Os excessos, daqueles que desafiam toda e qualquer medida tolerável, são a matéria que move o cinema febril do nova-iorquino Darren Aronofsky desde 1998, quando «Pi» lhe deu a láurea de Melhor Direção em Sundance e consagrou a sua então recém-fundada produtora, Protozoa Pictures, como fábrica de força para a seara indie do audiovisual americano.

Na década de 1990, na fricção entre George W. H. Bush e Bill Clinton, o cinema dos EUA viveu a aurora de uma nova geração de vozes autorais independentes (até certo ponto) de Hollywood, capazes de gerar um ruído criativo de fazer jus aos libertários criadores da Easy Rider Generation (Scorsese, Coppola, De Palma, Schatzberg, Rafelson Elaine May, Schrader). Dessa safra noventista. Tarantino virou titã; Paul Thomas Anderson colecionou obras-primas; Wes Anderson tornou-se grife plástica; e Aronofsky estabeleceu uma reputação de realizador-autor inquieto, ora com produção de maior vulto comercial (como «Noé», de 2014), ora em narrativos de risco («Mãe!», de 2017). Colheu vaias (com o injustiçado «O Último Capítulo»), mas também colheu milhões e indicações ao Oscar (com «Cisne Negro», que custou US$ 13 milhões e faturou US$ 330 milhões). Debitou até uma obra-prima, coroada com o Leão de Ouro de Veneza: «The Wrestler» (2008), que deu a Mickey Rourke o papel da sua vida, agraciada com o Golden Globe. A inquietude desse cineasta se dá na construção de narrativas vertiginosas, quase sempre claustrofóbicas, ao requinte de se instaurarem numa decupagem de plano teatral, como o colossal «The Whale» (2022), que oscarizou Brendan Fraser. A vertigem que vem lá do seu 3,1416 da juventude (referência ao valor suposto de pi) guia a «Apanhado a Roubar» («Caught Stealing»), thriller feroz apelidado no Brasil de «Ladrões».  



Desde que os seus primeiros reclames publicitários começaram a circular, em maio, a primeira aposta da indústria era de que o filme fosse concorrer no Festival de Veneza ou, no mínimo, entrar nas suas mostras paralelas, uma vez que o evento tem sido o porto seguro de Aronofsky há duas décadas. Ele foi jurado por lá em 2011, quando o russo Aleksandr Sokurov venceu com «Fausto», e concorreu algumas vezes, endossado pela boa reputação que adquiriu em Cannes ao levar para a Croisette o seu doído «A Vida Não é Um Sonho», projetado pelo Festival de Tribeca, em junho, na comemoração dos 25 anos desse mergulho no pesadelo do vício – um chamariz do excesso, tema de Darren. Especulou-se ainda sobre San Sebastián, que realiza a sua maratona este ano de 19 a 27 de setembro. Aronofsky produziu o único filme brasileiro que foi laureado por lá com a Concha de Ouro: «Pacificado» (2019), de Paxton Winters, ambientado no Morro dos Prazeres. Apesar disso, o seu novo (e mesmerizante) trabalho optou por se lançar diretamente em circuito, confiando no seu tato comercial e no apelo de Austin Butler («Elvis»), o seu protagonista. A atuação do rapaz é exemplar.


Com base no romance “Caught Stealing” de Charlie Huston, a produção de US$ 40 milhões nos convida a seguir a saga de um craque de beisebol, Hank, que parou de jogar depois de uma tragédia e tenta se livrar do chamariz do álcool. Beber é a sua ruína. Só que uma ruína ainda mais funda e perigosa o aguarda depois que um vizinho punk, Russ (Matt Smith), abre as portas dos seus sarilhos para Hank, ao abandoná-lo com uma chave que pode ser o passaporte para uma fortuna, das mais ilegais. Ele tem uma namorada apaixonada (Zoe Kravitz), que é profissional de saúde e vai trata-lo das suas mazelas depois de dois bandidões eslavos quebram a sua cara. Temos um policial de índole indomável no seu encalço (papel de Regina King) e dois mafiosos judeus ortodoxos, interpretados por Vincent D’Onofrio e Liev Schreiber nas raias do humor. A fotografia de Matthew Libatique dá o colorido a essa fauna de gente estranha com bases terrígenas, bruxuleando a luz aqui e a li para dialogar com a genealogia do noir. A iluminação sobre (e em torno de) Hank, contudo, é sempre apolínea, de modo a expor sua aura e a esperança que insiste se manter fiel a ele. 

É difícil pensar num thriller de marca autoral com tanta ação quanto «Apanhado a Roubar» quando se analisa o repertório das vozes autorais reveladas nos EUA da década de 1990 para cá. Mais difícil ainda é não se deixar prender nas referências a «After Hours» (1985), de Martin Scorsese, filme de culto ao qual o atual Aronofsky se assemelha, na forma e na dramaturgia, na estrutura de um corpo em movimento por uma cidade que o oprime numa minutagem esmagadora, de ticking clock. A montagem de Andrew Weisblum é fundamental para essa analogia entre uma das melhores longas-metragens de 2025 e o marco cinéfilo scorsesiano da década de 1980. A sua edição segue um ritmo de taquicardia, aderente ao torvelinho de má sorte de um indivíduo excessivamente azarado, o pobre Hank.   

Título original: Realização: Darren Aronofsky Elenco: Austin Butler, Zoë Kravitz, Regina King, Matt Smith, Liev Schreiber, Vincent D’Onofrio, Bad Bunny Duração: 107 min. EUA, 2025

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