenas algumas delas. Sem grandes artifícios, Salles localiza-nos na época de forma exímia, através de cenários, roupas, acessórios e automóveis, e de uma banda sonora que não desilude. A simplicidade é aplicada em tudo, numa verdadeira expressividade de “menos é mais”, não evitando o desconforto quando assim tem que ser. Os diálogos suportam o que não é visto e o resto fica a cargo do elenco.
Fernanda Torres tem conquistado a crítica no papel de Eunice, a esposa de Rubens Paiva e mãe dos seus cinco filhos, mas em «Ainda Estou Aqui» também estes jovens atores contribuem para a carga emocional do filme que arranca depois do “desaparecimento” de Rubens Paiva. Eunice, sua esposa, e seguindo o modus operandi das milícias, é levada, assim como uma das suas filhas, para ser interrogada e presa numa solitária durante diversos dias, regressando depois a casa, onde percebe que a sua vida nunca mais vai ser a mesma.
E será este o centro do filme de Walter Salles. «Ainda Estou Aqui» é sobre Eunice, é sobre a sua capacidade de resiliência e a forma como protege os seus, ao mesmo tempo que batalha para ter uma resposta sobre o paradeiro do marido. É neste momento que nos “rendemos” a ela e arregaçamos as mangas para “lutar” ao seu lado, descobrindo em nós, sem esforço, a nossa maior empatia e desbloqueando os nossos braços para a amparar.
Num contexto de imposição e perante a intransigência de um sistema, a capacidade de resposta é posta à prova e a resistência pratica-se de várias formas. O que a Eunice Paiva de Fernanda Torres nos ensina é que, às vezes, a maior resistência pratica-se na aceitação da própria vida e no esboço do sorriso quando tudo vira sombra e todos esperam o contrário.

Eunice não quis ser “boazinha”, quis apenas poupar os seus filhos, direcionando a sua raiva e resignificando a sua dor para fazer a diferença na vida de outros. Tornou-se advogada dos povos indígenas e salvou os seus, reencontrando a beleza da vida nos momentos mais simples e abrindo novos caminhos, que de outra forma estariam vedados, enquanto lutou para que os crimes não ficassem impunes.
O convite de Salles é para entrarmos na vida de uma família que num dia está apenas preocupada com as questões do dia-a-dia, as típicas lutas entre irmãos, e os pequenos prazeres da vida, e no outro tem de fazer o seu luto, a seu tempo e ao seu ritmo, e reerguer-se, aceitando que não controlamos nada a não ser a forma como nos reerguemos. Fernanda Torres e Fernanda Montenegro representam Eunice em dois momentos distintos e é também este reencontro geracional que nos abala e embala emocionalmente, permitindo que «Ainda Estou Aqui» fique connosco durante mais tempo.
Título original: Ainda Estou Aqui Título internacional: I´m Still Here Realização: Walter Salles Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Valentina Herszage Duração: 136 min. Brasil/França, 2024

