O crescimento de Joachim Trier como realizador parece agora uma verdade insofismável. Se o filme anterior, «A Pior Pessoa do Mundo» (2021), se tornou um fenómeno pela revelação em Cannes da atriz Renate Reinsve, suscitando ainda assim um ligeiro ceticismo quanto à sua “esperteza” contemporânea enquadrada numa Oslo vibrante, «Valor Sentimental» surge como a confirmação séria de que a parceria de longa data dos noruegueses Trier e Eskil Vogt, na escrita de argumentos originais, atingiu um novo patamar de excelência. Em primeiro lugar, por essa coisa bonita de conferir a uma casa o protagonismo mudo da ancestralidade.

É então através de um espaço doméstico, repleto de estratos de memória das gerações anteriores, que Trier nos leva à matéria bergmaniana escondida numa racha de parede ou na angústia de uma atriz antes de entrar em palco. A partir da barriga da casa, vamos chegar às dores de quem a habita, ou habitou, com duas irmãs (uma interpretada, mais uma vez, por Reinsve, a outra por Inga Ibsdotter Lilleaas) que retomam o contacto com o pai, Gustav Borg, um realizador famoso de regresso ao lar de família, enquanto gerem interiormente as mágoas pessoais em relação a essa figura quase sempre ausente das suas vidas.

Assumido pelo sueco Stellan Skarsgård com as doses certas de egocentrismo e tristeza, o tal realizador apresenta à filha que é atriz (Reinsve) o projeto de um novo filme, pretendendo oferecer-lhe o papel principal. Mas perante a recusa, e depois de o acaso o juntar com outra jovem atriz de Hollywood (Elle Fanning), numa espécie de interlúdio felliniano, Borg vai escavando a possibilidade de fazer o filme na mesma, com essa intérprete estrangeira, ao mesmo tempo que sente na pele a estranheza de trabalhar numa produção com dinheiros e diretrizes da Netflix…

Aqui, «Sentimental Value» podia ter-se deixado seduzir pelo mero comentário às atuais lógicas de produção de filmes. Mas em vez disso, Joachim Trier recentra continuamente a história da família, seja através de uma voz off que narra as recordações da casa – surgindo desta feita, depois de Bergman e Fellini, uma óbvia inspiração em Woody Allen –, ou através da conclusão a que chega, a certa altura, a atriz americana, ao perceber que o filme que Borg deseja fazer perde alma e sentido se for falado em inglês… Neste momento em específico, confesso, lembrei-me de outro filme de Trier que não vingou, em grande parte, e precisamente, por ser falado em inglês e francês: «Ensurdecedor», de 2015.

«Valor Sentimental», por sua vez, troca as voltas a qualquer esquematismo dramático, confiando numa simbiose silenciosa entre o tempo acumulado da casa, a tragédia sussurrante nas suas paredes, e a família que se encaminha para a reconciliação por intermédio da lente. O cinema cura? Todos sabemos a resposta.

TÍTULO ORIGINAL: Sentimental Value REALIZAÇÃO: Joachim Trier ELENCO: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning ORIGEM: Noruega, Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Reino Unido, Turquia DURAÇÃO: 133 min. ANO: 2025

Foto: Renate-Reinsve_Stellan-Skarsgård_Photo_Kasper-Tuxen-Andersen

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