Liliane Steiner (Jodie Foster) é psiquiatra. Habita o território do racional, da análise, da escuta controlada. Está habituada a entrar na vida dos outros com método e contenção, mantendo a distância necessária para não se perder — inclusive do seu filho e do seu neto. Mas quando uma paciente, Paula (Virginie Efira), morre em circunstâncias ambíguas, algo se transforma. Não de forma ruidosa, mas irreversível. A fissura instala-se e nada volta a ocupar exactamente o mesmo lugar.

O filme prossegue com o papel de detective que Liliane assume e para o qual conta com a ajuda do ex-marido, interpretado pelo irrepreensível Daniel Auteuil. Entre teorias descabidas e outras que parecem fazer todo o sentido, «Vida Privada» mistura um tom cómico com nuances de thriller e uns pozinhos de esoterismo, criando espaço para que todos os actores brilhem nos seus papéis.

A realizadora oferece também um lugar de destaque à banda sonora, com um tema de abertura que, de certa forma, apresenta o filme: “Psycho Killer”. Uma escolha que obriga a olhar para dentro. Para o ruído. Para a vazio. Para o momento em que a identidade deixa de ser um lugar seguro e passa a ser um território instável.

«Vida Privada» assinala o primeiro grande papel que Jodie Foster interpreta inteiramente em francês. Não é um território desconhecido — Foster já tinha atravessado o cinema francês, ainda criança, em «Moi, fleur bleue», e mais tarde em «A Very Long Engagement». Ainda assim, Rebecca Zlotowski assume que há muitos anos desejava escrever um papel para a actriz norte-americana. Este filme é, portanto, um sonho tornado realidade, algo que a realizadora assumiu em diversas entrevistas. Foster fala um francês quase nativo e fluente — não por acaso: estudou no Lycée Français de Los Angeles durante a juventude.

Zlotowski já tinha demonstrado uma sensibilidade particular para retratar relações humanas sem grandes filtros ou floreados, em filmes como «Os Filhos dos Outros» ou «Grand Central». Aqui, escreve o argumento com a sua melhor amiga, Anne Berest, mais aberta à espiritualidade e às ideias de vidas passadas, metempsicose e regressão quântica. Essas camadas, que por vezes roçam o cómico, acabam por desbloquear zonas emocionais importantes na vida de Liliane e da sua família mais próxima.

Entre o científico e o intuitivo, entre o que se explica e o que apenas se sente, «Vida Privada» sugere que aquilo a que chamamos real pode ser apenas uma interpretação. A forma como se encara a realidade nasce, muitas vezes, do que se é e do que se sente — mesmo quando não se sabe porquê.

No final, Zlotowski devolve-nos o poder do estado de presença. Estar disponível para o que se desenha e se desenrola no momento, sem necessidade de registar, gravar ou tomar notas. Interessa apenas estar ali. Aceitar que o agora pode conter ecos de outros tempos, de outras memórias, talvez… até de outras vidas.

Título original: Vie Privée Realização: Rebecca Zlotowski Elenco: Jodie Foster, Daniel Auteuil, Virginie Efira Duração: 100 m França, 2025

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