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A Cronologia da Água

«A Cronologia da Água» não começa devagar. Pelo contrário, atira-se logo de cabeça para um mergulho como numa competição de natação de alta competição. E, como toda a gente sabe, água fria dói mais no primeiro impacto. A estreia na realização de Kristen Stewart adapta as memórias de Lidia Yuknavitch como quem escreve com o corpo inteiro: sem hesitações, sem anestesia e sem aquele verniz “respeitinho” que costuma neutralizar filmes sobre traumas e abusos. Aqui, o abuso não é metáfora elegante. É matéria-prima. É lama. É memória que não seca. Stewart filma como quem está mais interessada em sentir do que em explicar. A narrativa é fragmentada, nervosa, cheia de solavancos, como a cabeça de alguém que tenta organizar o caos com frases partidas e imagens demasiado próximas. Super-8, narração murmurada, close-ups obsessivos: às vezes roça o cliché indie e experimental, mas há ali uma urgência real, nada decorativa, de catarse ou de libertar-se de alguma coisa. Isto não é um filme “bonito” sobre sobrevivência e superação. É um filme irritado por ter de existir.

No centro está a actriz Imogen Poots, absolutamente desarmada como Lidia. Uma jovem abusada pelo pai, que quer ser uma super-atleta de natação, mas em fuga permanente, corpo em esforço constante para não pensar. A piscina surge como útero alternativo: ali, dentro de água, não há pai, não há culpa, não há linguagem. Só contagem, respiração e resistência. Nadar como cancelamento da identidade. Nadar para não ser.

E depois há o que o cinema raramente quer tocar sem luvas: desejo, masturbação, vergonha, violência misturada com excitação. O filme não se culpa por isso e ainda bem. Lidia não é uma vítima “exemplar”. Despreza o namorado por ser demasiado gentil, confunde dor com intimidade e procura controlo onde só conhece submissão. É desconfortável? Claro. Mas também é honesto. A cronologia da água não segue linhas direitas de tempo.

Quando entra a escrita, entra também o fantasma do poder masculino ilustrado pela figura de Ken Kesey, mentor carismático e potencial repetição do trauma. O filme pergunta, sem responder: será que o sucesso exige sempre humilhação? Seja na literatura, no desporto ou na vida?

Stewart não faz cinema terapêutico nem panfletário. Faz um filme imperfeito, intenso, por vezes excessivo, mas sempre vivo. «A Cronologia da Água» pode não curar nada, mas lembra-nos que sobreviver não é uma linha recta, é um nado longo contra a corrente. E isso, no cinema, já é muito.

Título Original: The Chronology of Water Realização: Kristen Stewart Com: Imogen Poots, Thora Birch, Jim Belushi, Kim Gordon Origem: França, Letónia, EUA Duração: 128 minutos Ano: 2025

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José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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