Em paralelo ao mito de Robin Hood, arqueiro que roubava os ricos para matar a fome dos pobres, a Europa imortalizou outras lendas heroicas, habitualmente associadas à narrativa de formação dos seus estados nacionais, como é o caso do besteiro William Tell, que ganhou fama a partir de 1474. As suas ações costumavam ser sintetizadas num desafio de vida ou morte: acertar uma maçã na cabeça do seu filho com uma flecha de caça, como um teste de aptidão da sua mira. Houve até uma série de TV (a franco-inglesa «Crossbow», de 1987 a 1989) sobre esse cavaleiro cruzado que desafiou o jugo austríaco sobre a Suíça do século XIV. Foi o dramaturgo alemão Friedrich Schiller (1759-1805) que consagrou Tell como um signo de liberdade, a partir de uma peça teatral com o seu nome, de 1804. Foi essa narrativa que inspirou o cineasta irlandês Nick Hamm a adaptar as peripécias do às da besta e do quadrelo de mão para o grande ecrã numa produção metade helvética, metade britânica, orçada em US$ 45 milhões. Claes Bang é o seu protagonista.
O astro dinamarquês brilhou em «The Square» (Palma de Ouro de 2017) e interpretou Drácula numa minissérie da Netflix. O seu carisma é essencial para o desenho dramatúrgico do guião escrito e filmado por Hamm numa linha épica. Parece mais «Braveheart» (1995), de Mel Gibson, do que uma longa-metragem de capa e espada convencional. O foco está na criação da identidade do povo da Suíça – país coprodutor do projeto, que se apoia na austera banda sonora de Steven Price. A direção de fotografia dionisíaca de Jamie D. Ramsay escora com eficácia o espírito de saga esboçado no argumento e rebuscado na realização.

A trama viaja no tempo até o ano de 1307, em que a Suíça é uma província sob o domínio da casa real austríaca, do clã Habsburgos. O povo suíço está ressentido com essa ocupação estrangeira e uma rebelião está a se formar, especialmente porque soldados dos líderes políticos maltratam a população à vontade dos seus caprichos. Alguns nobres suíços, como Rudenz de Attinghausen e Werner Stauffacher, tentam manter relações cordiais com os Habsburgos, seja por interesse próprio, medo de retaliação ou, no caso de Rudenz, por seu amor por Bertha, sobrinha de Albert, que se ressente da tirania do seu tio. Tell é o habitante local com destreza em combate suficiente para reagir. Reluta, por devoção à sua família, mas o chamamento da guerra vai conspurcar a sua quietude, o que rende um espetáculo eletrizante. O carisma de Claes faz de Tell um personagem inquietante, repleto de conflitos. Não é por acaso que o Festival de Toronto foi a rampa de lançamento do filme.
Título Original: William Tell Realização: Nick Hamm Elenco: Claes Bang, Ellie Bamber, Connor Swindells Duração: 134 min. Reino Unido, Itália, Suíça, 2024

