Um gato bípede, que mora num templo, anda de mota (sem carta de condução), faz massagens e joga no casino. Talvez só os japoneses se lembrassem de criar uma personagem assim, não objetivamente “fofinha”, mas francamente humana, quer na inclinação materialista, quer num certo à vontade… que envolve duas ou três ocasiões flatulentas (pensemos nos traques de «Bom dia» [1959], de Yasujirô Ozu, para relativizar essa doméstica postura japonesa). Aí está, pois, «Gato Fantasma Anzu», de Yôko Kuno e Nobuhiro Yamashita, uma animação menos infantil do que se possa imaginar.

Já agora, bem diferente do fenómeno «Flow» (se está a pensar no efeito-gato), este é um filme que desafia a própria noção de “animação japonesa” como modelo único, derivado do Studio Ghibli. Digamos que «Gato Fantasma Anzu» tem um estilo bastante independente: desde o traço do desenho ao humor inusitado, há uma atitude muito livre e excêntrica nesta história de um bichano gigante, com mais de 30 anos de idade, que parou de envelhecer e vive agora uma vida tranquila com um monge, tratando do lar, ajudando pessoas enquanto sensei (mestre), e outras coisas que tais.

De qualquer modo, a presença de Anzu está longe de ser “mágica”. E talvez a mundanidade da personagem seja o que a torna mais interessante – basta notar que a sua entrada em cena se dá como fosse simplesmente um homem a tratar de assuntos quotidianos em cima de uma motoreta. Assim o vê Karin, uma pré-adolescente, neta do monge, que é deixada no templo para umas férias, sem que tenha ainda feito o devido luto pela morte da mãe. Esta é então a parte trágica: se Karin se mostra pouco recetiva às brincadeiras de Anzu, incumbido de ser o seu guardião, é porque esconde uma dor muito pessoal, e, além disso, está “treinada” pela solidão do mundo moderno, em que basta um ecrã de telemóvel para se passar as horas.

A dada altura, tudo isto se encaminha para a aventura progressivamente surreal. Numa viagem a Tóquio, Karin e Anzu acabam por ir parar ao reino dos mortos, passando pelo Inferno e mobilizando, deste lado, outras criaturas espirituais (fantasmas, como Anzu) para uma operação de salvamento… E não, «Gato Fantasma Anzu» não peca por mergulhar em situações demasiado rocambolescas para encher o olho ou divertir medianamente. É, sim, animação com toque de inesperado, que provoca uma estranha e boa sensação de experiência “realista”. Voilá!

TÍTULO ORIGINAL: Bakeneko Anzu-chan REALIZAÇÃO: Yôko Kuno, Nobuhiro Yamashita ELENCO: Mirai Moriyama, Noa Gotô, Munetaka Aoki ORIGEM: Japão, França DURAÇÃO: 97 min. ANO: 2024

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