Passava da 0h de segunda-feira, 12 de janeiro, quando o cinema brasileiro cravou um par de vitórias históricas na festa anual da Golden Globe Foundation: “O Agente Secreto” foi eleito Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator de Drama, numa coroação dupla de Kleber Mendonça Filho e de Wagner Moura. Um crítico de cinema que virou realizador e um ator de origem baiana, nascido na cidade de Rodelas. Esse último, ao vencer, gritou: “Viva a cultura brasileira!”. Sim… pelo menos nos écrans do mundo, ela parece mais viva do que nunca, um ano após a consagração da carioca Fernanda Torres por “Ainda Estou Aqui”, no mesmo evento.
Sou carioca do Complexo do Alemão, nascido no Morro do Adeus, no bairro de Bonsucesso, em uma época em que o cinema nacional se apoiava em Hector Babenco (1946-2016) como a maior esperança de sua indústria para conquistar o circuito planetário e, a partir dele, os prémios, com “Pixote, A Lei Do Mais Fraco” (1980) e “O Beijo Da Mulher Aranha” (1985). Ou seja, sonho mais brasileiro do que esse, impossível. Embora Babenco tenha sido formado por um cineasta argentino de Mar Del Plata, que se naturalizou paulistano, ele também foi criado por imigrantes, sendo sua mãe de Viseu e seu pai do Armamar, pertinho de Lamego. As estrangeirices em minhas veias (até as ópticas) se fizeram retorcer e aplaudir diante da sessão de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, na Croisette, em maio de 2025.
É, sim, um filme do Brasil, que abre com um cartaz de Os Trapalhões, do fim dos anos 1970, mas presta homenagem recorrente ao “Tubarão” (“Jaws”), de Steven Spielberg, além de louvar a produção audiovisual da Nova Hollywood e mimetizar o seu melhor. É árduo não pensar em “The French Connection” (1971) e nas correrias de Popeye Doyle (Gene Hackman) diante das fugas do personagem de Wagner Moura.
Quando Babenco serenou, há dez anos, Kleber postou: “Morre um realizador de Cinema, alguém que fazia filmes pensando na telona”. Não por acaso, um cartaz de “Lucio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977), fenómeno de bilheteria de HB, aparece na trama protagonizada por Wagner.
Ambientado em 1977, em plena ditadura militar, no governo Geisel, “O Agente Secreto” traz Wagner Moura no papel de um cientista, responsável por um laboratório numa universidade pública de Pernambuco, que pesquisa energia. Ao desagradar um representante da indústria com ligações com uma empresa de energia, ele passa a ser perseguido, sob a ameaça de morte. Chega ao ponto de se abrigar numa pensão que é definida como um lar para refugiados. Mesmo nessa condição, ele almeja sair do país com seu filho pequeno, ajudado pelo sogro projecionista (Carlos Franscisco) e por uma célula de resistência ao Poder instaurado, que tem a misteriosa Elsa (Maria Fernanda Cândido) como operativa. Ganhou quatro láureas em Cannes e se candidata a contabilizar mais. Êxito de bilheteira em Portugal e na França, a longa já soma 1,1 milhão de pagantes em sua terra natal. Há de aumentar sua plateia.
VITÓRIAS DA CERIMÓNIA
DRAMA
Melhor Filme: “Hamnet”
Melhor Atriz: Jessie Buckley (“Hamnet”)
Melhor Ator: Wagner Moura (“O Agente Secreto”
COMÉDIA/MUSICAL
Melhor Filme: “Batalha Atrás de Batalha”
Melhor Atriz: Rose Byrne (“Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé”)
Melhor Ator: Timothée Chalamet (“Marty Supreme”)
Conquista Cinematográfica e Bilheteria: “Pecadores”
Série de Drama: “The Pitt”
Série de Comédia: “O Estúdio”
Direção de longa-metragem: Paul Thomas Anderson (“Batalha Atrás de Batalha”)
Atriz Coadjuvante: Teyona Taylor (“Batalha Atrás de Batalha”)
Ator Coadjuvante: Stellan Skarsgård (“Valor Sentimental”)
Roteiro: Paul Thomas Anderson (“Batalha Atrás de Batalha”)
Animação: “Guerreiras do K-Pop”
Filme de Língua Não Inglesa: “O Agente Secreto”
Trilha sonora: Ludwig Göransson (“Pecadores”)
Canção Original: “Golden” (“Guerreiras do K-Pop”)

