Sai-se de «Verdades Difíceis» com uma sensação turva. Que trauma esconde Pansy, a personagem tempestuosa de Marianne Jean-Baptiste? Será que não fomos suficientemente perspicazes para perceber a origem da sua dor? Mesmo quando a irmã lhe pergunta “Por que não consegues aproveitar a vida?”, a resposta dela é “Não sei”, e mais não se acrescenta. Assim, sem respostas para as nossas dúvidas de espectadores – esse muito humano desejo do esclarecimento pleno –, entramos, aos poucos, numa reflexão a meio caminho entre a natureza do cinema de Mike Leigh e a consciência de que, afinal, um filme não é um aparelho de massagem que nos relaxa os músculos: a tensão da dúvida, da incompreensão, permanece como um dos elementos mais fascinantes da arte dramática. E, deste modo, a sensação turva dá lugar à admiração.
«Verdades Difíceis» não será, no entanto, fácil… Desde o início, com um acordar sobressaltado, Pansy, mulher de meia-idade de ascendência caribenha, liberta a sua pólvora de raiva contra o mundo com uma vitalidade espantosa. Seja numa loja de sofás, no parque de estacionamento, no supermercado ou no dentista, a sua disposição para o insulto e escalada conflituosa é tal que precisamos desse efeito de repetição para começar a sentir no nosso próprio corpo a depressão dela, aquilo que lhe está entranhado e define o dia-a-dia, até em casa, com o marido e o filho: o primeiro refugia-se no trabalho, o segundo, com 20 e poucos anos e desempregado, oscila o seu estado silencioso entre o quarto e as ruas de Londres, em passeios solitários e tristes.

Na condição oposta a Pansy está a sua irmã solteira, Chantelle (Michele Austin), uma cabeleireira de simpatia luminosa, com duas filhas igualmente solares que enchem a casa de risadas contagiantes, no meio de plantas e cor – o contraste total com a casa de Pansy, de superfícies lisas e descaracterizadas, a denunciarem um vazio afetivo. Ainda que o filme não seja longo, Mike Leigh demora-se no desenho destas tonalidades antagónicas (e nas “verdades” que escolhemos esconder para relativizar o mundo), porque, como o seu cinema tem demonstrado aqui e ali, a felicidade e a infelicidade funcionam com um sistema de classes onde impera a lógica da desigualdade. Nem é preciso ir muito longe: na sua filmografia, Pansy afigura-se a extrema antítese de Poppy, aquela personagem de Sally Hawkins em «Um Dia de Cada Vez» (2008), cujo otimismo imbatível a torna uma espécie de anomalia social.
É deste estudo de personagem, e personagens, que se faz «Verdades Difíceis», naturalmente dialogando com o brilhante título que revelou Marianne Jean-Baptiste, «Segredos e Mentiras» (1996), mas sem depender dessa memória para encher Pansy de uma psicologia áspera, arrepiante, não resolvida – assim a deixa Leigh aos nossos olhos, confiando na estupenda interpretação da sua atriz. Não temos outros canais de introspeção ou bengalas de leitura: apenas a mestria seca do cineasta britânico a abraçar a superfície desengraçada da realidade, captada pelo diretor de fotografia Dick Pope, fiel colaborador falecido em 2024. Foi o seu último trabalho.
TÍTULO ORIGINAL: Hard Truths REALIZAÇÃO: Mike Leigh ELENCO: Marianne Jean-Baptiste, Michele Austin, David Webber ORIGEM: Reino Unido, Espanha DURAÇÃO: 97 min. ANO: 2024

