Da aldeia onde vivia sem livros para ler, a Cannes, dos palcos à nomeação ao Oscar de Melhor Atriz, a actriz de “Valor Sentimental”, transformou fragilidade em método e talento em resistência.

Renate Reinsve, a actriz de “Valor Sentimental”, do norueguês Joaquim Trier, — entre outros prémios vencedor do Melhor Filme Europeu e nomeado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional — sorri com facilidade, fala com doçura, escuta com atenção, mas nunca baixa a guarda. É linda naquela sua beleza nórdica, é simpática, calorosa sem ser ingénua, próxima sem ser confessional, aberta sem ser exibicionista. É um prazer estar com ela. Mesmo quando aceita entrevistas mais longas — uma raridade na indústria das promoções-relâmpago —, mantém sempre um pequeno cofre emocional fechado. Não por falta de conteúdo, mas por excesso dele. Como se temesse que, sem o escudo de um texto, de um guião ou de uma personagem, uma torrente de emoções pudesse escapar sem controlo. Tal como a sua Nora, de “Valor Sentimental”, — não me canso de dizer, que é um dos filmes mais belos do cinema europeu da actualidade — a actriz aterrorizada pela possibilidade de deixar transbordar aquilo que carrega dentro.

Renate Reinsve em “Sentimental Value”

Nada na vida de Reinsve foi linear. Cresceu em Solbergelva, uma pequena aldeia a cerca de cinquenta quilómetros de Oslo onde, segundo ela própria, “não acontece nada”. Uma estrada, algumas casas, silêncio, rotina. Os pais trabalhavam numa loja de ferragens fundada pelo avô. Em casa não havia livros, nem música, nem conversas sobre arte. “Eu não tinha muito em comum com a minha família”, admitiu. Não teve uma infância feliz. Não explica porquê. Não precisa. Aprende-se cedo que, em certos casos, o silêncio é mais eloquente do que qualquer confissão.

Na escola, refugiou-se no teatro. Começa por interpretar… uma raposa. Leva o papel tão a sério como se fosse Hamlet. Estuda o animal, os gestos, os hábitos, o comportamento. Pela primeira vez, sentiu-se útil, orientada, necessária. Descobriu que representar não é fingir: é organizar o caos interior. Em casa, via a série juvenil “MacGyver”e reescrevia mentalmente os episódios. Aos poucos, construiu uma imaginação paralela onde tudo fazia mais sentido.

Aos 16 anos, saiu de casa. Fugiu, na verdade. Vai para Drammen, outra cidade bela com um fiorde lindo que não fica também muito longe de Oslo. Aí respira. Descobre os filmes de David Lynch. Uma revelação. Descobre “A Pianista”, de Michael Haneke, com Isabelle Huppert, e vê-o obsessivamente. Estuda cada gesto, cada micro-expressão. E aprendeu que actuar é precisão, não exagero. Foi para a Escócia fazer biscates e apaixonou-se pela cidade de Edimburgo e pela sua vida cultural, mas acaba por regressar à Noruega, para logo entrar na Academia Nacional de Teatro. Mergulhou em Shakespeare, Ibsen, Tchekhov. Entretanto, forma-se como actriz clássica antes de ser a estrela contemporânea do cinema europeu.

Renate Reinsve em “Oslo, 31 de Agosto”.

Joachim Trier filmou-a brevemente em “Oslo, 31 de Agosto”, mas foi no teatro que se afirmou como actriz, aliás como a sua personagem de “Valor Sentimental”, com quem tem muitas semelhanças na sua essência. Trabalhou sem parar, ganhou prémios, e escolhida pela grande encenador norte-americano Robert Wilson, recentemente falecido, para fazer “Edda”, a partir de uma peça do dramaturgo norueguês Jon Fosse, em 2017. O encenador norte-americano, pouco antes de morrer, recordaria mesmo nela “a sua luz, musicalidade e inteligência criativa”. Mas o cinema continua a dar-lhe pouco. Telefilmes esquecíveis, projectos sem ambição, encenações medianas. Cansa-se. Desencanta-se. Decide parar. Pensa ir para Itália aprender carpintaria. Construir coisas reais. Casas. Paredes. Portas. Tudo o que a representação não parecia oferecer. Mas no dia seguinte, recebe o argumento de “A Pior Pessoa do Mundo”: Julie, o papel que muda tudo.

A partir daí, nasce uma das parcerias mais férteis do cinema europeu contemporâneo. Joachim Trier encontra nela a actriz que transforma introspecção em narrativa. Ela encontra nele o realizador que lhe escreve para a alma. Juntos constroem personagens que respiram, hesitam, erram, falham, crescem. Em “Valor Sentimental”, esse pacto atinge outro nível. Nora é uma actriz ferida, filha de um realizador ausente, esmagada por expectativas, substituída por uma estrela americana, obrigada a confrontar-se com o passado e consigo própria.

“A Pior Pessoa do Mundo”

O colega e grande actor sueco Stellan Skarsgård — Melhor Actor Europeu 2026 — observou-a em silêncio, mas com admiração, no plateau: “Ela é paradoxal. Extremamente concentrada, depois solta tudo.” Trier é ainda mais directo: “Ela não tem vaidade.” Reinsve estuda pessoas em documentários, observa desconhecidos, rouba gestos, desaparece por trás das personagens. Quer ser invisível para ser verdadeira.

Com Stellan Skarsgård em “Valor Sentimental”.

Entretanto, torna-se a actriz mais famosa da sua geração na Noruega. Professores, críticos e académicos apontam-na como símbolo de uma nova vaga escandinava, surgida num contexto de crise ambiental, tensões políticas e fragilidade social. Para ela, a cultura nunca foi tão necessária. E nunca esteve tão ameaçada.

A vida privada mantém-na blindada. Tem um filho pequeno, que descreve como “sensível e forte”. Protege-o do ruído mediático. É frequentemente associada ao realizador Halfdan Ullmann Tøndel, neto de Ingmar Bergman e Liv Ullmann, com quem trabalhou em “Armand”. A imprensa norueguesa transformou-os num “casal dourado” nórdico. Ela encolhe os ombros. São amigos. Criadores. Cúmplices artísticos. Nada mais.

Numa conferência de imprensa sobre “Valor Sentimental” com Stellan Skarsgård e Joachin Trier.

Hollywood observa-a com apetite. Stellan Skarsgård teme que atravesse o Atlântico cedo demais. “Ela é preciosa demais para Hollywood.” Trier confia: “Ela nunca desperdiçará o talento.” E ela própria hesita. Já recusou papéis. Escolhe devagar. Recentemente, trabalhou com o realizador romeno Cristian Mungiu, em “Fjord” e em “Somwhere Out There”, o primeiro filme europeu do realizador norte-americano Alexander Payne, ambos com estreia prevista para 2026. Aceitou trabalhar em dois projectos descritos como ‘experimentais’ com a A24: Primeiro “A Different Man” (2024), de Aaron Schimberg com Sebastian Stan e mais recentemente em “The Backrooms”, umfilme de terror e ficção científica ao lado de Chiwetel Ejiofor, baseado num fenómeno viral de found-footage do YouTube criado por Kane Parsons (que se tornou o realizador mais jovem da A24 aos 19 anos) e foca-se em ambientes surreais e labirínticos conhecidos como ‘espaços liminais’. Explora. Arrisca. Aprende.

Em “Somewhere Out There”, o novo de Alexander Payne, que estreia este ano.

Em Cannes 2025 na sessão oficial de “Valor Sentimental”, levou os pais. Viu-os emocionados. Sentiu-se finalmente compreendida. Estava ali, no centro do circo, a apresentar um filme sobre uma família disfuncional. A vida, outra vez, a imitar a arte.

E confessa: mentiu quando disse que nunca teve medo em palco. Em 2017, antes de actuar para Robert Wilson, soube que Isabelle Huppert estava na plateia. Quase desistiu. Subiu ao palco cheia de falhas, inseguranças, tremores. E foi ali que percebeu: não se nasce actriz. Torna-se.

Com Inga Ibsdotter Lilleaas em Valor Sentimental”.

Renate Reinsve não é produto. Não é hype. Não é moda. É uma construção lenta, rigorosa, emocionalmente honesta. Uma actriz que transforma fragilidade em ferramenta, medo em linguagem, silêncio em expressão. Num tempo de interpretações inflacionadas e emoções de plástico, ela trabalha como artesã. Lima. Ajusta. Erra. Recomeça.

Agora nomeada ao Oscar de Melhor Actriz — em que o favoritismo vai todo para Jessey Buckley — a norueguesa celebrada no Festival de Cannes, cortejada pela indústria europeia e mundial, continua a ser, no fundo, a rapariga da estrada da floresta e da aldeia com poucas casas, uma espécie de Capuchinho Vermelho, que ainda não se deixou apanhar pelo lobo. A criança sem livros que encontrou no cinema uma biblioteca infinita. A actriz que nunca pediu para ser estrela e por isso mesmo se tornou uma diva, embora mão se comporte como tal.

E talvez seja por isso que, aconteça o que acontecer nos Oscars de 2026, Renate Reinsve já ganhou o mais raro dos prémios: tempo, respeito e verdade.

Foto de abertura: Renate-Reinsve_Photo_Kasper-Tuxen-Andersen

Fotos: ©Alambique Filmes/Divulgação.

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