Depois de «Têm de Vir Vê-la», o primeiro filme de Jonás Trueba a estrear nas salas portuguesas, em 2023, parece que a distribuição por cá do cinema deste interessantíssimo realizador espanhol ganhou um certo caráter de compromisso: «Voltareis» é o seu novo filme, agora em cartaz, e os restantes títulos de uma obra iniciada em 2010 foram apresentados em novembro numa retrospetiva do LEFFEST, onde Trueba marcou presença. Caso para dizer que os espectadores poderão finalmente criar um vínculo com o cineasta que muitos comparam ao francês Eric Rohmer, ao sul-coreano Hong Sang-Soo ou mesmo ao americano Woody Allen. Este é, afinal, um cinema de continuidade, feito quase sempre com os mesmos atores e fiel a uma repetição de motivos que permitem a familiaridade com códigos humanos, culturais e geracionais muito específicos.
Assim, e embora não se trate de nenhuma espécie de “sequela”, bem longe disso, tendemos a olhar para «Volveréis» como um filme inserido num universo de referências internas. A saber, um livro mencionado algures em «La Virgen de Agosto» (2019) – “Buscas da Felicidade – A Comédia de Recasamento em Hollywood”, de Stanley Cavell – estará na origem desta versão moderna da comédia de recasamento que é «Voltareis», onde deparamos com um casal que decide pôr fim a 15 anos de matrimónio organizando uma “festa de separação”. Isso mesmo: Alex (Vito Sanz) e Ale (Itsaso Arana), desafiando a perplexidade de amigos e familiares, querem provar que é possível uma rutura feliz, e agarram-se às palavras do pai dela como a um mantra… Diz ele que as separações, muito mais do que os casamentos, merecem ser celebradas – só para que conste, esse pai surge aqui brevemente interpretado pelo realizador Fernando Trueba, pai do próprio Jonas! Um momento precioso de homenagem filial num filme repleto de outros momentos preciosos.
Forjando um regime de observação intimista, que privilegia o artesanato emocional, os pequenos grandes acontecimentos do quotidiano e a vida oculta dos diálogos, Jonás Trueba (e os coargumentistas que são a própria dupla de atores) tece em «Voltareis» um exame sereno, divertido e melancólico da metamorfose e/ou renascimento do amor. Isto sempre com Madrid a ser para ele mais ou menos o que Nova Iorque é para Woody Allen, cidade-cinema, cidade-livro, cenário de uma experiência criativa do mundo, lugar de canções interiores, caminhadas introspetivas, noites longas, tardes bonitas, encontros e desencontros. Temos obra-mestra.
TÍTULO ORIGINAL: Volveréis REALIZAÇÃO: Jonás Trueba ELENCO: Itsaso Arana, Vito Sanz, Fernando Trueba DURAÇÃO: 114 min. Espanha/França, 2024
[Crítica originalmente publicada a 2 de Fevereiro, 2025]




