«Duna» é uma incrível experiência cinematográfica, é a obra-prima de Denis Villeneuve, um sonho tornado realidade por um dos melhores cineastas contemporâneos. É um grandioso momento de cinema, um espectáculo visual e sonoro sem paralelo que deve ser visto e revisto num grande ecrã – o filme é assombroso em IMAX. O primeiro tomo de «Duna» merece inteiramente a ovação dos amantes do cinema que aguardam já ansiosamente pela sequela ou mesmo a trilogia.

Sumptuoso e único pela sua escala, «Duna» é ao mesmo tempo uma história intimista de descoberta da identidade que aborda temas intemporais como o amor, a fé e a esperança mas também a luta pelo poder, a ganância e o ódio, tudo sob o pano de fundo de uma contenda intergaláctica que opõe duas casas feudais.

Publicada em 1965 por Frank Herbet, Duna é considerada uma das obras mais influentes do século XX. A história desenrola-se maioritariamente em Arrakis, um impiedoso planeta desértico onde vivem os Fremen, um povo oprimido por forças invasoras, ameaçado pela sede de poder e despojado dos seus recursos naturais. Na sua génese, a obra de Frank Herbert é igualmente uma fábula ecológica sobre a exploração e o impacto do colonialismo, temas ainda relevantes no século XXI. O livro dizia-se inadaptável ao ecrã (a tentativa de David Lynch em 1984 era mais ou menos a prova disso), mas Villeneuve, Jon Spaihts e Eric Roth não tiveram medo e os resultados estão à vista.

Duna

Neste filme, o planeta Arrakis também se assume como um personagem vivo, com as suas tempestades de areia, os gigantes e reverenciados vermes de areia e o seu calor sufocante. O realizador e a equipa de produção mudaram-se de armas e bagagens para o deserto da Jordânia e do Abu Dhabi para transmitir esta beleza no filme. É visível a opção na busca de cenários vívidos e reais, a vastidão do deserto e do seu céu, tornando-se estes elementos fulcrais no convite ao espírito de introspeção desta obra.

A Casa Harkonnen, representada por figuras perversas, arrasa com a esperança do planeta explorando o recurso mais valioso da galáxia – uma substância capaz de desbloquear poderes sobrehumanos – e deseja esmagar uma família senhorial que os substitui como os suseranos de Arrakis. Os vilões deste filme são arrepiantes, Thufir Hawat (Stephen McKinley Henderson), Beast Rabban Harkonnen (Dave Bautista) e o barão Vladimir Harkonnen que provoca pesadelos pela sua frieza, vilania e presença em cena. É mesmo uma figura aterrorizante com um desempenho inspiradíssimo de Stellan Skarsgård.

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A substituição da dinâmica de poder em Arrakis abre um novo caminho de esperança para o planeta quando os Harkonnen são substituídos pela Casa Atreides, reconhecida pelo seu espirito guerreiro na terra e no mar. Mas o destino dos Deuses, como diria o Imperador da galáxia, reserva outros desígnios para o herói da nossa história. Timothée Chalamet interpreta Paul Atreides, o sucessor da sua casa feudal, que acompanha o pai (Oscar Isaac), a mãe (Rebecca Ferguson) e as suas forças militares ao planeta desértico. Paul e a sua família são o reverso da moeda da perversão dos Harkonnen. A expectativa de um destino diferente com o entendimento e o respeito pela identidade dos nativos e a sustentabilidade do planeta são notas dominantes da Casa Atreides. Paul vive assombrado pelas visões do planeta e de uma mulher (Zendaya), uma pronominação de amor e o seu destino interligado com o planeta Arrakis onde deverá enfrentar os seus próprios medos para abraçar o seu predestinado futuro. A mãe de Paul tem capacidades sobrehumanas e passou esse poderoso conhecimento ao filho que considera demasiado o peso de uma sina e as expectativas dos seus pais em relação a si. É uma bela interpretação de Rebecca Ferguson, a actriz sueca é também uma representação da sabedoria feminina na obra e nos destinos da galáxia.

Timothée Chalamet é o melhor actor da sua geração e não pára de crescer. A continuar com este fulguroso percurso estará no caminho para entrar no panteão das grandes figuras do cinema. É a sua primeira superprodução (é ingrato rotular «Duna» como um blockbuster, um termo quase pejorativo nos dias que correm), no passado participou em muitas produções de verve indie e penso que Dennis Villeneuve deu imensa margem de manobra para Timothée Chalamet demonstrar o seu talento. Este agarrou a oportunidade e deixou bem visível a sua marca nas areias de Arrakis – se ainda haviam algumas dúvidas sobre a qualidade deste jovem actor elas ficaram totalmente dissipadas.

O trabalho de preparação do realizador canadiano é bastante reconhecido, as sequências são processadas com minúcia e perícia dignas de um relojoeiro suíço. Os cenários de pré-visualização e arte-final permitiram imaginar e preparar rigorosamente cada plano deste filme. O resultado é evidente, Denis Villeneuve é um realizador visionário que trilhou nos ecrãs a sua própria linguagem. Em «Duna» os personagens nunca estão arredados da atmosfera invariavelmente espantosa em seu redor. O elenco é luxuoso e a equipa criativa é de primeira linha com nomeados e vencedores de Oscars nas diferentes categorias técnicas e artísticas, a maioria destes criadores são habituais colaboradores de Villeneuve. A destacar o trabalho de Jacqueline West e Robert Morgan, que assinam um figurino requintado, o director de fotografia Greig Fraser e o director de produção Patrice Vermette, que criaram os belíssimos cenários de planetas remotos.

A primeira parte de «Duna» aborda cerca de um terço do livro de Frank Herbert, são introduzidos os personagens e o conflito central mas a jornada de Paul Atreides está apenas a começar. No final de «Duna» estamos rendidos, o clima é de transe perante a beleza das imagens e a emoção da própria história. Tão cedo não o vamos esquecer. O filme tem desígnios operáticos devido à grandiosidade da imagem, ao gigantismo da história, à epopeia dos personagens e aos acordes monumentais de Hans Zimmer, mas é muito mais do que um filme – «Duna» é um acto de devoção à sétima arte.

Título original: Dune Realização: Denis Villeneuve Elenco: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Zendaya, Oscar Isaac, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Jason Momoa, Javier Bardem, Dave Bautista, Charlotte Rampling, Sharon Duncan-Brewster. Duração: 155 min. EUA/Canadá, 2021

https://youtu.be/9bCa74WE080
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