Na hora em que as quatro nomeações ao Oscar de «O Agente Secreto» foram anunciadas, na manhã deste 22 de janeiro, o correspondente carioca da METROPOLIS já havia assistido ao thriller pernambucano ambientado no Recife de 1977 em dezenove (isso mesmo, 19!) ocasiões diferentes. Cannes foi a primeira, no embalo de uma performance de ritmo frenético nos arredores e na escadaria do Palais des Festivals da Croisette. Há cerca de onze meses, o Brasil foi oscarizado, depois de oito décadas de espera, com «Ainda Estou Aqui», de Walter Salles. Pode repetir a dose. Deve. O respeito de que o concorrente da vez, realizado por Kleber Mendonça Filho [KMF], desfruta é imenso. Ele vem da crítica e, em dezembro, ganhou a capa da “Cahiers du Cinéma”.
Não é por acaso que, esta noite, no Cineclube das Casas Casadas, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, uma série de curtas-metragens pilotados pelo mesmo realizador de «O Agente Secreto» vai ser projetada e debatida, sob o olhar do crítico convidado Carlos Alberto Mattos. «Vinil Verde» (2004), «Eletrodoméstica» (2005) e «Recife Frio» (2009) integram a seleção a ser exibida a partir das 18h (21h no horário lisboeta). Cada expressão em pílula da obra de Kleber serve como uma peça do quebra-cabeça que compõe sua nova e mais eletrizante longa-metragem.
Artista visual nascido em Pernambuco, ele militou na reportagem especializada por 13 anos, entre as décadas de 1990 e 2000, pautado por uma prosa irónica, sempre cinéfila. A cinefilia desenha o diálogo de cada uma das curtas supracitadas com géneros dramatúrgicos, da crónica social em painel à la Robert Altman ao documentário falso (mockumentary) com ares de “filme-catástrofe”. Há em todas a tal ironia de sua escrita de resenhista e há obsessões temáticas recorrentes: o abandono de espaços urbanos à sombra da gentrificação; falhas de comunicabilidade no eixo familiar; e intolerâncias de classes, muitas vezes algemadas ao racismo. A soma desses assuntos pavimenta o trabalho atual que deu a KMF o troféu de Melhor Direção em Cannes, onde ganhou o Prémio da Crítica também, além de uma láurea da Associação Exibidora de Filmes de Arte e Ensaio, candidatando-se, no ato, a uma consagração planetária — merecida. É um trabalho de invenção pura, que lhe rendeu o Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa. Wagner levou um Globo para casa também, numa composição cheia de ginga.

Neste Oscar no qual Wagner e Kleber disparam, «Sinners» («Pecadores») é o título com mais indicações, 16, seguido pelo seminal «One Battle After Another», de Paul Thomas Anderson, com 13. As quatro indicações do Brasil, feito raro para o país e para toda a América Latina, precedidas antes por «O Beijo da Mulher Aranha» (1985) e «Cidade de Deus» (2002), indicam o quanto a Academia de Hollywood busca se reoxigenar pelas vias do intercâmbio cultural. O diretor de fotografia paulista Adolpho Veloso também foi indicado, por «Train Dreams», da Netflix.
Com uma bilheteria global nas raias dos US$ 6 milhões, «O Agente Secreto» vendeu 1,5 milhão de ingressos no Brasil, o que leva sua produtora, a francesa Emilie Lesclaux (companheira de Kleber na vida e na obra, mãe de dois meninos frutos de sua união com ele), a festejar, num depoimento à METROPOLIS.
Há ainda, em «O Agente Secreto», uma pontuação gradual dos traços classistas que ele já denunciava nas suas curtas. Na maneira como um empresário de caráter microcoscópico, o assustador dono de uma firma de engenharia Henrique César Ghirotti (Luciano Chirolli), trata os assassinos de aluguel Bobbi (Gabriel Leone) e Augusto (Roney Vilela, sublime em cena). O já assinalado interesse do realizador por um Recife que descasca e desbota diante do descuido do governo com a arquitetura local — e com o povo que nela habita — é perceptível na andança de Marcelo (nome inicial do personagem de Wagner) no centro da cidade. Além disso, é notável sua incursão num carnaval que ferve a frevo, no Brasil de 1977. E o Brasil do general Ernesto Geisel (1907-1996).

Não se fala nele, nem se menciona explicitamente a palavra “ditadura”. Mas o retrato do militar está nas paredes por onde Marcelo (aka Armando) desfila com esse nome fingido, com identidade falsa, disfarçando-se para se “proteger do Brasil”. Isso explica a operativa de uma célula de resistência vivida por uma Maria Fernanda Cândido em mood Monica Vitti. Sua fala expõe as chagas do regime vigente, então. Regime de farda verde-oliva que fabricava desaparecimentos para se livrar de seus desafetos. Ghitotti, um vilão com V maiúsculo, é um estigma daqueles tempos.
A sua ruindade trafega por uma estrada que raras produções de lastro sociopolítico das Américas adentram e elege um vilão, daquele tipo nefasto… feito pica-pau…, que só Hollywood sabe criar, vide tipos vividos por Henry Silva, Michael Ironside, Gene Hackman. Coube a Chirolli dar corpo, voz e alma a um vilão da alta classe empresarial brasileira. Para Ghirotti, “um banho de indústria” faz bem. Ele não se alinha às figuras violentas do audiovisual latino, cuja crueldade é reflexo do desajuste social e do desemparo do Estado, como o Zé Pequeno de «Cidade de Deus» (2002). Bebe é da vilania clássica, aquela que se explica pela cobiça desmedida e pela impunidade nas leis. Odete Roitman costumava ser o arquétipo máximo desse padrão no imaginário das telenovelas brasileiras, mas perto de Ghirotti, a ricaça vivida por Beatriz Segall (em 1988) e Débora Bloch (no ano passado) mal saiu do estágio da má índole.
Ghirotti não está sozinho na genealogia cinéfila a que pertence, na geografia simbólica do Brasil. Em nossas telonas, tivemos vilões de dar medo antes, mas quase sempre nas chanchadas, imortalizados por José Lewgoy (1920-2003). Contudo, nem o pistoleiro Jesse Gordon, racha-cuca vivido por Lewgoy em “Matar ou Correr” (1954), ruim como ele só, era capaz de prejudicar o seu país como Henrique Ghirotti, antagonista do professor e pesquisador vivido por Wagner, sob a batuta de Kleber.

Crocante ao longo de toda a extensão de seus 158 minutos, «O Agente Secreto» encaixa Ghirotti como um mal institucional. Ele revive o jugo ditatorial que oprimiu sua nação a partir de 1964 (até 1985, com espasmos de retomada após o Golpe de 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro) sob a ótica da paranoia decorrente do controle da nação pelas Forças Armadas. Existe um timbre paranoico por trás de cada sequência, numa operação de imprimir tons persecutórios num âmbito sinestésico.
Ao operar nessa toada, «O Agente Secreto» se soma ao precioso «Ainda Estou Aqui», de Walter Salles, já citado. Ele aplaca uma carência histórica do cinema brasileiro em relação a filmes de ficção que narrem as brutalidades estatais cometidas nos 21 anos em que oficiais militares tomaram o governo e suspenderam a democracia. Os argentinos viveram situação similar, igualmente sangrenta, e a exorcizaram, no cinema, com «A História Oficial», de 1985, e «Argentina, 1985», de 2022, com direito a outros sucessos no caminho. O Brasil reagiu cinematograficamente ao avanço dos comandantes fardados no ato do golpe com «O Desafio» (1965), de Paulo Cézar Saraceni (1933-2012). Uma nova reação de peso brotaria das telas em 1982, com direito a uma indicação ao Urso de Ouro de Berlim e 1,3 milhão de ingressos vendidos em circuito: «Pra Frente, Brasil», de Roberto Farias (1932-2018). Cerca de 15 anos depois, Bruno Barreto tomou as telas de assalto com «O Que É Isso, Companheiro?», que também concorreu na Berlinale, falando do sequestro do embaixador americano (vivido por Alan Arkin) como rechaço à governança militar. Fora isso, desde a década de 1980, a realizadora Lucia Murat fez dos Anos de Chumbo o assunto de seus dramas, incluindo «Quase 2 Irmãos» (2005) e o recente «O Mensageiro» (2023), e o já citado (e elogiado) Wagner Moura arriscou-se (muito bem) na realização, relembrando o período em «Marighella» (2019).

No documentário «Cabra Marcada Para Morrer», de Eduardo Coutinho (1933-2014), que é um farol para KMF, e na obra de Silvio Da-Rin («Hércules 56»), ambos expuseram a violência da ditadura em um dos maiores territórios da América do Sul. Apesar desse sortimento, faltava uma catarse… sobretudo de retumbância popular, que fosse capaz de reverberar pelo mundo.
Walter goleou essa nossa angústia. KMF vem agora arrematar a partida, num sinal de que o risco de agentes militares se arvorarem a tomar o Brasil de novo pode sempre rondar os ares da pátria, sobretudo num conluio com o operariado. O projeto «Dark Horse», com Jim Caviezel como Jair Bolsonaro, virou lenda urbana (e potencial estreia) por culpa desse conluio.

Meticuloso, Kleber recria nosso pretérito imperfeito em forma de um espetáculo cheio de alusões ao cinemão político americano dos anos 1970. Tanto que o miolo de «O Agente Secreto» é recheado com tomadas de perseguição que evocam a caça de Gene Jackman a Fernando Rey em «The French Connection» (1971). Evoca-se «Três Dias do Condor» (1975) no uso de um arquivo como cenário… e como espaço de uma correria contagiante. Nela, um pistoleiro de empreitada imbuído de mágoas inerentes à exclusão, Vilmar (Kayone Venâncio), rouba a cena… e o nosso pulso.
Tais referências temperam o filme de KMF, mas a sua brasilidade é a especiaria central, assegurada pela atuação em estado de graça de Wagner, que ganhou o Prémio de Melhor Ator em Cannes por sua maneira de alquebrar-se, remontar-se e “desmorrer”. Ele se articula com a cinefilia, em diferentes pontos, ao dialogar com a memória do «Jaws» (1975), de Spielberg, cujo regresso aos cinemas do Recife de 1977 se articula com a descoberta de uma perna de gente no ventre de um tubarão. Esse membro devorado desperta uma camada fabular num enredo que trafega pela arte de rememorar a fim de flagrar o uso político do “esquecimento”.
Que filme notável!
Fotos: Crédito Cinemascópio

