Há 50 anos, Martin Scorsese oferecia-nos um olhar (too close for comfort) sobre a alienação e fragmentação do indivíduo, a solidão urbana e a masculinidade tóxica, perante a indiferença da sociedade. Troque-se o táxi por um TVDE e a solidão absoluta por um fórum da Internet, e «Taxi Driver» tornar-se-ia, nestes tempos que vivemos, mais atual do que nunca.
A história é amplamente conhecida e quase dispensa apresentações. Travis Bickle (Robert De Niro), uma das personagens mais memoráveis do cinema norte-americano, é um veterano da guerra do Vietname e taxista em Nova Iorque. Com insónias crónicas, percorre as ruas, madrugada após madrugada, cada vez mais fechado na convicção puritana de que a cidade precisa de ser limpa e purificada. O seu retrato completa-se em relação às duas personagens femininas do filme: Betsy (Cybill Shepherd), a mulher-anjo, idealização obsessiva que depois se torna “como todas as outras”, e Iris (Jodie Foster, numa interpretação irrepreensível), a criança presa num mundo de prostituição a que Bickle dedica um propósito e sentido de missão, numa autorrepresentação heroica.

Provocadora, pioneira e impactante, a obra-prima de Scorsese mais do que aguenta o teste do tempo. Sublima-se e ganha novo valor cultural, talvez. Por um lado, porque em Travis Bickle vemos toda a esteira de anti-heróis solitários que lhe sucederam, de Tyler Durden («Clube de Combate», 1999) a «Joker» (2019). Por outro, porque Bickle surge, à luz do enquadramento da atualidade, como uma espécie de protótipo psicológico do “incel”, antes da Internet e do discurso de grupo, em que o ressentimento solitário se transfigurou em ideologia partilhada.
Scorsese é mestre nos retratos crus e ambíguos, sem redenções nem julgamentos claros. Cabe ao público, qual juiz, olhar para os dados que lhe são apresentados e escolher a “sentença” a aplicar. A abordagem é recorrente na carreira de décadas do cineasta, mas a verdade é que «Taxi Driver» permanece como um dos seus expoentes máximos. A proeza deve-se a Bickle, personagem que nunca é explicada, nem redimida. Bickle surge como um produto fragmentado da guerra do Vietname, da grande cidade (estéril e implacável) e da solidão. É através da sua perspetiva claustrofóbica, da voz-off obsessiva e da sua rigidez moral que vemos o mundo de «Taxi Driver», as personagens e uma Nova Iorque suja, a néon, decadente, em movimentos de câmara lentos e planos desfocados.

Mais do que uma narrativa clássica, o filme é um estudo de personagem. Tudo existe para servir Bickle e para mostrar como é que esta personagem se constrói por dentro. Neste contexto, a interpretação de De Niro revela-se como essencial para elevar o guião e reforçar o desconforto do espetador, em cada gesto. De destacar, naturalmente, a cena do espelho e o famoso “You talkin’ to me?”, referência icónica na história do cinema norte-americano (a par do belíssimo plano picado quase divino, nos momentos finais do filme). Neste gesto de clara fragmentação psicológica, Bickle existe para si e tem no espelho uma tentativa possível de interlocutor, num ensaio de identidade. Encena a violência primeiro, antes de a efetivar na cidade, expondo uma performance masculina do “eu” à procura de validação e controlo.
Nesta revisita a «Taxi Driver», 50 anos após a sua estreia, talvez a verdadeira surpresa seja perceber como os temas explorados por Scorsese e o argumentista Paul Schrader encontram novos ecos hoje. Isso ocorre na alienação trazida pelos modelos digitais e com uma sociedade que continua a sobrepor heroísmo e violência. Continuaremos, claro, sem respostas claras dadas por Scorsese. «Taxi Driver» devolve-nos inquietações, pondo-nos em frente ao espelho do nosso próprio julgamento. Ou de olhos fixos no retrovisor…
Please, Rewind é uma rubrica de lembrança e (re)descoberta do cinema dos anos 70, 80 e 90, onde se revisitam filmes com impacto na história do cinema e na nostalgia pessoal de cada um de nós.

