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DEVORAR A NOITE

É no gesto de evasão, no escapismo do “mundo real” em prol de uma utopia virtualizada, que «Devorar a Noite» encontra a sua potência romântica. A segunda longa-metragem de Caroline Poggi e Jonathan Vinel, parte do movimento “Flamme” (ao lado dos cineastas Bertrand Mandico e Yann Gonzalez), utiliza a questão do videojogo não como a habitual distopia com que Hollywood nos costuma brindar (veja-se o caso «Ready Player One – Jogador 1», de Steven Spielberg, ou «Existenz» de David Cronenberg), mas como extensão do real. Uma realidade expandida, onde o dito escapismo se transforma em gesto de pertença, e o real, essa vivência social, rumina um pastiche que se confunde com uma identidade não desejada. Por outras palavras, «Devorar a Noite» é um filme criminal romântico, no signo dos gangsters do miserável, onde um romance gay surge como anomalia, o glitch nesse enquadramento social. Quase como apropriação de géneros definidos e plenamente heteronormativos (existe um outro joguete de delinquência — «Femme», de Sam H. Freeman e Ng Choon Ping, com estreia apenas televisiva em Portugal — que evidencia igual modus operandi, ao sintonizar a homossexualidade não como um trajecto da estética queer, mas filiado a outros géneros e movimentações), é dessa relação que o real do filme nos conduz, ziguezagueando pela diegese do videojogo “Darknoon” ( uma espécie de League of Legends emocional). Um baile de máscaras e simultaneamente uma “sala de chuto”, onde os avatares auto-determinam-se na manutenção dessa união sintética: um mundo criado onde a consequência física é mera ilusão e as relações, mesmo sob as limitações do seu sistema, são desafios facilitados perante a realidade dolorosa e desencorajadora. Nesse universo temporário, assistimos ao convívio distante de dois irmãos conectados pelos bites & bytes e por outro, a imagem-reflexo do espaço que coabitam, perfumada e fantasiada, cuja a eventual queda dos servidores levará à extinção dessa ferramenta afectiva e uma despedida ao escape salvador. O caos é o que espera a estes protagonistas, mesmo que as sementes dessa resistência e non-sense interpretado na Humanidade já exista na primeira longa-metragem da dupla, «Jessica Forever» (2018). Aqui, o real destes jovens é de um convincente academismo e rigor para com os signos impostos da chamada realidade, enquanto que o irreal, o videojogo caso não tenham entendido, é o prolongamento da valentia experimental de Poggi e Vinil. Voltando ao exemplo da outra margem, «Ready Player One», que após a viagem de easter eggs e ostentação de cromos viabilizados pela maravilha tecnológica que Spielberg brinda-nos, cede a um final moralista, a um sermão ao desmame tecnológico e ao inevitável carpe diem. «Devorar a Noite», por outro lado, não cai nessa esparrela; desconecta-se da demagogia e das habituais desintoxicações. Perante o transumanismo, o destino do virtual é a grande fronteira do homem nesta sua vivência.

Título original: Eat the Night Realização: Caroline Poggi & Jonathan Vinel Elenco: Théo Cholbi, Erwan Kepoa Falé, Lila Gueneau Duração: 106 min. País: França, 2024

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