A primeira longa-metragem de Dea Kulumbegashvili, «O Começo», por cá estreada em 2021, era um belo objeto intrigante. Nele navegávamos a psicologia de uma mulher, esposa do ministro de uma congregação rural de Testemunhas de Jeová, “à espera de que algo começasse ou terminasse”. Um estado de suspensão que, à sua maneira, permitia intuir o retrato de uma comunidade isolada, e o seu contexto patriarcal – era, como o título poderia sugerir, um filme que continha uma espécie de promessa; fazia-nos querer testemunhar o passo seguinte da jovem realizadora georgiana… Pois bem, aí está «Abril», o título que se segue, desta vez com selo de um produtor internacional, Luca Guadagnino, mais o Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza 2024, e uma boa dose de aclamação crítica. No entanto – e contra todas as expectativas –, desilude.
Já lá vamos.
À semelhança do filme anterior, não há dúvida de que Kulumbegashvili investe na atenção do espectador desde o primeiro plano. No caso, um plano ultra enigmático, onde uma figura humana deformada (ou talvez extraterrestre?) se deixa vislumbrar ao fundo do ecrã a negro, enquanto se ouvem as vozes de duas crianças a brincar e o murmúrio de água a correr. Pouco depois disso, o que acontece? Estamos agora diante de um parto real, filmado em plano picado, como certamente muitos de nós nunca viu.
Findo o preâmbulo atordoante, esta será então a história de uma médica obstetra acusada de negligência. Alguém que há muito assumira a missão de auxiliar mulheres da Geórgia rural, profundíssima, onde não é tolerado o aborto, nem qualquer ideia de autodeterminação feminina – a sua é uma jornada dolorosamente solitária, e o gesto de realização de Kulumbegashvili quer torná-la ainda mais cerimoniosa no horror, contrapondo planos magníficos da paisagem natural com o simbolismo de uma carga monstruosa (o tal corpo deformado), que aparece recorrentemente, em modo de instalação de arte contemporânea…
O que desilude em «Abril» é este espetáculo desnecessário de “seriedade”. Uma atitude que aqui tem menos que ver com cinema do que com a força temática do aborto, e o desejo de o tornar uma questão “puramente visual”, como quem reclama o propósito político da grande arte. Enfim, basta dizer que tudo isto se fica por um mero acumular de efeitos estéticos, num filme onde as imagens, muitas delas admiráveis, não correspondem a quase nada de essencialmente humano; antes procuram a atração da estranheza para pronunciar, em silêncio, qualquer coisa universal.
TÍTULO ORIGINAL: April REALIZAÇÃO: Dea Kulumbegashvili ELENCO: Ia Sukhitashvili, Kakha Kintsurashvili, Roza Kancheishvili ORIGEM: Geórgia, Itália, França DURAÇÃO: 134 min. ANO: 2024

