A história de «Taxi Driver» envolve já várias gerações de espectadores, desde os que o descobriram,
siderados, no seu lançamento, até os que o foram conhecendo através do DVD e formatos
alternativos. É uma história que se condensa num hiato de 35 anos, entre a estreia, a 8
de Fevereiro de 1976, e o dia 17 de Fevereiro de 2011, quando a sua esplendorosa cópia
restaurada foi estreada no Festival de Berlim.

A sessão da Berlinale, realizada no imponente Friedrichstadt-Palast (com os seus quase dois
mil lugares esgotados) deixou a certeza de que se tornou possível recuperar os grandes clássicos
rodados em película de 35 mm para cópias digitais (com 4K de definição), preservando toda a
riqueza das suas texturas cromáticas. O restauro, coordenado por Martin Scorsese e pelo director de
fotografia, Michael Chapman, devolve-nos a densidade visual e dramática de um filme cujo apelo
lendário o tempo consolidou.

«Taxi Driver» emergiu, afinal, como símbolo de um cinema que não abdicava de olhar, de forma crítica e apaixonada, para uma América que já não se podia reconhecer nas suas mitologias clássicas (que pertencem também ao seu cinema clássico). No olhar perturbado e perturbante de Travis Bickle
(Robert De Niro), Scorsese fazia ecoar a angústia de um tempo em que até mesmo a identidade da grande metrópole novaiorquina estava posta em causa.


Vale a pena recordar que 1976 foi também o ano em que o cinema americano ajustou contas com os fantasmas do caso Watergate («Os Homens do Presidente», Alan J. Pakula) e fez o premonitório inventário da degradação populista de algumas formas de televisão («Network», Sidney Lumet). Por tudo isso, rever «Taxi Driver» será também reencontrar a energia de um cinema de invulgar ousadia temática e artística.

[Texto originalmente publicado na Metropolis nº7, Março 2013]

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