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UM LUGAR SILENCIOSO 2

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«Um Lugar Silencioso 2» é um thriller arrepiante e ao qual é difícil de virar as costas. Pode-se dizer que ficamos colados ao ecrã do primeiro ao último minuto. Relembramos que o conceito original de Scott Beck e Bryan Woods, com o auxílio de John Krasinski, lidava com uma invasão da Terra por uma implacável espécie alienígena que perceciona o espaço através da audição e que empala tudo o que se mexe dizimando a vida no planeta. No centro da história está uma família que tem de se reinventar para sobreviver.

Em «Um Lugar Silencioso 2» o vertiginoso prólogo é um excelente cartão de visita para os acontecimentos que se seguem, não ficamos pendurados se não tivermos visto o primeiro capítulo, e o filme não desilude em nenhum instante. O paradigma muda na sequela, saímos do isolamento da quinta e da luta pela sobrevivência da família Abbott, da dinâmica dos pais na sua relação e na proteção dos filhos. Neste filme é o lugar dos filhos procurarem a esperança e criarem um lugar sem monstros. É evidente que para nós que sobrevivemos a um ano que marcará o resto das nossas vidas, «Um Lugar Silencioso 2» partilha alguns lugares-comuns, seja na disrupção da sociedade, o enfrentar uma nova realidade, o isolamento, a angústia, mas também a necessidade de lutar e derrotar todas as adversidades.

Os protagonistas deste filme iniciam uma catarse conjunta onde encetam diferentes viagens que culminam numa grandiosa apoteose onde os laços se reforçam e todos lutam contra um inimigo comum. Os personagens mais adultos, Evelyn Abbott (Emily Blunt) e Emmett (Cillian Murphy) devem ultrapassar os seus próprios medos e fazerem a diferença. Nesta premissa, mesmo com um elenco pequeno mas de qualidade superlativa, os fios narrativos destrinçam-se perante o olhar atento dos espectadores. O intimismo da família dá lugar à panorâmica do espaço e do mundo pós-apocalíptico onde o terror está à distância do mínimo ruído. A dupla de jovens actores enchem a vista, Noah Jupe e Millicent Simmonds (melhor desempenho do filme) levam mais além os seus papéis. Estes tinham mesmo de ser bem destilados para nos fazer acreditar e seguir a jornada alucinante destes personagens que pela sua condição única (são surdos) observam o mundo de uma forma singular – lembramos que Millicent Simmonds é surda na vida real. Emily Blunt tem um desempenho pleno de estoicismo, alguém que irá até ao inferno para salvar os seus filhos. Para a matriarca do clã Abbott não é um momento de luto, apenas de sobrevivência. A actriz mostra urgência no seu desempenho mas é ofuscada pelas performances de Millicent Simmonds e Cillian Murphy. O actor britânico que é como o algodão, não engana, veste totalmente o corpo e o cepticismo do seu personagem que terá de lutar com os seus temores para vencer a apatia e agir. É muito mais do que um desempenho físico, a intensidade está espelhada no seu rosto.

A finalizar, mérito para o desempenho na cadeira de realizador e argumentista de John Krasinski, um director de actores e de planos extremamente bem filmados em película de 35mm. John Krasinski é cada vez mais uma certeza atrás da câmara, seja pela sensibilidade com os actores, seja com um olhar clínico e mesmo na supervisão dos vários departamentos de arte, na criação de uma obra imersiva. No capítulo técnico, os monstros também estão mais assustadores e com vários detalhes de FX da Industrial Light and Magic que permitem ver o terror em todo o seu esplendor.

A Paramount apostou na paixão de John Krasinski e venceu, voltou a tomar a decisão acertada, «Um Lugar Silencioso 2» faz-nos voar baixinho numa imparável montanha russa emocional. É uma obra sensorial que tem outro sentimento no interior de uma sala de cinema. Bem-vindos ao factor medo!

Título original: A Quiet Place Part II Realização: John Krasinski Elenco: Emily Blunt, Millicent Simmonds, Cillian Murphy, Noah Jupe. Duração: 97 min. EUA, 2021

BIRDS OF PREY

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E A FANTABULÁSTICA EMANCIPAÇÃO DE UMA HARLEY QUINN

«Esquadrão Suicida» (2016) não é um filme
particularmente memorável, mas houve um ponto alto que mostrou à DC outro caminho passível de explorar: Harley Quinn. As cenas com a personagem foram as melhores do filme e muito se deve à interpretação
marcante de Margot Robbie. A atriz australiana deu vida a uma anti-heroína excêntrica, desvairada e completamente imprevisível, não deixando passar a oportunidade para mostrar a sua versatilidade.
Margot Robbie é mesmo uma das atrizes do momento, contando já com duas nomeações aos Óscares, por «Eu, Tonya» (2017) e «Bombshell – O Escândalo» (2019), além da participação em filmes como «O Lobo de Wall
Street» (2013), «Maria, Rainha dos Escoceses» (2018) e «Era Uma Vez em… Hollywood» (2019).

Harley Quinn regressa agora ao Cinema com toda a força num filme mais focado em si. É certo que continua a estar a inserida num grupo – desta vez apenas feminino -, mas a narrativa será sobre ela. É também o primeiro da DC para maiores de 18 anos – Harley Quinn já está a fazer História. Falando em girl power, este é um filme realizado, escrito e protagonizado
por mulheres. Cathy Yan dirige, após ter tido aceitação positiva das suas curtas-metragens e de «Dead Pigs», que marcou a sua estreia nas longas-metragens. Christina Hodson está a cargo do argumento, depois de ter
assinado «Shut In – Reféns do Medo» (2016), «Unforgettable» (2017) e «Bumblebee» (2018). «Birds of Prey (e a Fantabulástica Emancipação De
Uma Harley Quinn)» baseia-se em livros de bandadesenhada publicados na década de 1990 sobre um grupo de heroínas femininas e será o oitavo do
Universo Cinematográfico da DC. Destaque, ainda, no elenco, para Ewan McGregor, que interpreta o papel de um sádico vilão, e para as atrizes que
interpretam os restantes elementos do grupo de heroínas que acompanham a protagonista, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell e Rosie
Perez. Depois deste filme, Harley Quinn já tem nova presença garantida no Cinema, em «The Suicide Squad», previsto para 2021, e que também terá participação da atriz portuguesa Daniela Melchior.

Para Vivir: El Implacable Tiempo de Pablo Milanés

«Para Vivir: El Implacable Tiempo de Pablo Milanés», 2025, realizado pelo seu filho adoptivo, Fabien Pisani. O filme dá-nos uma visão multifacetada do cantor, compositor e guitarrista cubano Pablo Milanés (1943-2022) cuja vida sintetizou de algum modo as voltas e reviravoltas que o seu país observou antes e, sobretudo, após a revolução que culminou com a deposição do ditador Fulgêncio Baptista (homem de mão do capitalismo e imperialismo americanos) graças ao movimento guerrilheiro liderado por Fidel Castro e corporizado pelos demais companheiros do Movimento 26 de Julho.

Desde 1 de Janeiro de 1959, aquela ilha das Caraíbas passou a ser um dos locais para onde os olhos do mundo progressista se voltaram na esperança de encontrar o portal para um mundo novo onde novas políticas dessem corpo a um desejo de ampla igualdade e fraternidade e que, no campo das artes e letras, permitisse uma sonhada explosão de criatividade. Testemunha disso mesmo, o jovem Pablo Milanés, que já possuía experiência no campo musical, soube desde cedo valorizar o sentimento romântico de algumas das suas letras (aquelas que mais ecoam na nossa memória) onde o amor não aparece apenas como um mero conceito mergulhado num melaço enjoativo, mas sim como a afirmação material e moral da relação entre dois seres (o plano individual), assim como dos homens, das mulheres (e naturalmente dos amantes) com o meio social e familiar em que se inseriam (o plano mais vasto do colectivo). Neste processo iminentemente cultural, Pablo Milanés soube entrelaçar estas duas componentes numa outra ainda mais forte que era o da celebração de uma inegável, diria mesmo, inevitável, nova liberdade de costumes que a revolução cubana implicitamente admitia, liberdade que contrastava com décadas de subordinação a estratégias mafiosas que fizeram de Cuba o bordel da América Latina.  

Mas o documentário não se reduz a uma acumulação contínua de factos e figuras do passado, aliás, começa por nos dar conta de um velho mas não acabado Pablo Milanés que se instalara em Madrid (saberemos mais adiante contra a sua profunda vontade, porque a ausência de Cuba não o consolava) devido a uma doença cujo acompanhamento necessitava de cuidados médicos e medicamentos que alegadamente não seriam possíveis obter no seu país.

Na verdade, Pablo e Cuba, Cuba e Pablo constituem os dados de uma equação indissociável da autêntica alma do intérprete que nos anos sessenta do século XX lançou as raízes de um movimento designado Nueva Trova Cubana. E será nesta “plataforma” de actualidade (a mesma que pouco a pouco introduz os numerosos membros do seu clã e familiares mais próximos) que a montagem se alicerça para a partir dela combinar e integrar na estrutura final o fluxo de materiais de arquivo que nos darão a conhecer os momentos de fulgor e impacto militante sempre que Pablo Milanés se apresentava diante de largas centenas, a maioria das vezes, milhares de pessoas que habitualmente assistiam aos seus concertos.

Por outro lado, não se escamoteiam as questões mais controversas, como o uso da sua liberdade de expressão que o levou a defender posições que não se alinhavam com uma certa normalização das originais premissas revolucionárias. Também não se ocultam situações mais complicadas como foi o da mobilização para as UMAP (Unidades Militares de Ayuda a la Producción), na província de Camaguey. Entretanto, noutro patamar da realidade, revelam-se episódios mais ou menos delicados da sua vida íntima e dos sobressaltos (encarados hoje com um sorriso) do que foram os seus diversos casamentos, nomeadamente aquele cuja memória ficou registada na canção, mil vezes ouvida e repetida, “Yolanda” (nome da segunda mulher). Recordemos os derradeiros versos: “Si alguna vez me siento derrotado / Renuncio a ver el sol cada mañana / Rezando el credo que me has enseñado / Miro tu cara y digo en la ventana / Yolanda, Yolanda / Eternamente Yolanda”.

Dos que dele falam e ajudam a contextualizar o que se ouve e vê, ficam aqui os nomes mais salientes: Silvio Rodríguez, Joan Manuel Serrat, Chucho Valdés, Chico Buarque, Omara Portuondo, Harry Belafonte, Xiomara Laugart, Fito Páez, Leonardo Acosta, Rosa Marquetti, entre outros, que acrescentam uma dose suplementar de emoção ao que ouvimos da própria boca de Pablo Milanés.

Em suma, para quem já o conheça ou para os que agora chegam ao seu universo musical, “Para Vivir: El Implacable Tiempo de Pablo Milanés”, que o IndieLisboa irá exibir na secção Indie Music, constitui uma abordagem segura e sincera da sua intimidade e do seu pensamento, sendo uma excelente oportunidade para viajarmos ao encontro da ampla e merecida carreira de um nome emblemático da canção popular latino-americana.

Título orignal: Para Vivir: El Implacable Tiempo de Pablo Milanés
Realização: Fabien Pisani
Documentário
Duração: 106 min.
México/EUA, 2025


03 Maio 2026, Domingo, 21:00 (107′)

Culturgest, Auditório Emílio Rui Vilar

08 Maio 2026, Sexta-feira, 21:45 (107′)

Cinema São Jorge, Sala 3

Newport & the Great Folk Dream

Este excelente documentário, «Newport & the Great Folk Dream», 2025, foi realizado por Robert Gordon e estruturado na montagem por Laura Jean Hocking a partir do visionamento de mais de 100 horas de material filmado pelo cineasta Murray Lerner (assim como pelos operadores George Pickow, Francis Grumman e Stanley Meredith) durante os anos de 1963 a 1966, no Newport Folk Festival (Rhode Island).

Nos seus 100 minutos de contínuo fluxo musical somos convidados para uma espécie de viagem aos dias de esperança e solidariedade que uma parte da sociedade americana acreditava ser possível estabelecer entre os folks mais diversos, uma ligação virtuosa entre povos de diferentes origens, raças, classes, modos de ser e estar na vida.

Na altura, mais que não fosse, no contexto de algumas manifestações culturalmente relevantes pairava no ar a generosa ideia de que se podia e devia partilhar causas comuns. Neste caso, era suposto que a música sustentasse e promovesse esse sonho redentor desde que se apresentasse verdadeira, genuína e representativa do panorama cultural de uma nação que englobou no seu melting pot (nem sempre por meios pacíficos) as idiossincrasias de muitas outras nações e culturas. Seria esse o “Great Folk Dream”? Existia algum ponto de contacto entre esse sonho, digamos social e musical, e o estafado sentido de ilusão subjacente ao chamado American dream? Poderiam ambos coexistir numa organização onde era muito evidente a componente política e ideológica dos seus mentores, que não estavam forçosamente alinhados com as orientações do poder em Washington?

Diz uma legenda, logo ao início, que este material esteve retido num cofre até ser recuperado para a presente obra, mas uma pequena parcela das imagens e sons já integrara um documentário de Murray Lerner, intitulado «Festival» (1967). Em «Newport & the Great Folk Dream» há de facto uma nova e sobretudo mais abrangente abordagem do que se passou e, sobretudo, dos que por lá passaram naquilo que para muitos foi a rampa de lançamento das suas carreiras. Que o diga Bob Dylan, que na época ainda era um mais ou menos complete unknown. Será ele, aliás, que mais adiante (em 1965) irá provocar a bronca eléctrica contra a prevalência do acústico (mas não foi o único), episódio que a longa-metragem “biográfica” de James Mangold referiu num remoinho ficcional que não coincide a cem por cento com a realidade dos factos.

Na verdade, e isso fica claro neste documentário, as metamorfoses sofridas pelo festival e as opções por outras sonoridades, digamos, falaciosamente mais “modernas”, começaram a agitar as mentes e acabaram por vir ao de cima durante e após a digressão americana dos Beatles (em 1964), ampliadas no quadro da consequente histeria que acompanhou o percurso do grupo britânico. Todavia, não se podem ignorar outras influências no sentido da adopção da amplificação sonora: só para citar algumas das mais importantes contribuições, a do fabuloso intérprete de blues, Howlin’ Wolf, ou a do grupo de blues-rock, na altura já com fama e proveito, The Paul Butterfield Blues Band. E, no meio disto, até a fiável e habitualmente “bem comportada” Joan Baez, no palco com a irmã Mimi e o marido desta, o activista Richard Fariña, iria dançar frenética ao som de uma acutilante canção, não por acaso a “House Unamerican Blues Activity Dream”.

Tudo muda, algumas vezes para melhor e, infelizmente, outras para pior. O que aconteceu em Newport foi mais um passo em frente, não necessariamente em falso, rumo a uma nova conjuntura que passava pela afirmação comercial associada ao business as usual da indústria discográfica que, essa sim, iria desencadear o sobressalto e a reacção crítica de pessoas como o cantor e compositor Pete Seeger ou o etnomusicólogo Alan Lomax, entre outros nomes historicamente associados aos melhores e mais sólidos valores do movimento folk, onde de forma militante defendiam um indomável espírito de liberdade e independência.

No filme dá-se um exemplo que define bem aquilo que para alguns (e com razão) se estava a perder, ou seja, quando uma guitarra acústica era usada para reunir um conjunto de pessoas ao redor de uma canção, a voz de cada um fazia-se ouvir e não era preciso mais nada, nem grandes investimentos financeiros, para que uma exibição, um concerto singular, se produzisse. Mas, a partir do momento em que a guitarra (e não só) passou a ser eléctrica, a fruição democrática ficou comprometida, porque se gerou a necessidade de adquirir sistemas completos de som, cujo preço não estava ao alcance das bolsas da maioria do povo da folk que ano após ano frequentava Newport como chão sagrado para partilhas sociais e musicais economicamente viáveis. Para além do mais, a voz humana (igualmente amplificada) já não era passível de ser partilhada num quadro igualitário como o de outrora. Enfim, estas matérias serão sempre motivo de discussão e merecem por isso a nossa melhor disponibilidade e atenção.

Este documentário, ao colocar em cima da mesa as cartas de um controverso e perene debate (sim, ele não ficou encerrado nos anos sessenta do século XX), prova que soube ler nas entrelinhas o princípio e o fim de uma visão calibrada pela utopia que, em abono da verdade, fez e ainda faz a diferença entre o que sociologicamente vale a pena guardar e o que se pode descartar.

O projecto “Newport & the Great Folk Dream” salienta as linhas programáticas iniciais, que constituíam os pilares do grande e multifacetado acontecimento musical, e suas ligações a outras grandes causas, por exemplo, a luta pela emancipação dos negros americanos e a conquista dos seus direitos civis, o apoio a iniciativas como a “Marcha Sobre Washington”, que reuniu na capital americana milhares de brancos, negros e latinos para ouvir o discurso de uma vida proferido por Martin Luther King. Precisamente, o do “I Have a Dream” a favor da igualdade racial. Na prática, um sonho maior que encaixava como uma luva no equivalente sonho de um festival de que, felizmente, uma boa parte dos espectáculos ficou registada em filme permitindo assim que a sua memória, os seus ecos e o seu inegável fulgor possam ser usufruídos pelas actuais e futuras gerações.

Por fim, deixo aqui uma pequena amostra dos nomes que podem ser vistos e ouvidos em “Newport & the Great Folk Dream”, para além dos já citados: Johnny Cash, Clarence Ashley & Doc Watson, The New Lost City Ramblers, Freedom Singers, Judy Collins, Blue Ridge Mountain Dancers, Buffy Sainte-Marie, Peter, Paul and Mary, Mississippi John Hurt, Odetta, Son House, Phil Ochs, Eck Robertson… E a lista podia seguir por mais uma página ou duas assinalando nomes de profissionais e simples amadores cujas performances são de visão obrigatória para quem gosta de música, ponto parágrafo, e não apenas de folk music, blues, cajun, bluegrass, ou outros géneros e estilos que marcaram o Newport Folk Festival. 

Para já, o documentário será exibido no IndieLisboa, parte integrante da secção Indie Music.

E fica a pergunta: será que no nosso país há distribuidores interessados na sua estreia comercial? Posso estar enganado, mas aposto que vendia mais bilhetes do que muitos filmes que andam para aí a estrear.

Título original: Newport & the Great Folk Dream
Realização: Robert Gordon
Duração: 99 min.
EUA, 2025

Caixa Destaque


02 Maio 2026, Sábado, 18:00 (99′)
Culturgest, Auditório Emílio Rui Vilar
 

04 Maio 2026, Segunda-feira, 19:15 (99′)
Cinema São Jorge, Sala 3

Fotos: © Newport A Folk Explosion Photo by David Gahr courtesy of Rock Negatives, LLC

Submissões abertas para a 5ª edição dos Prémios Curtas! 

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A premiação mais curta de sempre vai voltar para a sua 5ª edição!

Estão oficialmente abertas as submissões para a 5ª edição dos Prémios Curtas, e todos os filmes nacionais no formato de curta-metragem são bem-vindos, e estão todos desde já convidados a juntarem-se a esta celebração do cinema português.

São 19 as categorias a concurso, numa edição que vai estar recheada de novidades, onde a organização irá criar estreitos laços com os cineastas, criadores, produtores, assim como a criação de mais parcerias para a divulgação do Cinema Português.

As submissões estão abertas até ao final do ano, através da plataforma FilmFreeway: https://filmfreeway.com/PremiosCurtas.

Sun Ra: Do The Impossible

«Sun Ra: Do The Impossible», 2025, de Christine Turner, integrou na PBS (Public Brodcasting Service) a programação destinada a celebrar o Black History Month. Escolha editorial que revela mais uma vez a importância da já longa série de documentários reunidos sob a chancela American Masters. 

Sun Ra, nascido Herman Poole Blount a 22 de Maio de 1914 na cidade de Birmingham (Alabama, EUA), foi, para mim e para muitos que apreciam a sua arte, uma das figuras emblemáticas e um inegável master do panorama cultural e musical afro-americano, particularmente na área do jazz e dos seus multifacetados vértices criativos.

Devido ao rápido desenvolvimento industrial entre os anos de 1881 e 1920, a cidade de Birmingham recebeu o cognome de “The Magic City” e ainda o de “The Pittsburgh of the South”. Muita da força laboral que foi alimentar o núcleo duro das suas actividades económicas viria a ser constituído por negros oriundos das regiões rurais onde as condições de vida eram mais agrestes do que nos centros urbanos, não obstante as dificuldades que vieram enfrentar e a insegurança que a fraca sindicalização agravava.

Foi neste caldo económico e social que se formou o jovem Sonny Blount que, ao demonstrar capacidades naturais no campo da música, viria a seguir os caminhos da sua vocação ampliando a sua carreira nos palcos ao deslocar-se para as grandes metrópoles como Chicago, Nova Iorque, Berkeley ou Filadélfia.

Entretanto, nos anos 50 do século XX, abandonou o seu nome de nascença a favor de um outro, Le Sony’r Ra, depois abreviado para Sun Ra, a dupla referência solar que para ele passou a ser o principal apelido, sendo quaisquer outros (incluindo o verdadeiro) considerados uma espécie de pseudónimos.

Para quem não conheça o seu percurso enquanto compositor, poeta, filósofo, activista pela paz e pelos direitos civis dos negros americanos, provavelmente as matérias presentes neste documentário serão difíceis de interpretar ou, pelo menos, de assimilar de uma só penada. Mas garanto que basta verem e ouvirem o melhor da sua obra e das suas performances (e “ver” aqui não significa apenas olhar, mas mergulhar num universo de paroxismos áudio e visuais que ele criou e coreografou para si próprio e para os membros da(s) orquestra(s) que liderou e com os quais possuía uma relação familiar de culto) para sentirem o que eu senti quando comprei há uns bons anos dois LP de free jazz intitulados “The Heliocentric Worlds of Sun Ra” (já agora, editados por uma magnífica e saudosa etiqueta independente, a ESP). Foi a primeira de muitas aquisições da sua vastíssima discografia e, como se diz no filme, calcula-se que um coleccionador que queira possuir a obra gravada e completa do mestre, seja em que suporte for (que não é o meu caso), nunca o irá conseguir.

Na verdade, Sun Ra inventou para si uma quantidade de nomes, mas igualmente uma quantidade de etiquetas, destacando-se por fim a mais duradoura, a Saturn Records. E o planeta referido não aparece ali por acaso. Penso, aqui entre nós, que Sun Ra se deliciava com a ideia de gerar nos outros a confusão sobre a sua identidade e a sua origem. Afirmava (sem se rir) que viera de Saturno e que ainda muito novo sentira uma experiência reveladora que o levara ao espaço sideral e ao dito astro celeste onde forças extraordinárias o desafiaram a prosseguir a sua paixão e vocação no domínio da produção musical. Esse “facto” iria lançar as sementes da sua opção pelos ambientes futuristas relacionados com a era espacial, as viagens siderais através das profundezas do cosmos, que ele fundiu com mitologias várias de origem africana e com maior incidência e energia (particularmente visíveis na materialidade cenográfica e no guarda-roupa) com rituais do antigo Egipto.

Mas desenganem-se os que pensam que sempre foi um homem de vanguarda que para o ser ignorava ou refutava as suas raízes e o conceito de cultura popular. De modo nenhum, e logo ao início do documentário podemos vê-lo interpretar ao piano uma versão do clássico “Over the Rainbow”, de Harold Harlen e E. Y. Harburg. Todavia, já se distingue a diferença entre a reprodução mais ou menos mecânica da canção emblemática de «The Wizard of Oz» («O Feiticeiro de Oz»), 1939, de Victor Fleming, e a sublime improvisação que nos convoca para um outro universo sonoro, como se as notas emitissem vibrações para nos fazer perceber os contornos de um novo Espaço/Tempo, o Super-Sonic Jazz.

Tal como muitos génios da grande música negra (por exemplo, Miles Davis ou John Coltrane), Sun Ra passou por metamorfoses, fruto de opções pessoais que se conjugavam com as dialécticas existenciais do momento em que foram assumidas. Depois de passar pela orquestra de Fletcher Henderson (1897-1952), que Sun Ra admirava pela disciplina imprimida mas onde a sua singularidade não se encaixou, experimentou o barrelhouse blues, o New Orleans, as big band swing, o be-bop, o hard-bop, o modal jazz, e foi pioneiro da música electrónica e experimental, assim como do uso do piano eléctrico e sintetizadores, antes de abraçar a vertente pela qual ficou mais conhecido, o free jazz performativo, ou seja, indissociável de um projecto que combinava música, poesia, dança, filosofia, e o mais que se quisesse ver e ouvir nos espectáculos da The Sun Ra Arkestra (uma das muitas designações relativamente esotéricas desta formação onde pontuavam solistas como, entre outros, Pat Patrick, Marshall Allen, Ahmed Abdullah, Cheryl Banks-Smith e Michael Ray).

Em suma, podia continuar a dar informação sobre o homem e a sua obra, e nunca mais acabava. Por isso penso que o melhor, por agora, será ficar pelo óbvio, ou seja, recomendar vivamente uma ida ao IndieLisboa para assistir a este muito interessante «Sun Ra: Do The Impossible», galáxia fílmica muito bem documentada, montada com um belo sentido do ritmo e do que vale a pena salientar na vida e obra do artista, sem gorduras desnecessárias, e com depoimentos que emprestam valor acrescentado aos materiais de arquivo reunidos. Para rematar, aqui fica uma profética frase de Sun Ra, com a qual se encerra o presente documentário: “My story is endless. It never repeats itself. I’m not part of History. I’m more a part of the Mistery”.

Título original: Sun Ra: Do The Impossible
Realização: Christine Turner
Documentário
Duração: 84 min.
EUA, 2025


02 Maio 2026, Sábado, 21:30 (84′)
Cinema São Jorge, Sala Manoel de Oliveira 

05 Maio 2026, Terça-feira, 21:45 (84′)
Cinema São Jorge, Sala 3 

GANHA CONVITES «Mais Forte do que Eu» – Lisboa e Porto

A Pris Audiovisuais e a Metropolis têm para oferecer convites duplos para a antestreia de «Mais Forte do que Eu» em Lisboa e Porto.

A inspiradora e extraordinária história de vida de John Davidson, um notável ativista da Síndrome de Tourette. O filme de Kirk Jones, emocionalmente envolvente, divertido e cativante, acompanha o diagnóstico de Tourette de John Davidson aos 14 anos. Passada na Grã-Bretanha dos anos 80, a história acompanha a adolescência conturbada e o início da vida adulta deste rapaz, explorando esta condição pouco conhecida e frequentemente mal compreendida, bem como as suas tentativas de levar uma vida “normal” contra todas as probabilidades.

A história de vida de John é tão humorística quanto trágica. Vive com Tourette desde os 14 anos; antes disso, era um jovem com amigos, boas notas na escola e talento para o desporto. O aparecimento da condição mudou a sua vida.

Esperamos que o filme seja visto como uma obra envolvente, emocionalmente impactante e, por vezes, humorística, ao mesmo tempo que possa contribuir para aumentar a consciencialização — não apenas para quem vive com Tourette, mas para todos aqueles que são julgados ou desvalorizados devido a uma condição ou deficiência. Um filme em que o protagonista profere linguagem racista, homofóbica, misógina e sexista tem hoje mais potencial do que nunca para provocar indignação e desconforto. No entanto, quando esse comportamento resulta de impulsos neurológicos incontroláveis, quando estamos perante um diagnóstico clínico, quando essa pessoa precisa de apoio e compreensão em vez de crítica ou ataque, então há lugar para um filme que conte a sua história e promova a empatia.

KIRK JONES, Realizador

Cinemas UCI El Corte Inglés – Lisboa
13 maio, quarta-feira, 21h30
Cinema UCI Arrábida Shopping – Vila Nova de Gaia
13 maio, quarta-feira, 21h30

Para se habilitar a um dos convites válidos para duas pessoas que temos para oferecer, seja preferencialmente nosso fã no Facebook e nas redes sociais da PRIS Audiovisuais FB e IG

Refira o nome da realizador de «Mais Forte do que Eu».

NOTA IMPORTANTE

Os convites só poderão ser levantados pelo próprio vencedor, mediante apresentação de documento de identificação.

SESSÃO:
13 maio, quarta-feira, 21h30


REGRAS GERAIS DOS PASSATEMPOS

  • Os dados comunicados não serão partilhados com nenhuma entidade.
  • Todas as participações serão numeradas por ordem de chegada e um programa informático selecionará as premiadas;
  • A lista dos premiados será publicada nesta página após ser feito o apuramento. Será feita a notificação por e-mail, esteja atento à sua caixa de entrada.
  • Os convites são sempre válidos no limite dos lugares disponíveis e devem ser levantados atempadamente antes da hora marcada para a sessão. A METROPOLIS não se responsabiliza caso a sua entrada seja recusada por excesso de lotação.
  • Os faltosos serão excluídos de futuras ante-estreias METROPOLIS. Por favor, participe apenas se desejar e puder estar presente.
  • Evite participar em seu nome e no de mais de 20 amigos. A não ser que eles não tenham acesso a internet, não há justificação para que não sejam eles a fazê-lo. As hipóteses de ganhar aumentam com as participações verdadeiramente individuais

Divina Comédia

Dante Alighieri (1265-1321) foi poeta, escritor e homem de intervenção política na República de Florença, a Repubblica Fiorentina (1115-1532). Entre outras obras maiores, escreveu o poema alegórico Comedìa que viria a ser imortalizado por Giovanni Boccaccio (1313-1375) na hoje mais conhecida designação La Divina Commedia.

Esta «Divina Comédia», 2025, que agora estreia em Portugal pela mão da Nitrato Filmes, realizada pelo iraniano Ali Asgari, só de raspão se pode considerar no mesmo patamar que essa obra maior da literatura e da cultura da Europa e do Mundo. Mas não deixa de ser comédia, género que defende com garra, e por isso mesmo nos impele a não lhe virar as costas, mesmo quando não ignoramos os seus altos e baixos. Podemos dizer que de uma maneira geral apresenta algumas soluções narrativas que foram decerto bafejadas pelo ar fresco (e de algum modo livre) que sopra das montanhas situadas a Norte de Teerão.

No elenco principal encontramos duas personagens propulsoras dos acontecimentos que se moldam a partir da matéria-prima de uma ficção que não anda longe de uma certa realidade local, e não só. Falamos de um casal constituído pela produtora e actriz (Sadaf Asgari) e pelo cineasta (Bahram Ark) que, percorrendo de mota as ruas e avenidas da capital do Irão, procura desesperadamente encontrar um ecrã para exibir o seu último filme. Este foi rodado em Turco, porque a personagem central era Turca, argumento que se revela muito frágil quando um belo dia o autor se vê obrigado a confrontar o representante oficial que lhe podia ou não atribuir a necessária licença de exibição.

E será no frugal escritório deste seu interlocutor que se começa a desenhar o modelo de “ataque” assumido pelo (verdadeiro) realizador, Ali Asgari (no campo da encenação, da planificação e no do ritmo de montagem), face a situações que merecem da parte dele, das personagens e da nossa parte (enquanto espectadores disponíveis e solidários) um sentimento de imersão nas vicissitudes do (ficcional) realizador e no desfrutar dos mil e um pormenores que fazem a diferença no desenrolar da acção. Trata-se aqui (e logo a abrir) de estabelecer um diálogo (diria, um diálogo de surdos) entre alguém que irá estar fora do enquadramento do primeiro ao último dos vários minutos que dura o plano médio do nosso “herói” sentado de esguelha numa sala onde ao fundo se vê a bandeira do Irão.

Todavia, o eixo da objectiva incide na diagonal que existe entre nós, os que estamos a observar a situação, e ele, o actor, ou seja, nós estamos no lugar do burocrata que debita as suas razões, na prática a voz do poder (umas vezes, profere verdades genéricas que lhe conferem uma visível perspicácia e autoridade, outras vezes, juízos de valor retirados da cartilha ideológica que pretende formatar e evitar um ou outro desvio no contexto da actividade cultural).

Pelo meio fica a pergunta que, aliás, qualquer um podia formular: “Porque insiste o realizador em lutar contra a maré? Porque insiste em mostrar um filme que não obedece aos parâmetros oficiais sobejamente enunciados?” Na verdade, pouco ou quase nada sabemos da longa-metragem em causa a não ser que encaixa (segundo se diz e se repete) nos parâmetros do chamado cinema de autor. Não obstante, a nossa curiosidade é aguçada quando ouvimos o dito autor dizer ao irmão (cineasta reconhecido e aparentemente bem integrado na profissão e nos meandros mais cosmopolitas da sociedade local) qualquer coisa como: “se quiseres ir ver o meu exercício de arte e ensaio, vai, mas o mais certo é não gostares”.

De facto, uma ironia fina atravessa do princípio ao fim o muito bem estruturado guião. Há ainda nele doses generosas de sarcasmo, e as diferentes atmosferas propostas pelo argumento, que se acumulam e se misturam com os sucessivos conflitos dramáticos, são uma espécie de figuração laica da força vital que move esta «Divina Comédia», equivalendo de certo modo aos conceitos de matriz religiosa prevalecentes na obra literária e relacionados com o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.

Para quem conheça o Irão, são uma delícia as personagens que Ali Asgari introduz na autêntica epopeia do realizador em busca de um ecrã disponível, mesmo que isso se faça no limite de uma visão algo redutora, aqui e além arriscada, e até fora da legalidade. Penso que aqui chegado será melhor deixar na “sombra” a referência e o que acontece com e a esses autênticos cromos, uma divertida galeria de controversas figuras com que os protagonistas se cruzam, que representam no limite algum do “povo” que pulula nas áreas mais chiques, mas não necessariamente mais influentes, de Teerão.

Mas sobretudo vou guardar segredo sobre a mais do que subversiva resolução final, para assegurar uma das mais singulares surpresas a quem for ver este filme. Só vos digo que quem gostar de cães e conhecer os seus hábitos e manhas, vai perceber muitíssimo bem a gargalhada que eu dei quando o cão (na verdade, uma cadela), bicho de estimação de uma senhora da classe média alta (muito liberal) desata a ladrar com uma ferocidade invulgar. Isto na noite da estreia (privada) do filme maldito. Um gag maravilhoso e uma sibilina e acutilante ferroada no inconformismo de quem por fim, na improvisada plateia, apanha com um generoso banho de realidade vindo dos lados da Síria. E os salpicos atingem qualquer um dos flancos da barricada. Com o circunspecto canino sentado e a olhar de frente para nós, firme e hirto, acaba esta «Divina Comédia». Nem sempre acerta no divino, mas decididamente acerta na comédia.

Título original: Komedie Elahi
Título internacional: Divine Comedy
Realização: Ali Asgari Elenco: Bahram Ark, Sadaf Asgari, Faezeh Rad
Duração: 98 min.
Irão, Itália, França, Alemanha, Turquia –
2025

As Correntes

Terceira longa-metragem da argentina Milagros Mumenthaler, e a primeira com honras de estreia nas nossas salas (depois da passagem pela secção competitiva do LEFFEST), «As Correntes» poderia ser o «Vertigo» dos nossos dias. Vejamos, o que leva uma mulher bem-sucedida e, para além disso, bem vestida, a atirar-se às águas de um rio tal e qual Madeleine/Kim Novak naquele outro filme de Hitchcock? É esta interrogação, eminentemente literária, que atravessa todo um filme de argumento original, construído sobre o tipo de mistério que os livros tendem a adensar de uma forma, por vezes, inalcançável para o cinema. Digamos que nem sempre as imagens conseguem medir a pulsação interior de uma mulher. E porém, «Las corrientes» é um exemplo feliz.

A mulher que responde ao impulso de se atirar ao rio, Lina, é uma estilista argentina, de 34 anos, que vai a Genebra receber um prémio. De volta a casa, em Buenos Aires, depois da bizarra ocorrência, esta mãe de família – com uma filha de cinco anos e um marido afável – continua, aos nossos olhos, a manter uma nuvem sobre a sua aparente vida “perfeita”. É como se o corpo dela, tomado por uma estranheza, habitasse o mesmo quotidiano com uma qualidade sensorial diferente: repare-se como Mumenthaler sugere essa alteração com um ou outro efeito sonoro, um ou outro plano estático, mas nunca caindo na tentação de descodificar o enigma de Lina pelos métodos do cinema de género, ou rotulando o seu comportamento de “depressivo”.

No Festival de San Sebastián, onde o filme foi apresentado, a realizadora fez questão de dizer que demorou oito anos a escrever o argumento. Oito. Uma revelação espantosa, não por dar conta de um trabalho que se condensou ao longo do tempo, mas por evidenciar uma capacidade rara de inverter o movimento da escrita: é como se Mumenthaler tivesse subtraído elementos para chegar ao melhor frasco de perfume, que nos dá a fragrância de Lina, mas oculta a fórmula.

E aqui é preciso sublinhar o discreto encanto da atriz protagonista, Isabel Aimé González-Sola, que se entrega às correntes interiores da personagem sem se desmanchar em sinais explicativos, antes permanecendo numa espécie de acordo tácito com a câmara de Milagros Mumenthaler… Assim como o detetive reformado de James Stewart não consegue tirar os olhos de uma Kim Novak possuída por um fantasma no referido filme de Hitchcock de 1958, também nós investigamos a linguagem corporal de Lina/Isabel Aimé González-Sola como se acercássemos a vertigem inexprimível de uma mulher.

TÍTULO ORIGINAL: Las corrientes
TÍTULO INTERNACIONAL: The Currents
REALIZAÇÃO: Milagros Mumenthaler
ELENCO: Isabel Aimé González-Sola, Esteban Bigliardi, Ernestina Gatti
ORIGEM: Argentina, Suíça
DURAÇÃO: 104 min.
ANO: 2025

Sonhos

Num momento em que as políticas migratórias dos Estados Unidos regressam ao centro do debate pelos piores motivos, «Sonhos», de Michel Franco, surge como uma exploração inquieta da imigração e da erosão do chamado “sonho americano”. O filme apresenta-nos Jennifer McCarthy (Jessica Chastain), uma socialite norte-americana, filha de um influente e abastado benemérito, responsável pela fundação do pai e detentora de fortes ligações ao México. É nesse contexto que conhece Fernando Rodríguez (Isaac Hernández), um jovem bailarino mexicano, com quem inicia uma relação marcada por uma intensidade tão arrebatadora quanto profundamente tóxica — reflexo das tensões entre amor, classe e poder que atravessam ambos os países.

Michel Franco conduz-nos por esta ligação desde logo assimétrica, sublinhando a evidente diferença de idades e deixando claro que ambos retiram proveito desta parceria, para além da voracidade sexual que os une. Ela procura juventude e fulgor físico; ele aceita viver à sombra de outrem, alimentando a esperança de uma oportunidade no país dos “sonhos”. À medida que a narrativa avança, torna-se impossível ignorar o choque de classes e, sobretudo, o peso da fronteira: a lei da imigração revela-se implacável para quem a atravessa em busca de uma vida melhor, mesmo quando essa mão-de-obra é indispensável ao sistema que a rejeita.

É neste ponto que o que parecia ser um filme de matriz política se transforma numa arena íntima do amor e do poder. Até onde pode ir a dominação? E até que ponto o amor — ou a paixão — pode servir de justificação para determinadas acções?

Jessica Chastain aceitou novamente o desafio de Michel Franco após a colaboração em «Memória» (2023), assumindo aqui também o papel de produtora. Isaac Hernández, bailarino profissional nascido em Guadalajara e figura incontornável das artes no México, estreia-se como protagonista e confere solidez a uma personagem que acumula múltiplas camadas: o imigrante deportado, o bailarino de excelência e o amante intenso.

«Sonhos» não é um filme arrebatador, mas é suficientemente incisivo para nos manter atentos — para não deixarmos passar em branco a persistência de quem ainda acredita na oportunidade, no mérito e no seu próprio valor, mesmo quando o mundo escolhe não olhar e já baixou os braços. Mas leva-nos igualmente aos escombros da toxicidade do amor e da arrogância cruel de quem age como se nada tivesse a perder, deixando um sabor amargo num tempo em que precisávamos, precisamente, de acreditar no sonho e na promessa de que o melhor ainda está por vir.

Título original: Dreams Realização: Michel Franco Elenco: Jessica Chastain, Isaac Hernández, Rupert Friend Duração: 95 min. México/EUA, 2025

O Acidente com o Piano

Ainda estávamos de barriga cheia com o recente «O Segundo Acto» e empanturrámo-nos com o delicioso «O Acidente de Piano» onde Quentin Dupieux confirma o seu percurso de provocador sistemático, sempre disposto a expor as contradições e os absurdos do nosso tempo. O filme acompanha Magalie, ou “Magaloche”, uma influenciadora digital que sofre de analgésia congénita, uma rara condição de insensibilidade à dor. Inspirada pela polémica e imbecilizante série american da MTV «Jackass», transforma esse traço físico numa arma de notoriedade, Magalie constrói uma carreira exibindo façanhas grotescas e chocantes cada vez mais extremas para satisfazer o apetite insaciável da atenção online. O título surge de forma literal e metafórica: após um acidente de piano, acompanhada pelo seu fiel e subserviente assistente (Jérôme Commandeur) refugia-se num chalet de montanha para repousar, mas logo a calma é invadida por uma jornalista (Sandrine Kiberlain) em busca de uma entrevista exclusiva, fãs que confundem admiração com posse e a própria incapacidade da protagonista de escapar ao ciclo de exposição. Dupieux afirmou em entrevistas que não pretende julgar o público, nem destilar misantropia gratuita; o que procura é libertar-se das ideias negativas que o assombram, transformando-as em objectos fílmicos que possam, simultaneamente, divertir e incomodar. O pior, segundo ele, seria a indiferença, e é precisamente essa recusa da neutralidade que marca o filme.

A interpretação de Adèle Exarchopoulos é exemplar. A actriz entrega-se a um papel extremo, que a obriga a atravessar o grotesco sem rede, despojando-se de qualquer aura glamorosa e encarnando uma figura física e psicologicamente desconfortável. Magalie é uma personagem difícil de amar e é esse o seu trunfo: não há apelo sentimental, mas sim choque, excesso, riso nervoso, confronto directo. O público é desafiado a seguir uma protagonista cuja única lógica é a do espectáculo total da exibição ilimitada. Os personagens secundários, em contrapartida, são esboçados como arquétipos: a jornalista oportunista, os fãs obsessivos, o assistente resignado. Funcionam como instrumentos simbólicos mais do que como seres complexos, o que deixa o filme, por vezes, algo desequilibrado, sobretudo para quem procura densidade psicológica em todos os vértices narrativos. Mas tomemos essas personagens como caricaturas ou figuras-tipo de teatro medieval. Isto porque, no geral, o que Dupieux nos oferece é uma sátira à sociedade digital, ao culto da visibilidade e à transformação da dor em conteúdo. A insensibilidade física de Magalie é metáfora clara da insensibilidade moral de uma época que exige sempre mais espectáculo, mais choque, mais degradação para que algo seja notado. A jornalista que a persegue encarna o jornalismo de escândalo, os fãs revelam o vazio do voyeurismo, e o chalé isolado funciona como palco de um microcosmo social em colapso. O humor é negro, corrosivo e, por vezes, arrasta-se até à exaustão: a repetição de situações grotescas, a dilatação de cenas que parecem prolongar-se apenas para gerar desconforto, que mais do que uma afirmação estilística, afirmam-se como recursos deliberados.

Mas atenção: «O Acidente com o Piano» não é uma mera repetição. O filme apresenta uma abordagem estética peculiar, sobretudo no tratamento do som e da música. Pela primeira vez, Dupieux decidiu utilizar gravações de piano não electrónico, explorando o timbre de um instrumento avariado, cujas cordas em falta produzem sons quebrados e desarmónicos. Esse material, captado e usado quase cru, cria uma textura sonora instável que acompanha o desconforto narrativo. No clímax, surge ainda a colaboração de Chilly Gonzales, que introduz uma peça poética inesperada, oferecendo uma pausa reflexiva antes do desfecho. Esse contraste entre ruído, dissonância e lirismo pontual amplia a experiência sensorial e dá ao filme uma dimensão quase musical, ainda que nunca consoladora. Há ainda que notar a coragem do realizador em colocar o dedo na ferida de uma cultura digital que se alimenta da degradação; a entrega absoluta de Exarchopoulos, que transforma uma caricatura potencial em algo hipnótico; a atmosfera construída pelo isolamento na montanha, pela neve, pelo silêncio saturado de tensão; e a originalidade relativa da metáfora central, que consegue ser contemporânea sem parecer moralista. Sente-se a evolução de Dupieux em relação ao seu filme anterior, «Le Deuxième Acte» («O Segundo Acto»), que se debruçava sobre a própria ideia de representação e simulacro cinematográfico: se aí a crítica estava virada para o interior do cinema e da ficção, aqui desloca-se para a realidade social das redes e da exposição digital, criando uma espécie de díptico involuntário sobre os diferentes palcos da performance contemporânea. Embora não atinja a intensidade perturbadora de «Le Daim» («100% Camurça», 2019) ou a secura brilhante de «Yannick» (2023), trata-se de uma obra sólida que cristaliza o universo “dupieuxiano”.  É um filme que não consola, não oferece catarse, não dá lições morais: limita-se a expor um espelho deformado no qual o espectador se vê, queira-se ou não lidar com essa realidade. E é precisamente nesse desconforto que reside a sua eficácia.

Título original: L’accident de piano Título internacional: The Piano Accident Realização: Quentin Dupieux Elenco: Adèle Exarchopoulos, Sandrine Kiberlain, Karim Leklou, Jérôme Commandeur Duração: 92 min. França, 2025

[Crítica originalmente publicada na revista Metropolis nº122, Setembro 2025]

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Corpo de Cristo – crítica

“Corpo de Cristo” (Iguana) é um achado divino assinado por Bea Lema. É uma novela gráfica dramática a partir de uma experiência que exorciza e encontra a paz após uma infância e adolescência medonha que serve de inspiração para uma obra inesquecível que aborda o delicado tema da saúde mental e da religião. É a arte da escrita plena de originalidade num desenho que se entrelaça com os bordados feitos à mão. É um livro espantoso.

Adela era casada e tinha dois filhos, residia na Corunha, era dona de casa, foi trabalhadora no sector da confecção e foi acompanhada de forma intermitente pelos psiquiatras. Tinha um delírio religioso e personalidades especiais, era grande consumidora de álcool e possuía um quadro de ciúmes patológicos. Tinha tendências paranoicas e era muito desconfiada. Vera, a sua filha nasceu a 31 de Janeiro de 1985, uma das suas primeiras recordações foi uma viagem a uma casa de uma curandeira que parecia desabitada, onde começou a sentir um forte cheiro de incenso… A filha estava cansada há algumas semanas e não comia e visitaram alguns médicos e a mãe decidiu levá-la a uma curandeira, a solução não teve efeito e mais tarde Vera foi diagnosticada com tuberculose. A partir desse momento, na sua tenra infância, Vera começou a desconfiar do que se passava com a sua mãe. Esta enfiava-se na cama e ficava angustiada, sentindo um peso dentro de si. A mãe esquecia-se de ir buscar a filha às aulas de ballet e o pai dizia que ela estava doente dos nervos, mas o mal era outro. A mãe sentia que tinha um demónio dentro do corpo. O demónio tocava-lhe no estômago, na cara e não a deixava descansar, estava sempre a visitá-la pelo que a família não podia fazer barulho. O pai era auxiliar de farmácia e pintor de paredes à noite, julgava que isso do demónio era uma superstição obsoleta. A família foi ao psiquiatra, mas a mãe estava reticente em tomar medicação. O pai não contou a ninguém o que estava a acontecer, com medo de ser rejeitado. Ele estava a lidar sozinho com a situação, e passava mais tempo a trabalhar e menos em casa. A mãe estava convencida de que ele tinha um amante, passava o tempo a inspecionar a casa e procurava pistas, cheirava-lhe a roupa e telefonava aos colegas do marido. Também espiava o irmão de Vera, que sofria com a paranoia da mãe. Este tinha acabado de entrar na universidade e a mãe achava que ele era toxicodependente. Vera constrói um altar com as suas bonecas e pede a Jesus Cristo que tire os espíritos do corpo e da alma da mãe. A salvação de Vera era a sua tia Maria, ela era costureira e passava o ofício da costura da família de geração em geração.

A mãe de Vera nasceu em 1946 em Espanha num período marcado pela fome dos anos do pós-guerra. O avô era um bêbado – este relato em flashback utiliza um impressionante traço a preto e branco tipo cartoon. Nos anos 1960, a mãe emigrou com 18 anos para a Suíça e foi feliz. Isso representou a oportunidade de fugir da aldeia e ir para um lugar cheio de possibilidades, mas a maioria dos imigrantes daquela altura decidiu regressar quando pouparam o suficiente para comprar um apartamento em Espanha. Eles estabeleceram-se na Corunha, uma cidade que crescia de forma caótica nos anos 1970. No fim da ditadura, começou o processo de industrialização que levou muitas pessoas a trocarem as áreas rurais pelas cidades. Os centros urbanos cresciam de uma forma vertiginosa e desordenada, a mãe começou a isolar-se e a não aceitar os convites das outras mães para fazer programas. Nessa época, a mãe achava que o seu vizinho estava feito com o demónio e rezava a Deus para que não lhe acontecesse nada de mal, foi Testemunha de Jeová durante três anos e estava cada vez mais delirante.

Antes de mais nada, é necessário celebrar o acto de coragem da escritora espanhola. O género biográfico através da expressão da novela gráfica tem providenciado obras de primeira água, recordamos o trabalho da sua compatriota María Hesse em “Medo” (Iguana). Ela é actualmente uma autora universalmente aclamada, que soube também combinar de forma singular o drama pessoal com a 9ª Arte.

Em “Corpo de Cristo” estamos a falar de uma obra ainda à flor da pele, o que é mais demonstrativo da capacidade do processamento artístico de Bea Lema. A sua habilidade de síntese e construção narrativa são totalmente louváveis.

O livro é uma grande história de amor de Vera pela sua mãe, uma preocupação que a assolou a vida inteira. O irmão mais velho foi banido de casa pela paranoia da sua mãe e o pai foi ficando cada vez mais alienado da esposa. A obra incide nos cuidados dos familiares em relação a uma pessoa com um estado mental que impedia de ter uma vida normal. Mas é igualmente um olhar para um sistema de saúde que, no tratamento destas enfermidades, enfrasca os pacientes de medicamentos que tornam as suas vidas ainda mais complicadas.  

É necessário enquadrar este drama nas diferentes épocas em que se desenrola. Um aspecto que me deixou arrepiado foi a procura da autora em relatar um acontecimento que infelizmente afecta muitas famílias pelo mundo fora, mas também a capacidade de demonstrar empatia pela mãe e as circunstâncias que levaram à sua loucura. O último terço da obra, que recua a uma sociedade espanhola profundamente patriarcal dos anos 1940, na infância da mãe, encontramos a origem do trauma que desfigurou uma vida para sempre. A esta dimensão traumática junta-se a visão da Igreja, é preciso lembrar que era uma época em que as psiquiatrias eram inexistentes na Espanha rural (muito menos os domínios da terapia e da psicologia). As populações recorriam aos padres e às curandeiras para lidar com o problema do desconhecido e das perturbações na mente, e quase sempre era devido ao demónio que assolava as criaturas terrenas. Este livro sofreu backlash de algumas associações católicas em Espanha quando venceu o Premio Nacional del Cómic de 2024 entregue pelo Ministério da Cultura espanhol. O livro também recebeu reconhecimento – plenamente justificado – além fronteias em países como Itália, França e Canadá.

É curioso que o meu melhor filme de 2025 («Sirát») foi também criado por um conterrâneo de Bea Lema, o seu “Corpo de Cristo” é um dos meus livros de eleição de 2025. Temos de perceber o que andam a colocar na água da Galiza? No noroeste de Espanha encontrarmos dois talentosos artistas no auge da sua criatividade. Ambos os artistas têm jornadas distintas, mas compartilham empatia pelo próximo, amor e o processamento da dor em diferentes cultos, além de reconhecerem a importância crucial do indivíduo para a saúde mental.