Por fim chegou aos ecrãs nacionais a Palma de Ouro do último Festival de Cannes, “Yek Tasadef Sadeh” (Foi Só Um Acidente), 2025, do veterano realizador iraniano Jafar Panahi.
Irão. Um carro circula de noite numa estrada pouco ou nada iluminada. Lá dentro vai um núcleo familiar perfeitamente normal, pai, mãe e filha. Travam conversas perfeitamente banais e ficamos a saber que a mulher está grávida. De repente, um primeiro salto, provavelmente um pedaço mal asfaltado ou uma lomba inesperada, provoca uma primeira sensação de desconforto. Em boa verdade, nada de especial a assinalar. Porém, mais adiante, uma pancada mais forte sobressalta quem até ali viajava sem preocupações de maior. O condutor sai do carro para ver o que se passou, verificar os danos, e o que nós vemos, ou melhor, não vemos mas saberemos que aconteceu, foi o atropelamento de um cão.
Para os devidos efeitos, será este o acidente de que se fala e que irá proporcionar logo a seguir não outro acidente mas um incidente de proporções dramáticas em que o pobre canídeo já não conta para nada, mas sim o devir de um homem, Eghbal (Ebrahim Azizi), que será identificado por um outro como sendo o carrasco que o supliciou durante os anos que passou na prisão. Essa identificação será realizada com base no facto de o condutor coxear e arrastar a perna de um modo que o ex-prisioneiro reconheceu como um eco assombrado dos longos dias de cativeiro, qualquer coisa que não se esquece facilmente.
Ao ser obrigado a pedir ajuda para reparar a viatura, aquele pai de família nem se dera conta de que estava a ser alvo de um plano de vingança que culminaria pouco depois com o seu rapto, protagonizado por aquele que, dissimulado no interior de uma espécie de oficina que o socorreu, não descansou enquanto não o “prendeu”. Esse homem que se esconde na escuridão do armazém, Vahid (Vahid Mobasseri), irá sequestrar Eghbal, e agora no papel de carrasco leva o que pensa ser o agente do regime para o deserto onde planeia matá-lo. Na verdade, deseja enterrar vivo quem o fez morrer mil vezes no cárcere.

Torturas e execuções simuladas são práticas correntes de muitas polícias do mundo, mesmo nos países ditos democráticos (que o digam os prisioneiros que foram encarcerados pelos EUA no Iraque e em Abu Ghraib, por exemplo), mas noutros regimes ninguém duvida que sejam quase rotinas. Entretanto, neste ponto da narrativa, começamos a perceber as razões profundas que levam um ser humano, aparentemente pacífico, a usar métodos similares de pressão psicológica e violência física para obter determinados resultados, neste caso a sublimação dos seus fantasmas.
Nesta fase de primeiras e decisivas sequências para nos situarmos no fio condutor da história e no contexto histórico e político em que decorre a acção assistimos ao ponto alto de um acto redentor em que Vahid quer provocar os maiores danos no que seguramente foi e continua a ser o seu mais odiado inimigo. Mas ele não está certo de que o homem que acabou por atar, amordaçar e empurrar para uma cova seja o filho da mãe que o atormentou e lhe desgraçou a vida. Por isso desiste por momentos do enterro, preferindo executar o homem que mantém sob custódia forçada só após a confirmação da sua identidade junto de outras das suas vítimas, figuras que foram submetidas a uma mesma repressão e ao mesmo sistema prisional. Dá-se então o sinal de partida para uma breve mas conturbada odisseia para a qual Jafar Panahi convoca no argumento novas personagens, representantes de diversas parcelas da sociedade iraniana, situadas entre a pequena-burguesia e o proletariado, nomeadamente um livreiro, uma fotógrafa de casamentos, um casal de noivos (preparadíssimos no que diz respeito a guarda-roupa para dar o nó) e um rapaz que algumas criaturas apelidariam de radical, na falta de melhor juízo. Todos eles, ou quase, sofreram penas mais ou menos prolongadas nas prisões iranianas (presume-se que por motivos políticos e se calhar religiosos, já que nenhum parece seguir as regras islâmicas nem ser delas fervoroso adepto) e nenhum, salvo o rapaz mais belicoso, será capaz de afirmar preto no branco que o homem sequestrado seria de facto o agente dos serviços secretos merecedor da já referida vingança.
Diga-se que o filme, que se estrutura de forma mais clássica do que outras obras anteriores do realizador, aproveita as múltiplas dúvidas e contradições daquele grupo heterogéneo para nos dar conta das discussões intensas desencadeadas no seu interior, em que expõem de forma subliminar, explícita ou contaminada pelo sarcasmo e a crítica, os altos e baixos de viver na corda bamba ou no mais afiado fio da navalha.

Só quem não conhece a dificuldade de falar alto e bom som sobre o que cheira a podre neste mundo onde a corrupção se encontra ao virar da esquina ignora a imensa coragem que uma equipa cinematográfica precisa assumir para assinar o nome no genérico de um filme como «Foi Só Um Acidente». Para já não falar dos actores que dão o corpo e seguramente um pedaço gigante da alma para representarem a complexidade das emoções de pessoas e personagens situadas no limite dos limites, atormentadas pelo dilema de optarem pela vida ou pela morte do que se perfila, até um certo ponto, como um hipotético assassinato de um suposto canalha que dessa forma se candidatava involuntariamente ao estatuto de mártir do regime, apesar de não existir um consenso absoluto sobre a solução a adoptar.
Mas não só de contradições e hesitações vive esta ficção, porque o maior dilema que se levanta do ponto de vista factual/ficcional reside na dicotomia entre um projecto de vingança sumária e uma oportunidade de vingança calculada, por outras palavras, aceitar o sim ou o não de leis redutoras que proclamam “olho por olho, dente por dente”. Este princípio aparece, aliás, no Código de Hamurabi e na Bíblia (no Antigo Testamento), não fazendo parte exclusiva do ordenamento jurídico do Islão.
Controvérsia ainda mais pesada se considerarmos o dilema de consciência que atravessa o pensamento de uma parte do grupo, ou seja, o de que perante a sua alegada superioridade moral não deviam permitir ou caucionar o uso das mesmas armas e dos mesmos métodos de supressão do outro que reconhecem no lado oposto da barricada, os usados por aqueles que os ofenderam e maltrataram.
No final, que não irei revelar, Jafar Panahi reservou um espaço privilegiado para a confissão, mesmo que num estilo de desafio provocador, e um pedaço de catarse emocional para polarizar o desespero de ambas as partes em confronto que, caso estivéssemos num filme incapaz de usar a capacidade de análise dialéctica, seria pura e simplesmente o retrato simplista e justiceiro de um grupo face a um monstro a abater.
Mas a realidade das coisas não se coaduna com julgamentos apressados e o desenlace que surge no fundo como uma impotente fuga para a frente, mesmo parecendo arriscada e surpreendente, constitui a força motriz e vital de quem só na aparência perdoou as ofensas. Libertado assim do rancor, Vahid, como provavelmente os restantes “companheiros de estrada”, parece não alimentar mais o ódio que o consumia e, pelo que se vê por breves instantes, será até capaz de viver em paz consigo próprio. Só que no derradeiro plano Jafar Panahi introduz uma palhinha na engrenagem através de um contundente efeito sonoro, poderoso e aterrador. E, deixem-me dizer, gosto muito desta ideia. Vahid, de costas para os espectadores e num plano médio que concentra a nossa atenção na sua nuca e na silhueta sombria de um cidadão comum, ouve os passos arrastados de um homem similares aos que o sobressaltaram ao princípio. De repente, o que parecia ser o fim objectivo de uma história bem contada dá uma volta subjectiva de cento e oitenta graus, e se pudéssemos voltar atrás amparando no caminho o pobre Vahid, provavelmente seria um regresso para lado nenhum. Sim, perante esse plano será legítimo pensar o que quisermos, e essa suprema liberdade do espectador não podia ser mais inquietante.
Não hesito em dizer que este será nos últimos anos, porventura, o filme mais intransigente e comprometido de Jafar Panahi.
Título original: Yek tasadef sadeh Título internacional: It Was Just an Accident Realização: Jafar Panahi Elenco: Vahid Mobasseri, Mariam Afshari, Ebrahim Azizi Duração: 103 min. França, 2025

