Premiado no último festival de cinema de San Sebastian, «On Falling» (2024) assinala a estreia de Laura Carreira no formato da longa-metragem, depois de curtas-metragens promissoras sobre o mundo do trabalho. O filme acompanha o dia a dia duma jovem portuguesa, Aurora, a trabalhar num armazém de logística e distribuição de comércio eletrónico, numa composição impressiva de Joana Santos. Conversámos com a realizadora, a viver em Edimburgo, sobre a génese do filme e a influência da sua história pessoal na construção da narrativa; abordámos os problemas atuais do mundo do trabalho e a forma como são revelados ao longo da película; a realizadora elogiou a atriz protagonista e o seu desempenho no filme e revelou que o reconhecimento internacional é positivo se lhe permitir continuar a fazer o que mais gosta: “cinema!”

Qual a génese deste «On Falling» (2024)? Tendo em conta que as suas curtas-metragens anteriores versaram as questões laborais.

Veio da investigação da curta «The Shift» (2020), porque nesta já estava a ler sobre diferentes trabalhos precários. Na altura, descobri a indústria da logística, comecei a ler sobre ela e foi nessa altura que descobri o trabalho de coletor, de “picker”, que é o ofício da protagonista do filme, Aurora. Portanto, o filme começou muito da descoberta do que é esse trabalho, como é feito. Não estava à espera de ser um trabalho no qual uma pessoa está, literalmente, a seguir aos segundos, através de um scanner, o objeto que tem de apanhar depois. Pareceu-me um trabalho quase distópico! Portanto, começou do trabalho da protagonista. Depois, a partir daí, comecei a conversar com pessoas que faziam esse trabalho e foi, nessa altura, que me apercebi de que várias dessas pessoas eram imigrantes. Então, decidi escrever a personagem da Aurora como uma imigrante portuguesa, porque senti que também podia trazer parte da minha experiência dos primeiros anos no estrangeiro para o filme. O filme é quase uma colagem destas várias ideias!

Sei que vive em Edimburgo. A formação e a experiência da vida na Escócia influenciaram a narrativa do filme?

Acho que se tornou mais no seguinte: tinha estas ideias e observações das pessoas com quem estava a conversar, depois tinha a minha própria experiência. Acho que estas diferentes imagens e textos começaram quase como a fazer colagem ao longo do filme. Sabia que a personagem ia ter dificuldades financeiras durante a semana em que se passa a narrativa do filme e queria lidar um pouco com essa ideia do efeito de “bola de neve”, como, por exemplo, quando o telemóvel da Aurora se avaria. Mas fora disso, sabia que ia querer ver muito as rotinas, ver os ritmos de cada dia. Portanto, muita da investigação para o filme andou à volta de perceber como é que cada turno no armazém funcionava, quais eram as dinâmicas durante as pausas no trabalho, as dinâmicas com os chefes e também mais a parte técnica do trabalho.

Há um aspeto interessante que é o da vivência no apartamento onde vive a protagonista. (Não é bem um apartamento, são quartos alugados, partilhados). As dinâmicas no apartamento tiveram a ver com as suas vivências próprias, ou não? Porque está tudo muito bem descrito no filme.

Acho que, em relação à parte dos apartamentos, há uma relação com a minha experiência pessoal. Partilhei vários, nos primeiros anos da minha vida, em Edimburgo: esses apartamentos fazem parte da identidade da cidade, são muito bonitos, grandes, mas foram todos “cortados” aos bocados – a sala também faz um quarto –, portanto são apartamentos grandes, mas são todos divididos! Os apartamentos são de cor bege, uma tonalidade que os senhorios escolhem por ser neutra e que, aparentemente, não importa a ninguém; sabia que essa cor era uma característica comum entre todos os apartamentos aqui. Essas dinâmicas de não haver espaço para haver uma sociabilização confortável, porque as relações sociais acontecem todas na cozinha, que é uma divisão demasiado pequena; depois as dinâmicas do espaço nos armários para cada um dos residentes, até a questão do desaparecimento de produtos de supermercado na cozinha…

Falando das condições de trabalho neste mundo global: a rotinização, a repetição e a despersonalização do indivíduo (mais do que pessoas com um nome, são números naquele armazém). Como é que vê o mundo do trabalho, atualmente?

Eu já tenho um problema com o mundo do trabalho há muito tempo! Este filme parece-me uma versão ainda mais endoidecida desta mentalidade de transformar o trabalhador num robot! Quer dizer, a Aurora e muitas das pessoas com quem falei para fazer este filme não tinham qualquer agência no trabalho que faziam. Mesmo a nível de metas, lembro-me de perguntar, para pesquisa, para tentar perceber a que ritmo é que vamos, que metas é que existem? Quantos objetos tenho de apanhar por hora? E as pessoas não tinham a noção dos objetivos ou das metas a atingir dentro do armazém! E mesmo os managers também não tinham essa noção! Havia quase esta ideia de que o poder sobre o trabalhador não existia! Os “pickers” utilizavam um scanner que indicava que cada trabalhador tinha “x” segundos para apanhar cada objeto, estabelecendo assim essa meta. Portanto, havia quase uma alienação a vários níveis. Mesmo, por exemplo, durante as pausas no trabalho: a maior parte das pessoas falava que as pausas de trabalho eram tão curtas e as pessoas estavam tão cansadas que não havia momento para conseguir socializar duma forma mais significativa, criar relações de trabalho.

Aliás, no filme essas pausas são muito curtas e os trabalhadores repetem os mesmos assuntos (as séries que estão a ver), mas é tudo ligeiro e superficial.

E, apesar de tudo, no filme ainda temos algumas conversas. Por exemplo, eu e a Joana (Santos) estivemos num armazém em que ela treinou em vários departamentos, e lembro-me de quando estávamos lá, nos momentos de pausa, ninguém falava mesmo com ninguém! Portanto, nesse sentido, o filme até tem alguma interação que vai aparecendo, mas vemos exemplos em que a pessoa está com o telemóvel e está a descansar, porque o trabalho é fisicamente tão difícil! Em relação ao universo profissional, se a primeira ideia do filme era olhar para ele como um estudo desta precariedade financeira, acho que depois se tornou, também, quase existencial, uma vez que estas conversas que tive na preparação do filme mostraram-me que o trabalho era difícil, fisicamente, mas também era difícil a nível psicológico. O estar isolado tanto tempo, os turnos são de dez horas!

Não é possível ter relações sociais fora do trabalho.

Não, aliás, a frase que existe no filme: o colega de trabalho da Aurora diz que, nos tempos livres, lava a roupa (“Do The Laundry”). Esse diálogo foi extraído diretamente de uma conversa que tive com uma rapariga (uma “picker”) sobre o que ela fazia após o trabalho. E ela respondeu: “Lavo a roupa”. É um ato do quotidiano, trivial, mas revela muito o empobrecimento das vidas fora do trabalho.

Aliás, o dia a dia da vida da Aurora é repetitivo e cinzento, marcado pela falta de dinheiro e pela solidão, que acentuam a degradação do seu estado de saúde psicológico e físico. Partiu para o retrato da Aurora a partir de alguma pessoa que conheceu? Onde nasceu esta inspiração para escrever esta personagem?   

Acho que a Aurora é uma colagem de várias ideias. E muito do filme é à volta do que a Aurora observa – é uma espécie de “observadora participante” – e isso tem muito a ver com a forma como o filme foi escrito. Envolvia tantas pessoas que eu senti que as personagens à volta da Aurora iam ser muito importantes para entendermos a protagonista. Obviamente que a Aurora também vem muito da minha experiência na Escócia, dos primeiros anos, dos vários trabalhos que tive, das várias pessoas que também conheci. Muitas destas imagens vieram também desse meu tempo inicial fora de Portugal. Depois, obviamente, com os temas que tínhamos, também era importante lidar com esses temas através da linguagem cinematográfica: o tempo que os planos duram, como fazemos o enquadramento da Aurora, que espaço é que ela ocupa na imagem. Todos esses elementos eram muito importantes, uma vez que a Aurora diz muito pouco o que está a sentir. Sabia que ia ter de lidar com estes temas ao mesmo tempo, lidando com uma personagem que não comunica o que sente! Acho que esse era o grande desafio deste filme.

Como foi trabalhar com a Joana Santos?

A Joana é fabulosa! Já tem um talento incrível. O meu talento foi o de escolhê-la a ela, mais do que, propriamente, o trabalho com ela! (risos) Foi uma colaboração muito bonita e acho que a Joana, desde a primeira hora, desde a primeira audição que vi dela, já tinha este poder silencioso de manter a atenção da audiência e ser muito transparente. Ela não diz quase nada, mas nós conseguimos ler tudo. Acho que isso é mesmo dela, e ela entendeu a personagem com uma compaixão que a Aurora precisava. Porque eu notei, durante a escrita, que, por vezes, a personagem dela era muito culpada pela circunstância em que estava, era muito pressionada: “Por que é que ela não faz mais?”, “Por que é que ela não pede ajuda? “Por que é que ela não comunica com as pessoas à volta?” E a Joana encarou o papel com uma posição de compaixão com a personagem. Isso também era muito importante para mim!

LEIA A ENTREVISTA INTEGRAL NA METROPOLIS Nº 117

EUROPEAN DISCOVERY – PRIX FIPRESCI
38Th European Film Awards

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