Primeiro pensamento depois de ver «Sem Alternativa»: os remakes só valem a pena se a história do filme original for muito boa, e/ou se o realizador em causa tiver uma marca tão própria que o material de origem “desapareça” como referência nessa (des)respeitosa réplica. Vem isto a propósito do facto de, antes de «Sem Alternativa», existir «Le couperet» (2005), de Costa-Gavras, a quem Park Chan-wook dedica esta sua última obra, além do mais, produzida por Alexandre Gavras e Michèle Ray-Gavras, o filho e a esposa do cineasta grego, como prova inequívoca do seu consentimento em relação a uma nova abordagem do romance The Ax, de Donald E. Westlake, de que detinham os direitos.

Se dúvidas houvesse, sai-se de «Sem Alternativa» com o sentimento pleno de ter visto “um filme de Park Chan-wook”, com o seu típico traço grosso de comédia negra, que não deixa de conter os sinais vibrantes da tragédia humana. E mais: sendo um projeto acalentado há coisa de duas décadas, percebe-se também um regresso ao espírito de «Oldboy – Velho Amigo» (2003), numa certa busca pela crueza humorística (olá, polvo vivo!) que definia a jornada desse clássico moderno. Um tom, apesar de tudo, distinto do seu filme anterior, «Decisão de Partir» (2022), essa fabulosa incursão no policial, com assombro romântico.

Talvez por «Decisão de Partir» ter deixado um impacto tão rico e complexo, através da psicologia hipnótica e elegância particular com que Park Chan-wook filma a vertigem de uma história de detetive, «Sem Alternativa» surpreende menos, e torna-se sobretudo uma zona de conforto autoral. Por outras palavras, seguimos a aplicação do plano do protagonista tendo sempre a certeza de que a métrica dos acontecimentos será levada até ao fim.

Concretizando, «No Other Choice» centra-se num gerente de uma fábrica de papel que, após ser despedido, vê as estruturas da sua vida em risco e, desesperado para manter o status social e o bem-estar da família, toma a decisão drástica de eliminar a concorrência, no que ao seu futuro como trabalhador qualificado diz respeito. O que significa exatamente “eliminar a concorrência”? Nada mais, nada menos que matar.

Park Chan-wook põe-nos então perante a metamorfose interior que pode levar um homem normal a adotar a mais extrema das atitudes como único método de salvação familiar. E o mais inteligente no gesto do realizador sul-coreano é o modo como as vítimas deste senhor Man-su acabam por ser diferentes versões dele mesmo, qual jogo de espelhos motivado pelo monstro que é o mundo do trabalho… Com brilhantes toques de absurdo, génio musical e planos inventivos que confirmam a desenvoltura visual de Park, a «No Other Choice» só se pedia maior economia narrativa.

TÍTULO ORIGINAL: Eojjeolsuga eobsda (No Other Choice) REALIZAÇÃO: Park Chan-wook ELENCO: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon ORIGEM: Coreia do Sul DURAÇÃO: 139 min. ANO: 2025

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