Disclaimer: Sente-se confortavelmente, sintonize a música: “On the Nature of Daylight”, da banda sonora de «Hamnet», por Max Richter e, agora sim, comece a ler este texto.

Antes de mais, permitam-me uma espécie de spoiler alert: este é muito possivelmente o filme mais bonito e intenso que vai ver este ano. Nomeado para seis Globos de Ouro, «Hamnet» já venceu o de Melhor Filme de Drama, assim como o prémio de Melhor Atriz Principal para Jessie Buckley, que já tinha arrecadado a mesma categoria nos Critics Choice Awards. Mas comecemos pelo início. Realizado por Chloé Zhao (vencedora do Óscar de Melhor Filme e Melhor Realização por «Nomadland», em 2021), «Hamnet» é protagonizado por Jessie Buckley, Paul Mescal e Emily Watson, e inspirado no romance homónimo de Maggie O’Farrell.

Assumindo a responsabilidade de trazer a história de um dos maiores dramaturgos de sempre, a realizadora chinesa tem confidenciado, em muitas entrevistas, que este não é um filme sobre a peça mais icónica de William Shakespeare. Inspirado no best-seller de Maggie O’Farrell — a romancista irlandesa que o escreveu em 2020 —, «Hamnet» parte da morte súbita do filho (Hamnet) de Shakespeare e constrói uma reflexão delicada e profundamente emotiva sobre o luto, a perda e a morte, mas também sobre a maternidade, o casamento e a capacidade de cura do amor. Com a sua sensibilidade, Chloé Zhao acrescenta-lhe vida, profundidade e um conjunto de atores que nos convidam a uma das mais intensas viagens numa sala de cinema.

«Hamnet» leva-nos à Inglaterra de 1580 para acompanhar William Shakespeare (Paul Mescal), então um modesto tutor de latim, no encontro com Agnes (Jessie Buckley), uma mulher independente, intuitiva e profundamente conectada à natureza. Da atração imediata nasce uma relação arrebatadora, que culmina no casamento e na chegada de três filhos. À medida que Will constrói a sua carreira no teatro londrino, cada vez mais distante do lar, Agnes permanece no campo, enraizada na vida familiar. Quando a tragédia irrompe, a força da ligação que os une é duramente testada — e dessa perda íntima emerge uma das obras fundadoras da literatura ocidental: “Hamlet”.

Jessie Buckley é estrondosa no papel de Agnes, uma mãe conscientemente presente e dadora de um amor incondicional aos seus três filhos. Profundamente ligada à floresta e aos seus seres, Agnes vê para além, sente o que não se diz e acredita que a Mãe Natureza cuidará dos seus filhos. Depois da tragédia que recai sobre a família, o amor é posto à prova e a forma como sempre encarou a vida é questionada — como uma floresta que arde e segue desolada, sabendo que a vida sempre se reciclará.

Paul Mescal oferece outra performance digna de referência, algo a que já nos habituou, trazendo um Shakespeare que implode por dentro, mas renasce através da sua criatividade e da escrita. Um último apontamento para o elenco infantil, nomeadamente para o pequeno Jacobi Jupe (Hamnet) e para a sua irmã Olivia Lynes (Judith), que oferecem algumas das cenas mais impactantes ao longo do filme.

Com a envolvente banda sonora de Max Richter, «Hamnet» é uma viagem extradimensional. Chloé Zhao já contou que, mesmo sem compreender plenamente a linguagem de Shakespeare, foi através da força das interpretações e do ambiente criado em cena que acedeu ao essencial da obra — não tanto às palavras em si, mas ao sentimento que elas transportam e ao universo emocional que define Shakespeare.

E é precisamente isso que Zhao nos traz nesta obra que só agora chega ao grande público. Zhao não é uma realizadora literal. Ela traz-nos uma visão do ser humano que vai além das suas acções, numa ligação ao divino e ao mundo para além daquele que habitamos objetivamente. Neste filme, nem as cores usadas pelas personagens foram escolhidas ao acaso. A realizadora assume que o vermelho das vestes de Agnes durante a maior parte do filme está relacionado com a cor associada ao chacra da raiz, aquele que define a nossa ligação à terra e à vida, enquanto o azul que envolve a personagem de Will representa a ligação ao céu, ao chacra da garganta, que evidencia a comunicação e a expressão criativa.

Termino como comecei. «Hamnet» é mais do que um filme. É uma experiência. Numa altura em que vivemos numa sociedade tão polarizada e tão pouco empática, este filme tem a capacidade de nos fazer sentir parte de algo incrivelmente emotivo e profundo. Uma viagem que não exige dinheiro, bilhetes ou passaporte, mas apenas a coragem de olhar para dentro e voltar a sentir emoções fortes como a perda, o luto e a morte, sem esquecer a magia da vida, do amor e da possibilidade de recomeço. A arte e a transformação surgem aqui como resposta, quase sempre nascidas da dor, da ausência ou do amor extremo.

Obrigada, Chloé, por teres a coragem de desafiar o óbvio e o literal, e por teres conseguido voltar a unir uma sala esgotada, com mais de 800 pessoas a partilhar lenços de papel, mas acima de tudo emoções. E por nos lembrares que a vida ainda pulsa naquilo que nos diferencia e nos une: o sermos humanos e a capacidade única de conseguirmos sentir.

Título Original: Hamnet Realização: Chloé Zhao Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson
Duração: 125 minutos Reino Unido, EUA 2025

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