Elvis

ELVIS

ELVIS

Trabalhando com o guitarrista Ry Cooder em «Paris, Texas» (1984), Wim Wenders, o realizador de joias como «Buena Vista Social Club» (1999), aprendeu uma lição que virou lema: “O rock’n’roll salva vidas, pois ele mostra o limite entre tédio e vazio existencial. O rock salvou a minha geração da inércia”. O sentimento dele é compartilhado por outros cineastas, alguns egressos do chamdo Novíssimo Mundo, a Austrália. É o caso de Baz Luhrmann, a julgar pelo que se viu de «Elvis» no 75º Festival de Cannes. Poucas longas-metragens traduzem melhor esse ideal analgésico do rock do que a saga de Elvis Presley (1935-1977), um “filme de autor” com A capitular, feito por um diretor sem qualquer laço com o existencialismo de Wenders, mas que, assim como o mestre alemão, percepciona a relação essencial da imagem com outros vertores da arte, como a canção pop.

Eletrizante do começo ao fim das suas duas horas e 39 minutos, energizado por uma montagem supersónica, cheia de vinhetas e efeitos de animação, «Elvis» transpira Baz Luhrmann, sendo uma espécie de «Moulin Rouge» do rock’n’roll, numa afirmação da identidade autoral de seu realizador, mas abre deixas para louvar o soul, o beebop, a country music, o gospel. Toda a raiz musical de Presley é revisitada pelo cineasta australiano nessa cinebiografia que foi ovacionada por nove minutos na sua estreia mundial hors-concours em Cannes. O seu Elvis, Austin Butler, está radiante em cena, sem o fardo de mimetizar o Rei do Rock. O que lhe importa é a essência de Presley, os movimentos, a rebeldia, o espírito, de uma forma similar àquela que Val Kilmer usou para construir Jim Morrison em «The Doors» (1991) e àquela que Rami Malek apresentou na pele de Freddie Mercury em «Bohemian Rhapsody», em 2018. Não é um cinema de psicografia, de fotocopia. É recriação. E quem mais brilha nesse processo é o próprio Luhrmann, que aplica os procedimentos inquietos da sua obra pop neste aguardado biopic, reforçando a sua identidade autoral. Já se fala em nomeações ao Oscar para o realizador, para Butler e, sobretudo, para o trabalho de Tom Hanks, que aparece maquiadíssimo em cena no papel do empresário do cantor: o Coronel Tom Parker (1909-1997). É a partir do calvário de Parker que a longa-metragem é narrada, apoiando-se na mais inspirada atuação de Hanks em anos.

Uma das referências assumidas pelo cineasta, e que transborda em cena, foi o filme «Amadeus» (1984), que rendeu o Oscar ao tcheco naturalizado americano Milos Forman (1932-2018), narrando a rivalidade entre o jovem Mozart (Tom Hulce) e o seu suposto mestre, Salieri (F. Murray Abraham). Há uma estrutura similar na maneira como Tom Parker explorou Elvis, levando-o à crises nervosas ao fazer de tudo para impedi-lo de viajar e quebrar contratos com um cassino de luxo em Las Vegas.

Nevrálgica, a montagem da longa, assinada por Anton Monsted e Elliott Wheeler, vai além dos códigos do videoclipe, conversando mais com a estrutura passional de Luhrmann do que com a jogabilidade narrativa do legado da MTV.

Título original: Elvis Realização: Baz Luhrmann Elenco: Tom Hanks, Austin Butler, Olivia DeJonge, Kodi Smit-McPhee Duração: 159 min. Austrália/EUA, 2022