Marty Mauser, a figura interpretada por Timothée Chalamet no filme «Marty Supreme», 2025, de Josh Safdie (rara incursão a solo sem o irmão, Benny Safdie), apresenta-se desde cedo como um rapaz disposto a virar o mundo do avesso para atingir o seu sonho número um, ser o maior praticante de ping pong, ou melhor, de Ténis de Mesa (alguma dignidade, por favor) e não só ser um virtuoso desse inebriante desporto como o campeão dos EUA e, já agora, do mundo. Na verdade, não o diz, mas no seu melhor estilo de picareta falante, que o leva a verbalizar as ideias antes mesmo de pensar, Marty Mauser sabe que para conquistar essa posição invejável no meio em que circula, precisa de vender a alma ao diabo. Ele faz o que lhe compete fazer nomeadamente aceitar ganhar uns dólares como vendedor de sapatos numa sapataria de segunda, provavelmente em Brooklyn (o filme não deixa de ser uma representação viva da comunidade judaica americana no início dos anos cinquenta), onde com a sua lata e lábia se sente capaz, como ele próprio o dirá, de vender um par de sapatos a um amputado.
Em suma, quer o argumento, quer a realização, quer o produtor Timothée Chalamet, deixam logo a abrir a impressão de que não vão seguir em frente para um filme só de desporto mas sim, felizmente, para um filme sobre personalidades no fio da navalha que encaram uma modalidade desportiva relativamente acessível aos mais pobres (uma bola, uma raqueta, uma mesa num qualquer bas-fonds , mesmo que a nível profissional as coisas não sejam bem assim) como a rampa de lançamento para outras vidas, outras oportunidades de sair por cima e subir na escada social.

De facto, quando o filme arranca estamos em 1952, e Marty Mauser já era uma figura com nome firmado no Ténis de Mesa. Há mesmo uma bola com o seu nome, a dita Marty Supreme. Sabemos que ele não foi um autodidacta, antes pelo contrário, beneficiou da associação étnica e da amizade com um judeu húngaro sobrevivente do campo de concentração nazi de Auschwitz-Birkenau, Béla Kletzki (Géza Röhrig), personagem fictícia mas baseada no lendário jogador e campeão polaco Alojzy “Alex” Ehrlich. Por seu lado, a personagem Marty Mauser foi livremente inspirada na vida do campeão, empresário e promotor de espectáculos de ping pong Marty Reisman (1930–2012). Não era uma pessoa que motivasse consensos, e Josh Safdie (com o seu co-argumentista Ronald Bronstein) aproveitou seguramente o seu lado mais controverso para imprimir ao seu Marty um modo de ser e estar, não o supreme, superior, que se confunde com marca, ou até com mera alcunha, mas sim o Mauser que soa a mouse, rato, a designação pejorativa que os nazis davam aos judeus.
No seu constante frenesim, Timothée Chalamet dá boa conta do recado ao interpretar alguém que pode num momento ser complacente com as desgraças alheias como logo a seguir mandar uma boca foleira para o ar, como aquela de dizer que vai acabar com o seu rival japonês lançando-lhe para cima outra bomba atómica (recordem-se que os ecos da Segunda Guerra Mundial e da brutal decisão dos EUA em relação a Hiroshima e Nagasaki ainda pairavam na cabeça de muita gente, para o melhor e para o pior). De certa maneira, os amores proibidos com uma amiga de infância que resultam em sexo adúltero praticado nos bastidores da sapataria nas horas de expediente não são o único pecado do nevrótico e ambicioso rapaz. Realizar dinheiro constituía, aliás, a sua principal preocupação, e para o conseguir não hesita em usar um revólver contra um colega para arrecadar uma quantia que alegadamente lhe pertencia. E porquê? Porque assim poderia estar presente no grande Torneio de Ténis de Mesa que se realizava em Londres, e era impensável que não reunisse o valor necessário para a viagem.

Mas, uma vez chegado ao Reino Unido, o fura-vidas não se contenta com o pouco a que estava habituado em casa e com inegável arrogância insiste para lhe darem um quarto no Ritz e recusa a cama de um dormitório que considerava indigno, mas onde muitos outros participantes tinham sido instalados. E, como se costuma dizer, a sorte protege os audazes e lá consegue o improvável upgrade hoteleiro. Dali em diante a vertigem de impor a sua vontade contra as regras instaladas, a sensação de possuir a chave da engrenagem do sucesso, molda os seus passos, e pelo meio de miríficas propostas não hesita em seduzir uma estrela de cinema, diga-se, em crise existencial e a necessitar de um urgente comeback, a loura e bem mal-casada Kay Stone (Gwyneth Paltrow). Não obstante, será em Londres e no mítico espaço de Wimbledon que se vai jogar o sim ou o não do futuro radioso que ambicionara. Na exuberância e rapidez quase acrobática das partidas encontra a chave que lhe pode abrir as portas do céu. E, no entanto, perde…! Toca na luz da possível vitória e queima-se como o insecto que pela chama se vê atraído sem saber que a ilusão gerada pela incandescência será o seu fim.
Do ponto de vista estrutural, o percurso de Marty Mauser, no projecto cinematográfico «Marty Supreme», sofre então uma guinada. No regresso a Nova Iorque, as novas linhas de força do filme serão fragmentadas e repartidas entre a sombra da derrota frente ao até ali desconhecido japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi) e as mil e uma curvas que vai dar para se manter activo num outro jogo, uma nova competição que já não controla com a mesma destreza e habilidade natural de outras eras, uma perigosa e arriscada aposta consigo mesmo que engloba o destino de muitos dos que o rodeiam, incluindo a sua cada vez mais cúmplice amiga e confidente de boas e más notícias, a namorada, agora grávida, Rachel (Odessa A’zion). Será neste miolo narrativo que se irão produzir a uma velocidade de screwball drama (não consigo encontrar a pura comédia na descida aos abismos de Marty Mauser) uma série de encontros e desencontros, qualquer deles carente de alguma racionalidade emocional.

Neste contexto, há muito por onde escolher no campo das participações especiais, e para aqueles que gostam de descobrir variantes de cameos enquanto personagens relativamente inesperadas, destaca-se a presença do cineasta Abel Ferrara no papel de um gangster de vão de escada. Entretanto, no global, o que nos será dado a ver e a ouvir (mesmo com a pesada e omnipresente banda sonora musical) são explosões de energia embrulhadas num género que podíamos designar por “que mais irá acontecer?” Mesmo que ambicionássemos por uma pausa redentora, a realização nunca nos faz a vontade e no meio de mil e um casos e casinhos nunca mais largaremos de vista o nosso “herói”. A duzentas rotações por minuto acompanhamo-lo até ao desfecho que ele de algum modo mereceu a partir do momento em que, no meio da confusão e de uma ou outra sequência difícil de engolir, passou a fazer parte da nossa família, mesmo contra a perspectiva de o voltar a ver na mó de cima para que não fosse obrigado a servir de palhaço num circo pseudo-desportivo para onde o vão atirar e confinar com intuitos plutocratas, ou seja, a venda de canetas através de desvairados e forjados campeonatos de ping pong… ainda por cima fora do espaço natural e urbano que conhecia como as palmas da mão, ou seja, lá longe, no Japão! Mas será isso que acontece e, frente a frente para os devidos efeitos, estarão de novo Marty e Kato, os finalistas de Wimbledon. Tudo organizado ao melhor/pior estilo de show de feira por um capitalista e empresário americano que força literalmente, e na sequência de um acto de humilhação, Marty Mauser a participar. E aqui entra a componente política de «Marty Supreme», sobretudo para quem souber ler o que ali está bem explícito. Na verdade, mais do que os militares americanos que assistem na plateia a uma macacada monumental mascarada de Ténis de Mesa, os donos da economia made in Wall Street não fazem concessões nem prisioneiros. Na época, o Japão estava sob ocupação americana e não era Tóquio mas sim Washington e o Pentágono que ditavam as regras. Para o empresário que o contratara, Marty era o americano que devia perder as partidas que jogasse com o seu oponente japonês. Era o americano derrotado, estatuto adquirido na fatídica final de Wimbledon. Ele sabia que isso agradaria ao público nipónico que supostamente ficaria muito feliz e acto contínuo iria a correr comprar as suas belas canetas. Sei lá, por espírito de vingança pela derrota sofrida na Segunda Guerra Mundial. Parece ingénua a ideia. Na verdade, era mais perversa e calculista do que ingénua, porque os danos de uma vitória real, não forjada, de Marty, supostamente seriam maiores. Só que são precisos dois para dançar o Tango. Afinal, Kato não representava mais do que a outra parte da palhaçada. Não estava ali para confirmar perante o seu povo a supremacia do Japão, mas para actuar numa farsa programada por quem mantinha a ocupação muito para além do que seria expectável. Enfim, essa situação foi em grande medida arrastada por causa de uma necessidade geoestratégica, o eclodir da Guerra da Coreia.

E com essa partida “maldita” se perfila e consolida a visão multidisciplinar de uma interessante ficção onde não se encontra apenas um portentoso veículo para as potencialidades dramáticas de um actor com provas dadas, legítima sede de prémios, e mais robusto reconhecimento por parte dos seus pares enquanto ainda se mantém no patamar da juventude, o sempre saboroso “forever young”. Diga-se a propósito que na derradeira sequência vemos Marty Mauser a olhar na maternidade para o seu filho recém-nascido e, no rosto do actor, sentimos que um novo capítulo se abre, o da maturidade emocional e o assumir de responsabilidades da entrada na idade adulta.
Entretanto, não posso deixar de elogiar a apurada e rigorosa reconstituição de época, o guarda-roupa, os penteados e a cuidada maquilhagem que acentua o factor social dos protagonistas, para além da muito óbvia componente identitária.
Finalmente, destaque maior para a Direcção de Fotografia do franco-iraniano Darius Khondji, com larga experiência e uma vasta carreira que vem dividindo com cineastas como Jean-Pierre Jeunet, David Fincher, Michael Haneke, Woody Allen, James Gray, Bong Joon-ho e Wong Kar-Wai. Não será de admirar que na memória dos espectadores prevaleça a abordagem que faz do jogo de sombras e luz e da maioria dos movimentos de câmara que, na minha opinião, só precisava de ser coadjuvado por uma banda sonora musical com outra inspiração, e já agora menos agressiva, sobretudo para que um subtil contraste com a vibrante energia dos diálogos se fizesse sentir.
Título original: Marty Supreme Realização: Josh Safdie Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion Duração: 149 min. Finlândia/EUA, 2025

