Quando um filme a propósito de um assunto premente da sociedade iraniana se apresenta sob a marca Made in Germany FilmProduktion (na verdade, o nome da produtora maioritariamente responsável pela concretização do documentário «Sieben Winter in Teheran» («Sete Invernos em Teerão»), 2023, dirigido por Steffi Niederzoll), mesmo que não queiramos somos levados a interrogar-nos sobre os limites que o mesmo encerra do ponto de vista da denúncia que supostamente desejam sublinhar e recordar para que não se esqueçam as duras provas a que estão sujeitas as mulheres na República Islâmica.
No quadro das leis que persistem como dominantes e que não são nada abonatórias para o modo como o poder civil e religioso olha para assuntos delicados como a violação e a consequente legítima defesa das mais diversas vertentes de uma agressão sexual.
Diga-se, algo que encontramos também na legislação e na suposta ideologia ocidental e cristã, não obstante as diferenças culturais que os diferentes enquadramentos jurídicos pressupõem. E só quem não conhece o que se passa no Extremo-Oriente, por exemplo em sociedades muito simpáticas como o Japão, pode julgar que fenómenos de discriminação de género são coisa exclusiva do Irão ou de outros países islâmicos.
Interrogações despertadas com mais e justificada razão pelo facto de, logo de início, vermos uma mulher com véu islâmico olhar, num plano obviamente encenado, para a maqueta de uma prisão que irá ser utilizada de forma intermitente para preencher porventura a falta de outra documentação e a visão do interior real da dita prisão. Maqueta que reproduz o espaço confinado em que foi encarcerada uma rapariga vítima de alegados abusos sexuais por parte de um alegado membro dos serviços secretos. Estamos a falar de Reyhaneh Jabarri (06.11.1987 – 25.10.2014), que num belo e horrível dia foi violentada por um homem mais velho provavelmente excitado com a sua juventude e poder de sedução. Não obstante, o documentário não apresenta nenhuma prova concludente do que realmente sucedeu.
Seja como for, aceitando como boas as palavras dos que deram e dão hoje a cara por este caso, podemos dizer que Reyhaneh Jabarri, na qualidade de designer de interiores, foi levada sob um falso pretexto ao apartamento de Morteza Sarbandi (chefe de uma família conservadora, pelo que se pode especular associada ao regime). Para se defender do macho, a jovem, que se sentiu sequestrada, pegou numa faca e enterrou a lâmina nas costas do agressor que posteriormente veio a falecer.

De repente, alguém que vivia um quotidiano similar ao de muito boa gente representante da classe média do Irão, com o conforto e até o liberalismo de certas práticas que se observam sobretudo nas grandes cidades, em que um clima mais aberto contrasta com o das regiões distantes e mais fechadas onde a pressão dos códigos e das regras de conduta, tanto para homens como para mulheres, são muito mais rígidos, entrou em colapso e a sua vida ficou de rastos. Pior, desmoronou-se, quando a polícia a prendeu alegando que o que sucedera indiciava mais um assassinato do que a defesa da integridade física e da honra no plano moral e material.
Todo o documentário, a partir destes dados que vamos coligindo na memória através da acumulação de depoimentos da família e da própria voz de Reyhaneh Jabarri, gravada a partir da prisão, segue a linha cronológica dos acontecimentos que ditaram a sua sorte, ou melhor, má-sorte, que culminou com a sentença que a condenou a uma pena de morte por enforcamento.
Diversas imagens e sons registados anonimamente dão-nos conta de momentos fulcrais deste processo, e de grande dramatismo são os que nos mostram a mãe na madrugada em que a filha foi executada. São também impressionantes os depoimentos gravados por uma outra voz, mas que seguem, queremos acreditar que fielmente, o diário e cartas da prisão com pensamentos e sobretudo com a decisão de Reyhaneh Jabarri não ceder a uma infame chantagem que a podia salvar, ou seja, se aceitasse abandonar a acusação de que fora vítima de abuso ou ensaio frustrado de violação.
Múltiplas diligências e súplicas irá fazer a mãe, Shole Pakravan, junto do filho de Morteza Sarbandi, algumas a roçar a humilhação, mas nada parecia demovê-lo, pois o que estava em jogo era a vingança de sangue capaz de limpar a honra do pai e de algum modo restaurar a benigna percepção pública da sua imagem e do que ele representava no contexto da sociedade. Por isso se insinua que o caso, que podia acabar por se resolver num plano meramente policial e nos meandros da justiça, acabou por ser contaminado e manipulado por questões de natureza política.
Mesmo antes do genérico final, «Sete Invernos em Teerão» desvenda aquilo que na minha opinião fazia falta esclarecer, com calma e precisão, não no fim mas no princípio, ou seja, que parte da família de Reyhaneh Jabarri, mãe e duas irmãs, fugiram para a Alemanha. No exílio europeu deram voz ao que sucedera com aquela que consideram uma mártir e um exemplo de resiliência, assim como ao conjunto de mulheres que como a sua familiar foram ou são vítimas de um sistema que as discrimina. Se essa informação nos fosse dada em devida altura, a sucessão de documentos e o seu enquadramento seriam muito mais credíveis e os depoimentos sem papas na língua das exiladas muito mais eficazes na sua verdade intrínseca.
Todavia, repito e insisto num ponto: longe de mim duvidar que aquilo que se denuncia não aconteceu como se descreve, apesar de algumas sequências (nomeadamente as fotos muito profissionais do julgamento) me parecerem estranhas. Mas que os documentaristas nunca se preocuparam em referir o contraditório, isso ninguém pode negar. Entretanto, nos últimos segundos do genérico final, há uma legenda que nos diz que a produção procurou estabelecer contacto com a família de Morteza Sarbandi, sem obter qualquer resposta. Escondida nos derradeiros fotogramas do filme, essa informação vale o que vale, e na prática vale zero…! Tarde de mais para revelar o que seria importante esclarecer no momento fulcral em que se fala da intransigência da sua família em aceitar o perdão. Assim, o que pode até ser a pura da verdade arrisca-se a ser confundido com mera propaganda. E essa não é a melhor forma de homenagear o exemplo e a memória seja de quem for, muito menos a de Reyhaneh Jabarri.
Título original: Sieben Winter in Teheran Título internacional: Seven Winters in Tehran Realização: Steffi Niederzoll Documentário Duração: 97 min. França/Alemanha, 2023

