[Texto publicado originalmente no site Cinema2000, a 14 de Setembro de 2006, com o título “Aquecimento Global versão Gore”]

Este filme com Al Gore no papel principal é uma das referências a nível documental em 2006, e não só. Afinal, é também a visão do homem por detrás desta missão de salvação ambiental: Al Gore, o show e a causa que o apaixona – o alerta para o aquecimento global.

Em «Uma Verdade Inconveniente» são apresentados argumentos suficientes para expor a problemática do tema em causa. Bem estruturado, a base do documentário é uma aula que Al Gore apresenta um pouco por todo o mundo e vai ser a partir desta que a exposição das suas ideias se vai desenvolver (por altura da rodagem, já tinham sido realizadas mais de 1000 palestras). Juntamente com os factos, surge a vida e os motivos que levaram Al Gore à sua cruzada ambiental: na sua opinião, os alertas ambientais são menosprezados pelas pessoas e fundamentalmente pelos políticos.

Neste documentário não há espaço para o contraditório, mas esse também não é esse o seu objectivo. O método de exposição dos problemas e das soluções para a sua resolução são eficazes e facilmente perceptíveis para a audiência. Um misto de dados científicos, humor e mesmo cartoons, criam uma atmosfera de show nas suas cativantes apresentações: Al Gore fala como um homem apaixonado, mas também desesperado.

A dimensão documental é alargada com a introdução de uma série de apontamentos das mais diversas origens (gráficos, fotos, filmes de arquivo) que povoam a montagem do filme e auxiliam na descodificação dos fenómenos. A responsabilidade da colagem dos vários registos é do realizador Davis Guggenheim, que tem um extenso trabalho a nível televisivo, e que aqui consegue transmitir a mensagem sem ruído.

Um pequeno desvio ocorre durante a apresentação: a negligência política face ao tabaco, segundo Al Gore, pode ser comparada com o que (não) tem sido feito na questão do aquecimento global. É certo que aproveita para evocar a morte da irmã, vítima de cancro de pulmão, e a ironia das raízes do seu pai, plantador de tabaco, e do acidente do seu filho, mas são tudo ocorrências que certificam o homem por detrás da causa. Não fica também de lado o revisitar dos heróis que fazem parte do seu crescimento intelectual, inclusive o seu longo percurso de defensor da causa ambiental na política americana.

«Uma Verdade Inconveniente» vai certamente gerar o debate de ideias. É no mínimo um verdadeiro wake up call para o mundo e o cinema acaba por ser a forma mais inteligente de utilização de um meio de propagação universal para divulgar uma urgente mensagem face à aproximação de um dos maiores desastres ambientais do nosso planeta. Fervoroso na abordagem do assunto, a vontade de angariação de apoio junto dos próprios espectadores é tremenda, não só durante o filme, como também de uma forma muito directa no desenrolar dos créditos finais.

Registe-se que a produtora internacional deste documentário também partilha dos interesses de Al Gore, pois dedica-se a produções de cinema de intervenção («Syriana»«Boa Noite, e Boa Sorte»), focando causas sociais, políticas e agora ambientais. O filme chegou a Portugal depois da adesão por parte do público americano (apesar da sua estreia limitada) e da boa recepção nos festivais de Sundance e Cannes.

Título original: An Inconvenient Truth Realização: Davis Guggenheim Documentário Duração: 96 min. Estados Unidos, 2006


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