João Rosas estreia-se nas longas-metragens de ficção com «A Vida Luminosa», que já passou pelo IndieLisboa e chega agora às salas de cinema. Aclamado pela crítica, a longa é um filme que vale por si só, mas que ganha contexto e conforto com as curtas anteriores – «Entrecampos», «Maria do Mar» e «Catavento» – através das quais assistimos ao crescimento e desenvolvimento de Nicolau (Francisco Melo) e ao desenrolar das suas escolhas enquanto constrói e define a sua identidade. Nesta conversa com a revista Metropolis, João Rosas fala sobre este caminho feito a par e passo com uma Lisboa que conhecemos em 2012, sobre o valor da literatura e da música na relação com o cinema e sobretudo sobre a vida. Sara Afonso

Quem vê “A Vida Luminosa”, tem acesso a um filme completo que vale por si só, um filme sobre a formação de identidade de um jovem chamado Nicolau (Francisco Melo), que ainda está à procura do seu lugar nesta vida. Mas observando as curtas-metragens anteriores de João Rosas – «Entrecampos» (2012), «Maria do Mar» (2015) e «Catavento» (2020) – vai perceber que o Nicolau e a sua grande amiga Mariana (Francisca Alarcão) são já “caras conhecidas” de todas elas. 

Posto isto, «A Vida Luminosa» nasce do desejo de continuar a trabalhar com Francisco Melo e Francisca Alarcão, explica o realizador, sublinhando, no entanto, que o filme não foi planeado desde o início como parte de uma trilogia ou sequência. “Cada filme surgiu naturalmente, muito por vontade de continuar a colaborar com eles e por estar ligado a fases de transição — tanto deles como minhas — e aos dilemas próprios dessas fases”, adianta o também argumentista e editor.

Assim, e naquela que é a estreia de João Rosas na longa-metragem de ficção, o novo capítulo da história de Nicolau foca-se agora no momento da vida em que os jovens começam a construir a sua própria identidade. “Deixamos de ser apenas filhos ou alunos e começamos a trilhar o nosso próprio caminho. Essa fase é marcada por uma nova geografia afectiva, novas relações, novas decisões. Era isso que eu queria explorar”, afirma o cineasta.

A abordagem, como gosta de evidenciar, é leve, com humor e uma certa melancolia. “O desafio foi: como é que se fala disto tudo numa hora e meia e mantendo um tom de comédia urbana, existencial, ligeiramente melancólica?”

Na verdade, a identidade de Nicolau constrói-se também na relação com os outros – com os amores, os encontros e desencontros, com o meio que o rodeia. E para quem tem acompanhado as curtas anteriores, esse percurso é visível.

Olá, Lisboa

Além da questão da identidade, existe um olhar atento à cidade, a Lisboa, que vai mudando à medida que os filmes também evoluem. “Os filmes são, para mim, também uma forma de perceber como é que a cidade se tem transformado, e como é que isso afeta quem nela vive, especialmente os mais jovens. Não queria cair na armadilha de um homem de 40 anos a filmar jovens de 20 como se estivesse de fora — tentei sempre estar próximo, compreender, ouvir.”

O casting foi feito precisamente com base nessa escuta. Mais do que fazer testes formais, o realizador procurou conhecer a fundo os jovens que poderiam vir a integrar o filme. “Perguntava-lhes como viviam a cidade, se estavam numa relação, se partilhavam casa, se saíam à noite, ou o que faziam no dia-a-dia. Isso ajudava-me a reescrever personagens de forma mais real, mais orgânica.”

Lisboa, por sua vez, é mais do que um cenário; é quase uma personagem. Cada lugar do filme – desde o cemitério, à Cinemateca, passando pela pizzaria, ou Carnide – está ligado à memória da cidade e à vivência quotidiana do próprio realizador. “São lugares que fazem parte da minha relação com a cidade ao longo dos anos e o cinema é uma forma de trabalhar a dimensão poética dessa relação. Nesse sentido, este filme – e todos os meus filmes – é uma espécie de cartografia sentimental e emotiva (ou afectiva) da cidade, um mapa desenhado a partir do encontro entre a minha cidade e a cidade das pessoas que interpretam o filme. A cidade-personagem acaba por ser uma cidade em comum construída pelo cinema.”

A própria rodagem na cidade é um desafio logístico e emocional. “Claro que há uma estrutura de produção que ajuda, mas para mim é sempre um prazer poder voltar a lugares onde cresci”, confessa João Rosas. Para o público, esta é certamente uma viagem no tempo, a uma Lisboa que já não existe e que foi mudando com a transformação e aceleração dos tempos.

Casting de sempre… e para sempre?

A relação com Francisco Melo, o protagonista que acompanha desde criança, surgiu na curta «Entrecampos» e nada foi planeado: “Conheci-o no casting — na altura ainda feito via Facebook, pedindo aos pais que enviassem vídeos. Ele não era uma criança prodígio, daquelas que tocam piano ou fazem anúncios. Era especial na sua humanidade, doce e muito dado. E com a Francisca também se criou uma amizade profunda. Os filmes que vieram depois nasceram dessa amizade.” Essa naturalidade na amizade das duas personagens é, aliás, um dos pontos fortes dos filmes de João Rosas.

Sobre a personagem Francisco – interpretado por Francisco Melo – não fecha portas quanto a futuros trabalhos, mas também não garante uma continuidade imposta. “Tenho ideias para outras personagens e vontade de sair um bocadinho deste universo, embora cada vez que estou com o Francisco me apeteça continuar a trabalhar com ele.” O processo criativo, conta, nasce frequentemente do que o próprio Francisco lhe vai dizendo: “É através do que é a vida dele hoje em dia, das coisas que ele me conta, que vou criando ideias”.

Cinema e literatura

Apesar de o cinema ocupar hoje um espaço determinante no seu percurso, é à literatura que João Rosas confere o lugar mais íntimo e estruturante. “A literatura tem um lugar central na minha vida, como leitor”, confessa, revelando que começou a escrever ainda jovem, mais como “um gesto muito inocente, até, de um adolescente a tentar perceber o mundo”.

Embora tenha tentado manter um diário, admite que nunca conseguiu levá-lo adiante, mas foi nesse impulso de observar e compreender – sobretudo o mundo dos adultos – que se formou o seu olhar artístico. “Foi uma coisa que sempre me interessou: observar o mundo dos adultos, quando era mais novo, e como é que uma criança vê, de facto, este mundo que não percebe bem.”

O cinema foi uma continuação natural dessa busca. “Acabou por ser uma extensão dessa tentativa de perceber o mundo, mas com uma grande vantagem: permite-me relacionar-me com o outro e conhecer aquilo que não conheço, entrar em diálogo.” Um diálogo que a literatura, embora fundamental, nunca lhe proporcionou da mesma forma.

A escrita para cinema, contudo, continua profundamente marcada por esse amor às palavras. “Interessa-me muito o trabalho com a palavra e, na fase da escrita, a mistura de registos – seja um registo mais literário, seja mais oral – e como é que a minha escrita entra em diálogo com a oralidade dos outros.” Para João Rosas, essa música entre escrita e voz dos atores é o ponto de partida da reescrita e afinação de cada argumento, contando com o contributo dos mesmos e das suas experiências.

“Quero que a literatura esteja presente no filme, mas não de forma forçada”, sublinha. As referências que existem – sejam elas cinéfilas, pessoais ou culturais – surgem organicamente. “Não são impostas ao espectador. Quem as perceber, muito bem. Quem não, também pode perfeitamente perceber o filme sem elas.”

O estado da cultura

Num contexto mais institucional, a relação com o cinema português é positiva, apesar de tudo. “Nos últimos anos tenho tido a sorte de conseguir viver só de cinema. Nesse sentido, o cinema português tem-me tratado bem.” No entanto, reconhece o contexto difícil: “Sabemos que é um meio com uma grande precariedade e subfinanciamento, como muitas áreas em Portugal.”

Recusa, ainda assim, generalizações simplistas. “Confesso que não penso muito em termos de ‘cinema português’. Apesar de tudo, é um cinema com grande riqueza e variedade de vozes e olhares. E que tem conseguido, para a sua escala, uma projeção significativa.”

Mais crítico mostra quanto ao momento político atual. “Acho que estamos num momento muito perigoso, com este novo governo, mas que já vinha do anterior. Há cortes significativos no peso do Estado na cultura.” E não hesita em apontar a ausência de uma visão sólida para o setor. “Fala-se do cinema como produto económico e para veicular mensagens turísticas. Isso não é o cinema em que me insiro.”

Sobre «A Vida Luminosa», evita definir o filme segundo categorias rígidas. “As pessoas dizem que não parece um filme português, embora eu goste de filmes portugueses. É uma coisa que me ultrapassa. Eu já tive bastante trabalho a fazê-lo.” Nesse sentido, prefere que o filme fale por si e, sobretudo, que o público o receba de forma livre: “Acho que é um filme honesto, e isso é o máximo que posso oferecer”, complementa.

Mais do que exibir mestria formal, o seu objetivo é outro: “Trabalho na direção da simplicidade. Para mim, o que importa é que as pessoas possam desfrutar da narrativa sem pensar no realizador ou no trabalho todo que está por trás.” Em oposição ao cinema “com respostas” ou que ensina o espectador a ler o filme, João Rosas propõe algo mais aberto: “É muito mais um processo de questionamento do que de resposta.”

A música, como a literatura, ocupa um lugar essencial nestes seus trabalhos. “Também toco e gosto muito de música. Tal como a literatura e o cinema, esta arte tem um papel central na minha vida.” Em «A Vida Luminosa», esse elemento surge de forma genuína: a banda que aparece no filme existe mesmo, e nasceu da relação com Francisco. “A música é deles, ou do Francisco. Não fui eu que a criei.”

O filme, que estreia com um concerto da banda “Quase Nicolau”, é, como ele próprio descreve, uma “comédia melancólica, existencial… e musical”. Sem ser um musical, é um filme “com muita música” – e com um olhar delicado sobre a identidade, a passagem do tempo e o lugar que cada um ocupa.

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