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UM LUGAR SILENCIOSO 2

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«Um Lugar Silencioso 2» é um thriller arrepiante e ao qual é difícil de virar as costas. Pode-se dizer que ficamos colados ao ecrã do primeiro ao último minuto. Relembramos que o conceito original de Scott Beck e Bryan Woods, com o auxílio de John Krasinski, lidava com uma invasão da Terra por uma implacável espécie alienígena que perceciona o espaço através da audição e que empala tudo o que se mexe dizimando a vida no planeta. No centro da história está uma família que tem de se reinventar para sobreviver.

Em «Um Lugar Silencioso 2» o vertiginoso prólogo é um excelente cartão de visita para os acontecimentos que se seguem, não ficamos pendurados se não tivermos visto o primeiro capítulo, e o filme não desilude em nenhum instante. O paradigma muda na sequela, saímos do isolamento da quinta e da luta pela sobrevivência da família Abbott, da dinâmica dos pais na sua relação e na proteção dos filhos. Neste filme é o lugar dos filhos procurarem a esperança e criarem um lugar sem monstros. É evidente que para nós que sobrevivemos a um ano que marcará o resto das nossas vidas, «Um Lugar Silencioso 2» partilha alguns lugares-comuns, seja na disrupção da sociedade, o enfrentar uma nova realidade, o isolamento, a angústia, mas também a necessidade de lutar e derrotar todas as adversidades.

Os protagonistas deste filme iniciam uma catarse conjunta onde encetam diferentes viagens que culminam numa grandiosa apoteose onde os laços se reforçam e todos lutam contra um inimigo comum. Os personagens mais adultos, Evelyn Abbott (Emily Blunt) e Emmett (Cillian Murphy) devem ultrapassar os seus próprios medos e fazerem a diferença. Nesta premissa, mesmo com um elenco pequeno mas de qualidade superlativa, os fios narrativos destrinçam-se perante o olhar atento dos espectadores. O intimismo da família dá lugar à panorâmica do espaço e do mundo pós-apocalíptico onde o terror está à distância do mínimo ruído. A dupla de jovens actores enchem a vista, Noah Jupe e Millicent Simmonds (melhor desempenho do filme) levam mais além os seus papéis. Estes tinham mesmo de ser bem destilados para nos fazer acreditar e seguir a jornada alucinante destes personagens que pela sua condição única (são surdos) observam o mundo de uma forma singular – lembramos que Millicent Simmonds é surda na vida real. Emily Blunt tem um desempenho pleno de estoicismo, alguém que irá até ao inferno para salvar os seus filhos. Para a matriarca do clã Abbott não é um momento de luto, apenas de sobrevivência. A actriz mostra urgência no seu desempenho mas é ofuscada pelas performances de Millicent Simmonds e Cillian Murphy. O actor britânico que é como o algodão, não engana, veste totalmente o corpo e o cepticismo do seu personagem que terá de lutar com os seus temores para vencer a apatia e agir. É muito mais do que um desempenho físico, a intensidade está espelhada no seu rosto.

A finalizar, mérito para o desempenho na cadeira de realizador e argumentista de John Krasinski, um director de actores e de planos extremamente bem filmados em película de 35mm. John Krasinski é cada vez mais uma certeza atrás da câmara, seja pela sensibilidade com os actores, seja com um olhar clínico e mesmo na supervisão dos vários departamentos de arte, na criação de uma obra imersiva. No capítulo técnico, os monstros também estão mais assustadores e com vários detalhes de FX da Industrial Light and Magic que permitem ver o terror em todo o seu esplendor.

A Paramount apostou na paixão de John Krasinski e venceu, voltou a tomar a decisão acertada, «Um Lugar Silencioso 2» faz-nos voar baixinho numa imparável montanha russa emocional. É uma obra sensorial que tem outro sentimento no interior de uma sala de cinema. Bem-vindos ao factor medo!

Título original: A Quiet Place Part II Realização: John Krasinski Elenco: Emily Blunt, Millicent Simmonds, Cillian Murphy, Noah Jupe. Duração: 97 min. EUA, 2021

BIRDS OF PREY

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E A FANTABULÁSTICA EMANCIPAÇÃO DE UMA HARLEY QUINN

«Esquadrão Suicida» (2016) não é um filme
particularmente memorável, mas houve um ponto alto que mostrou à DC outro caminho passível de explorar: Harley Quinn. As cenas com a personagem foram as melhores do filme e muito se deve à interpretação
marcante de Margot Robbie. A atriz australiana deu vida a uma anti-heroína excêntrica, desvairada e completamente imprevisível, não deixando passar a oportunidade para mostrar a sua versatilidade.
Margot Robbie é mesmo uma das atrizes do momento, contando já com duas nomeações aos Óscares, por «Eu, Tonya» (2017) e «Bombshell – O Escândalo» (2019), além da participação em filmes como «O Lobo de Wall
Street» (2013), «Maria, Rainha dos Escoceses» (2018) e «Era Uma Vez em… Hollywood» (2019).

Harley Quinn regressa agora ao Cinema com toda a força num filme mais focado em si. É certo que continua a estar a inserida num grupo – desta vez apenas feminino -, mas a narrativa será sobre ela. É também o primeiro da DC para maiores de 18 anos – Harley Quinn já está a fazer História. Falando em girl power, este é um filme realizado, escrito e protagonizado
por mulheres. Cathy Yan dirige, após ter tido aceitação positiva das suas curtas-metragens e de «Dead Pigs», que marcou a sua estreia nas longas-metragens. Christina Hodson está a cargo do argumento, depois de ter
assinado «Shut In – Reféns do Medo» (2016), «Unforgettable» (2017) e «Bumblebee» (2018). «Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação De
Uma Harley Quinn)» baseia-se em livros de bandadesenhada publicados na década de 1990 sobre um grupo de heroínas femininas e será o oitavo do
Universo Cinematográfico da DC. Destaque, ainda, no elenco, para Ewan McGregor, que interpreta o papel de um sádico vilão, e para as atrizes que
interpretam os restantes elementos do grupo de heroínas que acompanham a protagonista, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell e Rosie
Perez. Depois deste filme, Harley Quinn já tem nova presença garantida no Cinema, em «The Suicide Squad», previsto para 2021, e que também terá participação da atriz portuguesa Daniela Melchior.

Aquí, de Tiago Guedes, na Selecção Oficial do Festival de Cannes

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A Leopardo Filmes teve o prazer de informar que o novo filme de Tiago Guedes, AQUÍ, integrará a Selecção Oficial da 79ª edição do Festival de Cannes (12 a 23 de Maio de 2026).

O festival anunciou que AQUÍ, a adaptação de Tiago Guedes da ‘Trilogia de Jesus’ do Nobel da Literatura J. M. Coetzee, fará parte da secção Cannes Première, a selecção mais importante do certame a par da competição, e será exibido no dia 18 de Maio na sala Debussy, com a presença do realizador, dos actores, do produtor Paulo Branco e do escritor J. M. Coetzee.

Depois da presença na Competição do Festival de Veneza em 2019, com A Herdade, e da estreia em Cannes, na Selecção Oficial, de Restos do Vento em 2022, Guedes regressa ao festival de cinema mais importante do mundo com o seu novo filme, rodado em Espanha e Portugal, e que conta com um extraordinário elenco internacional.

AQUÍ terá estreia em Portugal a 3 de Dezembro, e será distribuído pela NOS Lusomundo Audiovisuais.

Sinopse

Num lugar onde todos recomeçam sem passado, Simón assume a responsabilidade por David, uma criança que conhece na travessia até essa nova vida. Movido por uma convicção inexplicável, procura a mãe do rapaz e reconhece em Inés a mulher certa. Ela aceita, e entre os três forma-se um núcleo afetivo invulgar, onde a ideia de família se reinventa a cada gesto. Mas, enquanto a sociedade impõe regras e a diferença é vista como ameaça, David não se deixa moldar e afirma-se como o seu oposto: imaginação e liberdade, tornando a parentalidade uma travessia incerta, uma busca sem respostas, onde amar é também aceitar não compreender.

“Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio” no Festival de Cannes

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A curta-metragem Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio, do realizador português Daniel Soares, integra a Competição Oficial de Curtas-Metragens da 79.ª edição do Festival de Cannes, onde terá a sua estreia mundial.
Distribuído pela Agência da Curta Metragem, o filme marca o regresso de Daniel Soares ao Festival de Cannes, contribuindo para a afirmação e reconhecimento internacional do realizador português nos principais festivais de cinema. Em 2024, foi distinguido em Cannes com uma Menção Honrosa à Palma de Ouro pela sua obra Bad For a Moment, tendo igualmente apresentado os seus trabalhos em festivais como Locarno e Clermont-Ferrand.Resultado de uma coprodução entre as produtoras O Som e a Fúria (Portugal), L’Oeil Vif Productions (França), e Kid With a Bike (Portugal), o filme parte de uma imagem inquietante — um grupo de adolescentes flutua rio abaixo, fingindo estar morto para as redes sociais, enquanto um deles vai à deriva.A obra inscreve-se na linha temática que tem caracterizado o cinema de Daniel Soares, marcado por uma abordagem sensível e crítica às dinâmicas da sociedade contemporânea. Entre os temas recorrentes destacam-se a alienação social, a fragilidade das relações humanas, a precariedade laboral e o impacto das novas formas de comunicação na construção da identidade individual e coletiva.Com esta seleção, Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio (2026, Portugal/França, FIC, 14′) integra um dos mais prestigiados palcos do cinema mundial, reforçando a presença do cinema português no panorama internacional e confirmando Daniel Soares como uma das vozes emergentes a acompanhar de perto.

Um Sinal Secreto

Ao escrever sobre «Um Sinal Secreto» no início de 2026, há uma sensação de que estamos a fazer batota, mas a realidade é que visionamos esta obra sobre outro prisma face aos acontecimentos no mundo real. Dois eventos incidem na visão que fica após o término desta obra. O primeiro, o fenómeno de bilheteiras de «A Criada», o filme de Paul Feig com Sydney Sweeney e Amanda Seyfried, foi baseado no best seller homónimo de Freida McFadden, é um grande retrato sobre a masculinidade tóxica e o reverso dessa medalha… O segundo acontecimento é a publicação parcial dos ficheiros Epstein nos EUA, onde se levanta mais um pouco do véu medonho dos atos que o multimilionário e amigos fizeram com as suas vítimas de adolescentes a mulheres através do grooming. Ao vermos «Um Sinal Secreto», uma bela surpresa realizada por Zoë Kravitz — atriz e agora promissora realizadora —, ela revela, na sua obra de estreia, um panorama digno da ilha de Epstein.

Frida (a talentosa e expressiva Naomi Ackie) deseja um lugar ao sol, é pobre e não tem onde cair morta. Frida, quando está a trabalhar como empregada num evento de ricos e famosos, faz-se passar, com a sua amiga, por uma convidada e subitamente estabelece uma conexão com o anfitrião. Slater (Channing Tatum) é um milionário das novas tecnologias e tem uma reputação de bad boy, mas diz estar renascido para o mundo após penitenciar os seus pecados… Onde é que já ouvimos isto? Slater e os seus amigos vão todos para uma ilha paradisíaca que é a sua propriedade e as acompanhantes são todas jovens e atraentes, mas quando começam a dialogar umas com as outras, apercebem-se de que todas elas são pessoas normais e insignificantes face a esses titãs da indústria. Quando desaparece a melhor amiga de Frida, a trama complica-se; a partir daí o mundo fica invertido num daqueles twists incríveis que provavelmente deixariam Epstein e companhia com vontade de pedir direitos de autor… Um filme bem interpretado, um elenco secundário com pequenos, mas bons apontamentos. E Channing Tatum, mesmo em velocidade cruzeiro, quando chega ao clímax, apresenta-se uma persona gélida e assustadora. Zoë Kravitz assinou o argumento com E.T. Feigenbaum numa história que por vezes parece tão errática quanto a própria realidade de um mundo cada vez mais desigual, em que os ultra-ricos comportam-se como bestas no seu estado mais primário, tratando os desfavorecidos como carne para canhão.

Título original: Blink Twice
Realização: Zoë Kravitz
Elenco: Naomi Ackie, Channing Tatum, Christian Slater, Alia Shawkat, Adria Arjona
Duração: 102 min. 
EUA/México, 2024

Ponies

Entre a intimidade emocional e o jogo geopolítico da Guerra Fria, «Ponies» observa a espionagem a partir de um ângulo invulgar: o das mulheres recrutadas para operar nas margens do poder.

Ambientada na Europa fragmentada da Guerra Fria, «Ponies», da SkyShowtime, regressa a um período amplamente explorado pelo cinema e pela televisão, mas fá-lo através de uma escala deliberadamente contida. Em vez de privilegiar cimeiras diplomáticas, desertores mediáticos ou confrontos espetaculares entre blocos ideológicos, a série concentra-se na engrenagem invisível do conflito. É nesse espaço intermédio, entre o quotidiano e a geopolítica, que a narrativa se instala, sugerindo que a História também se constrói a partir de gestos mínimos e decisões tomadas longe do olhar público.

No centro narrativo estão Emilia Clarke como Bea Grant e Haley Lu Richardson como Twila Hasbeck: duas americanas em Moscovo, em 1977, cujas vidas mudam radicalmente após a morte misteriosa dos seus maridos, agentes da CIA. Insatisfeitas com a explicação oficial, recusam regressar aos Estados Unidos e decidem procurar respostas por conta própria, oferecendo os seus serviços à agência com segundas intenções. Essa transição para o terreno operacional lança-as num complexo jogo de espionagem e conspiração, onde o desejo de compreender o passado se cruza com os riscos concretos da presença ativa durante a Guerra Fria.

O conceito de “Persons of No Interest” [Pessoas Sem Interesse, por oposição a POI, Pessoa de Interesse] funciona em «Ponies» como mais do que um detalhe operacional: é o princípio estruturante da narrativa. Bea e Twila são escolhidas pela sua presença discreta na hierarquia institucional, uma condição que lhes garante mobilidade e ausência de suspeita. Secretárias, viúvas, mulheres jovens num espaço diplomático dominado por homens – a sua presença não aciona alarmes, não convoca suspeitas, não produz ruído.

Se a invisibilidade é o ponto de partida estratégico, a identidade é o território onde «Ponies» instala a sua tensão mais persistente. A espionagem não surge como sequência de golpes engenhosos, mas como exercício prolongado de representação. Bea e Twila assumem novas identidades e sustentam versões alternativas de si próprias num ambiente onde cada gesto é passível de interpretação, cada silêncio é sujeito a escrutínio, e cada hesitação pode ser comprometedora.

A performance deixa de ser episódica e transforma-se em condição permanente. A fronteira entre papel e pessoa esbate-se à medida que as missões se acumulam e as exigências operacionais invadem o espaço íntimo. O verdadeiro risco deixa de ser apenas a descoberta externa e passa a ser a erosão interna – o momento em que a máscara deixa de funcionar como instrumento e começa a moldar quem a usa.

Neste sentido, «Ponies» aproxima-se menos do thriller de ação e mais de um estudo sobre adaptação psicológica. Sobreviver implica saber representar, mas também saber regressar – e é nesse movimento instável entre encenação e autenticidade que a narrativa encontra uma das suas camadas mais densas.

Ao recusar o espetáculo e privilegiar a tensão silenciosa, «Ponies» constrói a espionagem como experiência de compressão – emocional, política e identitária. A Guerra Fria surge menos como confronto ideológico abstrato e mais como ambiente de desgaste contínuo, onde cada escolha tem peso. O heroísmo não é proclamado; é administrado. A sobrevivência não depende de feitos extraordinários, mas da capacidade de gerir perceções, suportar ambiguidade e aceitar que a verdade raramente se apresenta inteira.

Nesse sentido, a série afasta-se da visão heroica tradicional do universo clandestino. Em vez de agentes infalíveis, apresenta figuras moldadas por circunstâncias que as ultrapassam, obrigadas a negociar constantemente entre convicção e pragmatismo. Ao colocar figuras “sem interesse” no centro de um jogo que sempre as tratou como marginais, «Ponies» não reescreve a História – revela as suas zonas de sombra, lembrando que o poder também se exerce através do silêncio, da invisibilidade e do que permanece fora do enquadramento oficial.

Imperfect Women

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Kerry Washington, Elisabeth Moss e Kate Mara protagonizam «Imperfect Women», mais uma minissérie de inspiração literária da Apple TV+. Baseada no livro homónimo de Araminta Hall, a narrativa apresenta três personagens femininas que se recusam a vestir abertamente o papel de heroína ou vilã. Essa ambiguidade torna-as multidimensionais, suscetíveis tanto de elogio como de crítica, e tudo menos previsíveis. À medida que a história avança, segredos antigos e ressentimentos acumulados começam a emergir, expondo as fragilidades de uma amizade construída ao longo de décadas. O que parecia um laço inquebrável revela-se mais instável do que qualquer uma delas estaria disposta a admitir.

História

Um momento aparentemente banal tem implicações trágicas. Quando Nancy (Kate Mara) partilha com Eleanor (Kerry Washington) que está a ter uma relação extraconjugal, nada fazia prever que a noite iria terminar com uma delas morta. O segredo é apenas uma agulha num palheiro repleto de mentiras, meias-verdades e atitudes difíceis de engolir. O que parecia uma relação sólida começa, progressivamente, a revelar falhas, e as escolhas que se seguem à morte de Nancy só tornam isso mais evidente. À medida que novas informações vêm ao de cima, cada gesto do passado ganha um novo significado. Entre suspeitas, ressentimentos antigos e lealdades testadas ao limite, a verdade torna-se cada vez mais difícil de reconhecer.

A imperfeição das certezas

A perfeição é uma utopia. À distância, as vidas das protagonistas de «Imperfect Women» parecem alinhadas com essa promessa: carreiras bem-sucedidas, amizades duradouras e famílias aparentemente estáveis. Eleanor surge como a exceção – mais solitária e também mais cedo exposta nas suas imperfeições. Ainda assim, tudo sugere uma ordem cuidadosamente mantida, onde cada gesto confirma a ideia de que o equilíbrio foi alcançado. Mas, quanto mais nos aproximamos, mais frágeis se revelam essas certezas. Pequenos gestos, silêncios prolongados e decisões aparentemente insignificantes começam a expor fissuras numa imagem que parecia sólida.

Em «Imperfect Women», a perfeição não passa de uma construção delicada, sustentada por omissões, concessões e segredos que cedo ou tarde acabam por vir à superfície. À medida que a história avança, as versões que cada personagem tem do passado começam a entrar em conflito, revelando como a memória e a lealdade podem distorcer a verdade. Aquilo que parecia uma amizade sólida transforma-se num terreno instável, onde cada revelação altera a forma como os acontecimentos são interpretados. Nesse processo, a série sugere que a verdadeira imperfeição não está apenas nos erros cometidos, mas na forma como cada uma escolhe lidar com eles.

Se Mary (Elisabeth Moss) representa a ordem, Eleanor e Nancy introduzem o caos. Mais impulsivas e emocionalmente instáveis, movem-se muitas vezes à margem das regras implícitas que sustentam o frágil equilíbrio do grupo. Onde Mary procura controlar, compreender e manter as aparências, as outras duas expõem fissuras que preferiam manter escondidas e tomam decisões de que mais tarde se arrependem. Essa tensão entre contenção e desordem torna-se um dos motores da série, revelando como três mulheres que partilham uma longa amizade podem habitar universos morais muito distintos.

Não obstante, «Imperfect Women» deixa claro que não existe apenas o certo e o errado, os heróis e os vilões. Entre esses extremos há uma infinidade de zonas cinzentas, onde intenções, circunstâncias e fragilidades pessoais se confundem. Os acontecimentos desenrolam-se e torna-se evidente que cada personagem carrega a sua própria versão da verdade e da culpa. A série evita julgamentos fáceis, preferindo observar como decisões tomadas num momento de fraqueza podem ter consequências difíceis de reparar.

Ao jeito de uma carta aberta ao espectador, «Imperfect Women» avança e recua, conta e reconta, estrutura e desfaz. A narrativa revisita as mesmas ocorrências a partir de perspetivas distintas, permitindo que cada revelação altere a forma como entendemos o que veio antes. O que parecia claro num momento torna-se ambíguo no seguinte, à medida que novas camadas de informação entram em cena. Nesse movimento constante entre memória, suspeita e revelação, a série recorda que a verdade raramente se apresenta inteira à primeira tentativa.

No final, «Imperfect Women» sugere que a verdadeira imperfeição não reside apenas nos erros cometidos, mas na forma como cada personagem escolhe lidar com eles. Entre lealdades antigas, ressentimentos silenciosos e decisões difíceis de justificar, a série desmonta lentamente a ideia de que existe uma versão definitiva da verdade. O que permanece é um retrato desconfortável de relações marcadas por afeto, dependência e rivalidade; lembrando que, mesmo nas amizades mais duradouras, a linha que separa compreensão e julgamento pode ser surpreendentemente ténue.

Eleanor

Entre as três amigas no centro de «Imperfect Women», Eleanor destaca-se como a figura mais difícil de enquadrar. Enquanto Nancy projeta a imagem de uma vida aparentemente perfeita e Mary procura preservar a ordem nas relações que a rodeiam, Eleanor move-se num território mais instável. Impulsiva, emocionalmente exposta e pouco inclinada para seguir as regras implícitas que estruturam o grupo, é muitas vezes ela quem rompe o equilíbrio que mantém a amizade.

Ao contrário das outras duas, Eleanor raramente consegue sustentar uma fachada de controlo. As suas fragilidades surgem à superfície com maior facilidade, revelando inseguranças, ressentimentos antigos e decisões tomadas por impulso. Essa transparência torna-a simultaneamente vulnerável e imprevisível, capaz de provocar aproximações intensas, mas também conflitos difíceis de resolver.

Dentro da dinâmica entre as três mulheres, Eleanor funciona frequentemente como um catalisador das tensões que permanecem latentes. A sua presença expõe fissuras que prefeririam manter escondidas e obriga as restantes personagens a confrontar aspetos de si próprias que evitam reconhecer. Mais do que um elemento de caos, Eleanor acaba por revelar algo essencial sobre o universo da série: por trás de qualquer aparência de estabilidade, a imperfeição continua à espreita.

Mary

Entre as três amigas de «Imperfect Women», Mary surge como a figura que procura preservar a ordem. Organizada, pragmática e consciente das expectativas que moldam o seu meio social, tenta manter o equilíbrio nas relações que a rodeiam. Onde Eleanor e Nancy se deixam guiar pelo impulso, Mary tende a agir com maior contenção, procurando compreender as situações antes de reagir a elas.

Essa postura confere-lhe, à primeira vista, uma posição de estabilidade dentro do grupo. Mary observa, pondera e mede as consequências das suas decisões, funcionando muitas vezes como mediadora nos conflitos que atravessam a amizade. No entanto, essa necessidade de controlo também revela um esforço constante para manter intacta uma imagem de normalidade que, com o avançar da história, começa a mostrar sinais de desgaste.

À medida que os acontecimentos se desenrolam, torna-se evidente que a aparente solidez de Mary não a coloca fora do campo das imperfeições que definem a série. As escolhas que faz, bem como a forma como interpreta o comportamento das amigas, revelam uma personagem igualmente atravessada por dúvidas, lealdades contraditórias e zonas de ambiguidade moral. Nesse sentido, Mary representa a tentativa de manter a ordem num universo onde essa ordem se revela cada vez mais difícil de sustentar.

Nancy

Nancy ocupa um lugar central na história de «Imperfect Women». À superfície, representa a imagem de uma vida bem-sucedida: socialmente integrada, segura de si e aparentemente confortável no papel que desempenha dentro do seu círculo de amizades. Entre as três mulheres, é talvez aquela que mais claramente projeta a ideia de uma existência equilibrada, construída em torno de estabilidade familiar e reconhecimento social.

Essa imagem, contudo, revela-se progressivamente mais frágil do que aparenta. À medida que novos elementos do seu passado e das suas escolhas vêm à tona, torna-se evidente que Nancy também vive entre compromissos difíceis, desejos contraditórios e decisões que desafiam a imagem de perfeição que parecia sustentar. O contraste entre a fachada que apresenta e as tensões que atravessam a sua vida pessoal torna-se um dos eixos dramáticos da narrativa.

Mesmo ausente durante grande parte da história, a presença de Nancy continua a marcar profundamente a dinâmica entre as outras personagens. As memórias que deixa, as perguntas que permanecem sem resposta e as consequências das suas escolhas mantêm-se no centro do conflito. Dessa forma, Nancy transforma-se numa figura que continua a influenciar os acontecimentos, lembrando que, em «Imperfect Women», aquilo que parece sólido raramente resiste a um olhar mais atento.

Robert

Robert (Joel Kinnaman) é o marido de Nancy em «Imperfect Women» e uma presença central na vida que ela construiu antes dos acontecimentos que desencadeiam a história. Integrado no mesmo universo social que as três amigas partilham, representa, à primeira vista, a estabilidade dessa vida aparentemente bem organizada: um casamento sólido, uma família estruturada e uma rotina que sugere segurança. Ainda assim, desde cedo a série deixa perceber que a sua posição não é totalmente transparente.

A morte de Nancy altera profundamente esse equilíbrio e coloca Robert perante uma realidade mais complexa do que aquela que imaginava. À medida que novos detalhes sobre a vida da mulher vêm à tona, também o seu comportamento – antes e depois da tragédia – começa a levantar dúvidas. As suas intenções nunca são totalmente claras, reveladas apenas em pequenas doses ao longo da narrativa. Nesse processo, Robert transforma-se numa das figuras mais ambíguas da série, refletindo a fragilidade das certezas que sustentam as relações mais próximas.

Howard

Howard (Corey Stoll) é o marido de Mary em «Imperfect Women» e surge como uma figura associada à estabilidade que ela procura manter na sua vida pessoal. À primeira vista, transmite uma certa tranquilidade, movendo-se com naturalidade no ambiente social que partilha com as amigas da mulher. A sua presença sugere equilíbrio e normalidade, reforçando a imagem de uma vida familiar organizada.

No entanto, essa aparente serenidade convive com algumas dificuldades no plano profissional, que introduzem uma dimensão mais incerta na personagem. Essas fragilidades, ainda que discretas, acabam por influenciar a dinâmica entre Howard e Mary, revelando tensões que nem sempre são imediatamente visíveis. A personagem acrescenta assim outra camada ao retrato de relações imperfeitas que a série constrói, onde a estabilidade aparente raramente corresponde por completo à realidade.

Cora

Cora (Audrey Zahn) é a filha de Nancy em «Imperfect Women» e uma das presenças mais vulneráveis no universo da série. Ainda jovem, vê a sua vida profundamente marcada pela morte da mãe, um acontecimento que altera de forma brusca o ambiente familiar em que cresceu. A partir desse momento, Cora passa a lidar com a ausência, mas também com as perguntas e tensões que começam a surgir em torno das circunstâncias dessa perda.

A personagem funciona como um contraponto às dinâmicas mais complexas entre os adultos. Observando as mudanças que ocorrem à sua volta, Cora torna-se um reflexo das consequências emocionais que os acontecimentos têm dentro da família. A sua presença recorda que, para além do mistério e das suspeitas que atravessam a narrativa, existem também impactos mais íntimos e silenciosos nas vidas daqueles que ficam.

Aquilo que permanece

Em «Imperfect Women», as respostas nunca surgem de forma imediata. A narrativa prefere avançar por fragmentos, revisitando acontecimentos e revelando detalhes que obrigam o espectador a reconsiderar o que parecia claro. Cada nova informação altera o equilíbrio entre as personagens, mostrando como memórias incompletas e perceções distintas podem transformar um mesmo episódio em histórias profundamente diferentes.

Nesse processo, a série desenha um retrato atento de uma amizade moldada pelo tempo e pelas escolhas acumuladas ao longo dos anos. Entre momentos de proximidade e episódios de confronto, torna-se evidente que o passado partilhado entre as três mulheres nunca foi tão simples quanto parecia. À medida que as circunstâncias mudam, aquilo que antes unia o grupo começa também a revelar diferenças difíceis de ignorar.

A morte de Nancy funciona como o ponto de rutura que torna visíveis essas diferenças. Aquilo que antes podia ser ignorado ou suavizado ganha um novo peso, obrigando cada uma das personagens a reposicionar-se dentro da relação que partilhavam. Gestos que pareciam banais passam a ser reavaliados, e a proximidade que durante anos definiu a amizade começa a revelar zonas de desconforto difíceis de contornar.

Ao mesmo tempo, «Imperfect Women» recusa a tentação de transformar as suas personagens em figuras facilmente classificáveis. Ao longo da história, cada uma revela fragilidades, impulsos e decisões difíceis de justificar, lembrando que a linha que separa responsabilidade e circunstância raramente é clara. A série observa essas contradições com atenção, mostrando como gestos de afeto podem coexistir com ressentimentos antigos e escolhas moralmente ambíguas.

Nesse contexto, a narrativa acompanha a forma como relações antigas resistem – ou se transformam – perante acontecimentos que ninguém estava preparado para enfrentar. Entre tentativas de compreensão, silêncios prolongados e aproximações cautelosas, as personagens procuram reorganizar o lugar que ocupam na vida umas das outras. O que antes parecia garantido passa a exigir novas negociações, revelando até que ponto a amizade pode sobreviver a momentos de rutura.

No final, aquilo que permanece não é apenas o mistério que desencadeia os acontecimentos, mas o retrato de relações marcadas por afetos profundos e fissuras difíceis de reparar. Entre lealdades antigas, ressentimentos silenciosos e gestos de aproximação hesitantes, «Imperfect Women» observa com atenção a forma como as pessoas tentam continuar depois de um momento que altera tudo. O que fica é a consciência de que, mesmo nas amizades mais duradouras, o equilíbrio pode ser mais frágil do que aparenta – e que algumas perguntas continuam a acompanhar quem permanece.

A Mais Breve História da Rússia em BD – Prémio de Melhor Argumento

A novela gráfica “A Mais Breve História da Rússia em BD”, de Dulce Garcia e Joana Afonso, que adapta a obra de José Milhazes, recebeu o prémio de Melhor Argumento Adaptado na edição de 2025 dos VINHETAS D’OURO, os Prémios de Banda Desenhada da Crítica Portuguesa, que celebram o que de melhor se fez na banda desenhada, distinguindo autores, editoras e obras que marcaram o panorama artístico nacional e internacional.
 
Publicado pela Asa em Maio de 2025, “A Mais Breve História da Rússia em BD”, tem argumento de Dulce Garcia e ilustrações de Joana Afonso. Dividido em seis capítulos, com o ultimo a abordar a atualidade, pelas páginas surgem os rostos de czares, Gorbatchov, Zelensky, Trump, António Guterres, Navalny e Putin, entre muitos outros.O livro levava o leitor numa “viagem fascinante pela história, cultura e civilização russas, dos povos eslavos até à ambição bélica de Vladimir Putin, procurando ajudar a perceber como chegámos a uma guerra que ameaça toda a Europa.”
 
Dulce Garcia (1970) foi jornalista entre 1991 e 2017, tendo passado por publicações como o Diário Económico e a Sábado (de que foi fundadora e subdiretora) e colaborado com as revistas Elle, GQ, Vogue, Máxima, entre outras. Foi editora de ficção portuguesa do grupo editorial Planeta. Atualmente, é assessora de imprensa. Em 2017, estreou-se na ficção com Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum. Olho da rua é o seu segundo romance. 

Ilustradora, Joana Afonso foi distinguida com múltiplos prémios, entre os quais o de Melhor Álbum Português, no Amadora BD, com “O Baile”.

José Milhazes nasceu e cresceu na Póvoa de Varzim. Em 1977 foi estudar para a União Soviética. Licenciou-se em História da Rússia na Universidade Estatal de Moscovo (Lomonossov) e estabeleceu-se naquele país enquanto tradutor de obras literárias e políticas. Em 1989 começou a fazer trabalho jornalístico na TSF e depois noutros media portugueses. Fez o doutoramento em 2008 dedicado ao tema «Influência das ideias liberais espanholas e portuguesas na Rússia». Regressou a Portugal em 2015 com um conhecimento incomparável no panorama português sobre a sociedade, a política e a história russas. É autor de vasta obra publicada, da qual destacamos As Minhas Aventuras no País dos Sovietes (2017) e Os Blumthal (2019). 

Os VINHETAS D’OURO são um prémio anual que distingue os melhores trabalhos, autores e editoras da banda desenhada, reforçando o papel da BD como forma de expressão artística fundamental no panorama cultural português.

A Besta – trailer

Patton James (Daniel MacPherson) abandonou o seu sonho de artes marciais mistas para se dedicar à família. Quando o irmão sofre uma lesão grave num combate para pagar as suas dívidas, Patton tem de arriscar tudo para voltar ao ringue e vingá-lo. Mas para recuperar a sua antiga glória e ter sucesso no campeonato tem de reconquistar a confiança do seu treinador (Russell Crowe) e manter a sua família unida.

Mãe e Peras – lançamento

«Mãe e Peras», a novela gráfica de Diana Rodrigues é uma leitura para mães reais que tantas vezes já pensaram: «Só Pode Estar a Gozar Comigo».

A novela gráfica «Mãe e Peras», de Diana Rodrigues, criadora da página com o mesmo nome com mais de 500 mil seguidores, está nas livrarias a partir de 21 de abril.

Com humor afiado, ternura desarmante e uma honestidade que nos faz suspirar, encontramos nestas páginas o lado menos filtrado da maternidade: as culpas, os falhanços épicos, os pequenos triunfos invisíveis e aquele amor gigante que compensa (quase) tudo.

Sinopse

Entre birras no corredor do supermercado, perguntas existenciais às três da manhã e a misteriosa arte de encontrar meias desaparecidas, há uma verdade universal que ninguém ousa dizer em voz alta: ser mãe custa. Custa tempo, sono, paciência… e, às vezes, custa mesmo dinheiro.

Neste livro, Diana Rodrigues, a voz bem-disposta e mordaz por detrás da página Mãe e Peras, transforma o caos do quotidiano materno numa sequência de ilustrações e episódios onde o riso é a melhor estratégia de sobrevivência.

Porque ser mãe custa. Mas, felizmente, também rende gargalhadas, memórias e histórias que merecem ser contadas.

Sobre a autora

Diana Rodrigues nasceu na cidade de Castelo Branco, em 1989. É licenciada em Gestão e contabilista, mas é também a atriz, maquilhadora, editora, produtora e realizadora por trás do projeto @mae_e_ peras. O que começou como um desabafo visual sobre os desafios da maternidade rapidamente se transformou numa comunidade de mais de meio milhão de seguidores, onde Diana aplica a máxima de «rir para não chorar», ajudando outros pais a sobreviver ao caos do dia a dia através do humor.

Com a dualidade típica do seu signo de Gémeos, divide o seu tempo entre o rigor dos números e a paixão pelas remodelações, provando que é possível conciliar a estrutura de um balancete com a criatividade sem filtros das redes sociais. Reconhecida pela sua frontalidade e por ter sempre razão (confirmado pelo marido), Diana Rodrigues utiliza os seus guiões para desmistificar a parentalidade real, criando um espaço onde milhares de pais se revêem em cada situação partilhada.

Título: Mãe e Peras lISBN: 9789895817801 l PVP C/ IVA: 19,90€

El Homenaje – trailer

El Homenaje conta a história de Adolfo Novak (Eusebio Poncela), patriarca de uma das famílias mais poderosas do país, que reúne familiares e pessoas próximas para celebrar o seu 80.º aniversário. Entre brindes e sorrisos escondem-se décadas de segredos, traições, lealdades cegas e um intenso desejo de vingança. A noite acabará por tomar um rumo inesperado, revelando uma verdade que, quando finalmente vem à luz, se mostra muito mais surpreendente do que qualquer suspeita anterior.

The Wizard of the Kremlin

Contrary to what its title might suggest, «The Wizard of the Kremlin» is a film lacking in magical force. It opens itself so readily to the conventions of the biographical film as a genre that its ambitions remain largely externalised through a choreography of provocative dialogue, one that seeks to expose the true power game at the heart of the Russian government during the rise of former KGB agent Vladimir Putin to his first presidential term at the dawn of the new millennium.

Based on the novel of the same name by Giuliano da Empoli, the film, written by the respected auteur Olivier Assayas together with the journalist and writer Emmanuel Carrère, unfolds through a narration structured as a series of flashbacks. These sequences, separated by fades to black, are recounted by Vadim Baranov (Paul Dano), a fictional character closely modelled on Vladislav Surkov, the strategist who advised Putin (Jude Law) between 1999 and 2020. Vadim tells his story to the American journalist and Russia specialist Lawrence Rowland (Jeffrey Wright). During their long conversation, in which the creative role of memory in shaping the past is never acknowledged, the trajectory of this brilliant young man gradually takes form. From artist to reality television producer, and eventually to the manager of the regime’s internal politics and communications, the film sketches the portrait through which Vadim’s beliefs emerge fifteen years later.

For all these reasons, this is not a film that aspires to simplicity. Yet what ultimately remains is a faintly Hollywoodised account, carefully tailored and largely devoid of dramatic tension, entrusted to an author who seems to relinquish the freedom of his voice and the playful qualities that usually define his work in order to labour over a project that drifts aimlessly, hampered by its lack of revelation. At moments it even spills into a curious romanticisation of authoritarian procedure. But even this is fleeting. The film loses the viewer by confusing the weight of its cinematic posture with the depth of what it has to say.

Although the performances are solid, they are marked by oddly British accents and a physicality in which the actors never quite disappear into their roles. «The Wizard of the Kremlin» becomes the product of a literalism that until recently belonged mostly to television and that now increasingly seeps into cinematic production. In other words, the film carries within it an inability to expand, a failure to move beyond repetition. It might have done well to heed Vadim himself when he declares that he wishes “to be part of the present, not merely a witness to it.” That is precisely the position in which Assayas leaves the spectator, suspended between critique and a near-total absence of perspective, softened somewhat by Dano’s soothing voice and his deliberately neutral composure.

Assayas appears to aim for the replication of a schematic labyrinth, one that folds back upon itself. Yet such an ambition requires a genuine film grammar. The mere presentation of successive narrative elements is not enough. The director knows this. He has demonstrated it brilliantly in the past. And yet here he allows his film to pulse without blood