O maior rival de «Oppenheimer» na corrida pelo Óscar 2024, a se julgar pelas expectativas e apostas prévias, «Assassinos da Lua das Flores» estreou mundialmente no dia 19 de outubro com a promessa de se consagrar: a) como um sucesso de bilheteria; b) como um filme de culto; c) como um revisionismo histórico do western; e d) como mais uma obra-prima de Martin Scorsese.

«Assassinos da Lua das Flores» é uma superprodução de US$ 200 milhões que saiu do Festival de Cinema de Cannes, onde fez a sua estreia mundial, com o estatuto de obra-prima. Fala-se até no termo “epifania” para designar a adaptação ousadíssima de três horas e 26 minutos que o realizador de «Tudo Bons Rapazes» (1990) fez do livro de não-ficção “Killers of the Flower Moon: The Osage Murders and the Birth of the FBI” do jornalista americano David Grann. É um tratado histórico contra o racismo americano que tratou os povos originários do seu território como objeto de intolerância, entre os quais a população indígena Osage. É uma espécie de «Dança com os Lobos» malicioso, desencantado, que aposta na alteridade para fazer uma reflexão sociológica.

Dois parceiros de vida e de obra do realizador juntam-se em cena: Leonardo DiCaprio, com quem rodou «Gangues de Nova York» (2002), «O Aviador» (2004) e «O Lobo de Wall Street» (2013) e Robert De Niro, o seu amigo de juventude com quem iniciou uma recorrente parceria há 50 anos, com «Os Cavaleiros do Asfalto» (1973). A única Palma de Ouro de Marty (apelido hollywoodiano do cineasta) que teve De Niro como protagonista: «Taxi Driver», de 1976. E o único Óscar de Melhor Realização de Marty veio de uma longa com DiCaprio: «The Departed – Entre Inimigos» (2006). Agora, essa tendência pode mudar.

Vencedor do Oscar em 2023 pelo seu desempenho em «A Baleia», Brendan Fraser tem uma participação luminosa no terço final de «Assassinos da Lua das Flores». É rápido, mas ele brilha nesse projeto da AppleTV que terá lançamento comercial em salas exibidoras nas próximas semanas, em todo o mundo.

Pelo entusiasmo que o filme despertou em Cannes, já se falam em possíveis nomeações, para o realizador (que faz uma ponta como ator numa sequência que é um puro alumbramento), para De Niro, para a montagem de Thelma Schoonmaker e, sobretudo, para Lily Rose Mary Gladstone, atriz descendente dos indígenas Nimíipuu e Pikunis, hoje com 36 anos de vida e dez de carreira. Numa mistura de melancolia e resiliência, a personagem dela ilumina a trama fotografada por Rodrigo Prieto.

Proustiano, Scorsese busca um tempo perdido quando os Osage ficam ricos com a descoberta de combustível fóssil (o petróleo) nas suas terras, no início do século XX, logo após a I Guerra Mundial. Nos anos 1920, em Oklahoma, eles passam a ser manipulados por um senhor feudal fora de época, apelidado de “Rei”, o poderoso William Hale (De Niro, em magistral atuação). Necessitando de alguém de confiança para garantir que nenhum Osage passe das marcas, matando-os se for preciso, Hale oferece o emprego de motorista (e de faz-tudo) ao seu sobrinho, Ernest, interpretado por um Leonardo DiCaprio maduro, com ares de Burt Lancaster. Na interação com os indígenas que deve vigiar, eliminando alguns, Ernest casa-se com uma herdeira dessa população, Mollie, o papel de Gladstone. Mollie ficou rica, mas padece de diabetes, sem conseguir dar conta do mal-estar que sente. Padece também da dor perante as mortes dos seus conterrâneos. O amor de Ernest é um alívio para ela, mas será, mais adiante, um caos, ao perceber que o seu companheiro está ligado aos crimes de ódio. As confusões de Ernest acabam num tribunal, entre dois juristas: Fraser interpreta um, John Lithgow interpreta o outro. Mas ainda temos esse quid pro quo com a chegada de uma força de segurança recém-criada chamada FBI, representada pelo agente Tom White (Jesse Plemons)…

«Assassinos da Lua das Flores» é um filme de indignações e provocações.

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº99, Outubro 2023]

  • FILMES NOMEADO PARA 10 OSCARS

https://www.youtube.com/watch?v=aAyfnSM1A9w&t=10s

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