Sedento por novas práticas de linguagem, a pensar numa renovação das audiências, o cinema deu o Óscar a («Everything Everywhere At Once») entusiasmado com a potência estética da linguagem TikTok, uma forma de narrar cujos cortes são mais rápidos do que The Flash, ancorado em twists de argumento a cada segundo. É uma lépida estética atenta à concentração nos dilemas juvenis, retratando angústias afetivas. São novos (os) tempos e, com eles, nascem novas linhagens de se narrar, inclusive nos lugares do cinema de género. O horror, ponto de atração de jovens, é o lugar que melhor vem se moldando às demandas da contemporaneidade, inclusive o tom TikToker de narrar. Nessa atração mútua entre uma nova demanda dramatúrgica e uma oferta pautada pelo radicalismo, produções de pequeníssimo porte, como o filme de terror anglo-australiano «Fala Comigo» («Talk to Me»), está a brilhar no circuito internacional. É um engenhoso exercício de crónica de costumes sintonizado com as veredas de um assombro de linha política apontado em «Get Out» (2017), de Jordan Peele. Ou seja, estigmas históricos como o racismo e a violência contra as mulheres são o seu foco.

Orçado em US$ 4,5 milhões, o thriller sobrenatural «Fala Comigo» arrecadou US$ 36,5 milhões mundo afora, além de ter conquistado a nobre montra na programação da Berlinale, na capital alemã, de onde saiu ovacionado. A sua estrutura narrativa rompe com as convenções.

Atento ao novíssimo cinema australiano, o Festival de Berlim importou de down under um estudo sobre as comunicações profanas com os mortos, estruturado sob a direção dos YouTubers (e gémeos) Danny e Michael Philippou. Eles não se escussam de usar jump scares, a técnica histórica de fazer a plateia saltar das cadeiras ao dar de caras com o demónio – ou com assassinos armados. O elemento que causa medo na trama rodada pelos irmãos Phillipou é uma estatueta em forma de mão, supostamente produzida a partir de um punho embalsamado. Quem a aperta e diz o imperativo “Fala comigo” abre um portal para espíritos, quase sempre maus. O erro da jovem Mia (interpretada pela ótima Sophie Wilde) é fazer esse ritual sem ter feito as pazes com o seu inconsciente acerca da misteriosa morte da sua mãe. O que vai sair das incursões dela ao Além é tenebroso, e clama por sangue. Trata-se de uma eletrizante atualização dos códigos do horror juvenil, com uma montagem enervante.

Título original: Talk to Me Realização: Danny Philippou, Michael Philippou Elenco: Ari McCarthy, Hamish Phillips, Kit Erhart-Bruce Duração: 95 min. Austrália/Reino Unido/EUA, 2022

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº98, Setembro 2023]

https://www.youtube.com/watch?v=aLAKJu9aJys
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