«Hot Milk» é aquele tipo de filme que parece começar como férias baratas no sul de Espanha… e acaba como uma sessão intensiva de psicanálise emocional ao sol, com direito a erotismo, culpa, desejo e uma mãe que funciona como algema sentimental.

Na sua estreia na realização, a dramaturga e argumentista britânica Rebecca Lenkiewicz adapta o romance homónimo de Deborah Levy e entrega-nos um filme que seduz com imagens quentes e depois começa a apertar, como uma medusa invisível colada à pele. A história é simples só na aparência. Rose, interpretada com mestria trágica por Fiona Shaw, é uma mulher presa a uma cadeira de rodas, vítima de dores misteriosas e diagnósticos nebulosos. Sofia, a filha, vivida por Emma Mackey (a de «Sex Education»), vive em função da mãe, como uma enfermeira emocional sem contrato nem folgas.

As duas instalam-se em Almería, em busca do doutor Gómez, um terapeuta tão misterioso quanto suspeito, interpretado por Vincent Perez. Pode ser génio. Pode ser charlatão. Pode ser apenas mais um homem a lucrar com a dor alheia. Nunca fica totalmente claro.

É neste cenário seco, luminoso e quase lunar que Sofia começa finalmente a respirar. Primeiro com pequenos gestos. Depois com desejos. Depois com o corpo inteiro. A entrada em cena de Ingrid, uma viajante alemã interpretada pela magnética Vicky Krieps, funciona como detonador erótico e emocional. Ingrid não seduz: hipnotiza. Não conquista: invade. É metade musa, metade Medusa.

«Hot Milk» é, no fundo, um filme sobre libertação, mas daquelas difíceis, dolorosas, cheias de recaídas. Sofia quer ser livre, mas carrega a mãe como um peso invisível às costas. Rose ama a filha, mas também a controla como um carcereiro afectivo. Há aqui uma relação de dependência tóxica embrulhada em amor genuíno, culpa, chantagem emocional e medo da solidão.

Lenkiewicz filma tudo com uma sensualidade contida, sem pornografia emocional nem histerias. O erotismo nasce dos olhares, dos silêncios, dos corpos expostos ao sol, da pele molhada, dos gestos suspensos. É um cinema adulto, paciente, que confia no espectador, coisa cada vez mais rara.

O Mediterrâneo infestado de alforrecas, os campos de golfe artificiais, o deserto dos antigos westerns spaghetti, os objectos gregos, o pai ausente: tudo funciona como metáfora em movimento. Nada está ali por acaso. Tudo fala de identidade, de heranças mal resolvidas, de feridas antigas.

Emma Mackey faz aqui, talvez, o trabalho mais subtil da sua carreira. Observa, escuta, acumula. Vai-se transformando sem precisar de discursos. Fiona Shaw, por sua vez, constrói uma personagem simultaneamente frágil e monstruosa, vítima e carrasco no mesmo corpo.

O filme avança por pequenos choques: uma discussão, um objecto partido, uma revelação, uma fuga, uma traição emocional. E vai apertando até chegar a um final seco, inesperado e coerente, que recusa consolações fáceis. Não é um filme para quem quer respostas rápidas ou finais explicadinhos. “Hot Milk” prefere deixar marcas. Como as alforrecas. Arde depois. Fica depois. Pensa-se depois. No meio de tantos produtos formatados, este é um objecto estranho, sensual, inteligente e desconfortável. Um filme sobre crescer tarde, libertar-se com culpa e aprender que amar, às vezes, também é saber cortar. Quente, perturbador e adulto. Como o bom cinema deve ser.

Título Original: Hot Milk  Realização: Rebecca Lenkiewicz  Com: Fiona Shaw, Emma Mackey, Vicky Krieps  Origem: Reino Unido/Espanha/Grécia Duração: 93 minutos Ano: 2025 Género: Drama

ARTIGOS RELACIONADOS
Pillion – trailer

Colin (Harry Melling), um jovem tímido e reservado, leva uma existência monótona até conhecer o irresistivelmente atraente Ray (Alexander Skarsgård), Ler +

“Hamnet”: o romance sobre filho esquecido de Shakespeare e a ferida que deu origem à arte

Maggie O’Farrell, o luto, a pandemia e a estranha sensação de ler este romance no momento errado ou talvez no Ler +

Shelby Oaks – trailer

SHELBY OAKS chega às salas de cinema portuguesas a 12 de fevereiro, num filme de terror que parte de uma Ler +

Hamnet

Disclaimer: Sente-se confortavelmente, sintonize a música: “On the Nature of Daylight”, da banda sonora de «Hamnet», por Max Richter e, Ler +

Bird

Em «Bird», Andrea Arnold retoma a sua atenção habitual às margens – humanas, sociais, afetivas. Mergulhamos num quotidiano complexo, onde Ler +

Please enable JavaScript in your browser to complete this form.

Vais receber informação sobre
futuros passatempos.