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“Hamnet”: o romance sobre filho esquecido de Shakespeare e a ferida que deu origem à arte

Maggie O’Farrell, o luto, a pandemia e a estranha sensação de ler este romance no momento errado ou talvez no único momento possível.

A nova edição e com nova capa de Hamnet, de Maggie O’Farrell, chega com um atraso que me parece quase simbólico. O romance saiu em Março de 2020, exactamente quando o mundo fechava as portas, contava mortos em gráficos e aprendia, à força, uma nova gramática da perda. Em Portugal, chegou em 2021. Talvez porque não havia pressa de lançar um livro sobre a morte de um filho, por aqueles dias cinzentos de pandemia. Talvez porque alguns livros (e filmes) esperam por nós, não o contrário e acabam por chegar no momento certo às nossas mãos ou aos nossos olhos.

Durante séculos, Hamnet Shakespeare foi apenas isso: um nome. Uma nota de rodapé. Um dado biográfico sem narrativa. Sabíamos que provavelmente existiria — tal como dramaturgo, que muitos ilustres duvidam que tenha mesmo existido? — que morrera aos 11 anos, em 1596, e que o seu nome ecoava de forma quase indecente em Hamlet. E pouco mais. Tudo o resto foi sempre sobre o pai: William Shakespeare, génio absoluto, mito fundador, homem talvez inexistente, como gosta de lembrar o grande actor Mark Rylance e outros hereges shakespearianos, ao mesmo tempo grandes admiradores da obra do bardo.

O gesto radical de Hamnet não é imaginar Shakespeare como homem, isso a literatura (e o cinema também) já fez até à exaustão. O gesto radical é afastá-lo do centro do palco. É deixá-lo em Londres, a escrever, a dirigir, a fugir. E ficar em Stratford-upon-Avon, na casa. Com a sua mulher. Com os seus filhos. Com o silêncio que cresce, entre o casal.

Nesse sentido, Hamnet não é um romance sobre Shakespeare. É um romance contra a tradição biográfica que sempre tratou a família como rodapé do génio. O verdadeiro centro do livro chama-se Agnes (em vez de Anne Hathaway, não a actriz norte-americana, mas o nome da suposta mulher de Shakespeare na História.

Porém no romance, Agnes não é apenas “a mulher de Shakespeare”. É uma personagem inteira. Intuitiva, ligada à terra, às plantas, às curas, às feridas que não aparecem nos livros de História. Vive num tempo em que ser mulher inteligente era perigoso e em que cuidar dos outros era uma forma silenciosa de resistência. Maggie O’Farrell chama-lhe Agnes — e não Anne Hathaway , como já disse — porque lhe devolve aquilo que a tradição lhe roubou: identidade.

A estrutura do romance acompanha essa lógica. Não há linha recta. Há memória. Há avanços, recuos, imagens soltas, sensações, fragmentos. Lê-se como se a própria narrativa estivesse a tentar contornar a dor, sem nunca conseguir evitá-la. Sabemos desde o início que Hamnet vai morrer. E, ainda assim, quando acontece, dói. Dói porque O’Farrell nos obriga a conhecê-lo vivo, criança. Curioso. Presente. Frágil.

A doença não entra em cena com dramatismo exagerado. Insinua-se. Espalha-se. Instala-se. A peste surge como um inimigo invisível, sem rosto, sem moral, sem negociação. E o luto que se segue não é exemplar nem redentor. Não há frases feitas. Não há superação cinematográfica. Há um depois impossível.

O livro pergunta — sem nunca responder de forma fácil — como se continua depois da morte de um filho. Como se respira. Como se habita uma casa cheia de fantasmas. Agnes recolhe-se, fragmenta-se, procura sinais. Shakespeare foge. Trabalha. Escreve. Vai para Londres. A arte surge não como cura, mas como deslocamento da dor. Como tentativa de sobrevivência.

É aqui que Hamnet atinge o seu ponto mais perturbador: ao sugerir ou melhor insinuar que a peça Hamlet não nasce de um momento de génio abstracto, mas de uma ferida aberta. Que a obra-prima é, talvez, um subproduto do sofrimento. Não uma explicação. Não uma redenção. Uma transmutação.

O estilo de O’Farrell acompanha essa honestidade. O lirismo existe, mas é contido. A natureza não é decorativa: é linguagem. Árvores, rios, vento, cheiros, temperaturas, tudo participa no estado emocional das personagens. Lê-se com o corpo. Com os sentidos. Com um desconforto físico que não é comum na ficção histórica.

No fim, Hamnet é um romance sobre aquilo que sobra quando desmontamos os génios: pessoas comuns a tentar sobreviver à dor e ao desgosto. É um livro sobre maternidade, amor, ausência e memória. Sobre quem fica de fora dos livros de História e sobre como a literatura, às vezes, consegue corrigir essa injustiça.

Maggie O’Farrell não ressuscitou Hamnet. Fez melhor: impede-o de ser esquecido. E lembra-nos que, por trás de quase todas as obras imortais, há uma ferida que nunca cicatrizou.

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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