Disse-me o realizador e argumentista João Botelho que um projecto similar ao seu «As Meninas Exemplares», 2024, na verdade inspirado na mesma matriz literária, passou pela cabeça do cineasta francês Eric Rohmer. Desse outro que ficou pelo plano das ideias podemos adivinhar os contornos, mas nunca saberemos os resultados práticos. Felizmente, o projecto nacional avançou e chegou a bom porto e, pelo que vimos no interior das quatro linhas do enquadramento, o resultado não nos desilude e confirma aquilo que já esperávamos da longa e segura carreira de João Botelho no mundo do cinema de autor (aqui coadjuvado na adaptação e escrita do guião por Leonor Pinhão), assim como no do universo gráfico e das artes plásticas.

Mas vamos por partes e usemos o clássico “era uma vez” para situar um primeiro encontro de João Botelho e da pintora Paula Rego num mais ou menos distante Festival de Veneza (no ano de «Quem És Tu?», 2001), mostra cinematográfica que faz parte integrante da La Biennale di Venezia, instituição completamente voltada e dedicada aos diversos rostos e caminhos da actividade artística, momento alto para a exposição do melhor que se produz no campo da Arquitectura, Dança, Música, Teatro, Artes Visuais e Cinema (neste caso, o único acontecimento com frequência anual). Foi então numa esplanada da muito ampla e fascinante Praça de São Marcos em Veneza que os dois artistas se encontraram para discutir a hipótese de um filme em que a obra de Paula Rego seria a mais forte inspiração visual. Falavam no fundo da versão cinematográfica que conjugaria algumas das obras emblemáticas da escritora russa Sophia Rostopchine, mais conhecida por Condessa de Ségur (1799-1874), nomeadamente o universo de “As Meninas Exemplares”, “Os Desastres de Sofia” e “As Férias”, com o estilo inconfundível de Paula Rego consubstanciado em quadros onde o lado cénico surge com particular evidência.

Para além das cores, dos adereços, do guarda-roupa, das poses dos homens, mulheres e animais que lhe serviam de modelo, na sua obra pictórica sobressai igualmente um admirável jogo de iluminação onde se introduzem subtis ou vincados contrastes entre luz e sombra, primeiros planos e planos recuados, profundidade de campo e perspectivas que podiam muito bem sair da imaginação de um Director de Fotografia, sobretudo daqueles que não se limitam a cumprir um storyboard pré-determinado e apontam antes a objectiva para alcançar o alvo que parece impossível, e ainda o inesperado, o inovador.

Do rendez vous de Veneza ficou a promessa no ar de que Paula Rego desenharia os esboços para os corpos dos actores, as roupas, os décors e as cores dos planos de fundo. Todavia, o modelo de produção do cinema português nem sempre se articula com devaneios de criação quando se confronta com a burocracia nada exemplar que limita alguns dos apoios, geralmente financeiros, e por consequência a concretização de «As Meninas Exemplares» só foi possível em 2024.

Escusado será dizer que a obra cinematográfica ficou órfã de uma das suas potenciais criadoras quando Paula Rego morreu em 2022. Não obstante, aquilo que apontei como a matéria-prima essencial da sua arte manteve-se na visão pessoal, diria intransmissível, de João Botelho.

O que descrevi, breve e seguramente de forma incompleta, como as suas principais linhas de força, está lá pela mão dos que na vasta e coerente equipa contribuíram para o resultado final, que a partir de 14 de Novembro de 2025 poderá ser visto após a estreia em Bragança no início de mais uma digressão nacional, plano concebido pelo produtor, Alexandre Oliveira, e pelo realizador, semelhante ao que há quinze anos organizaram para a exibição do «Filme do Desassossego», 2010. Trata-se assim de encontrar um novo circuito alternativo ao circuito comercial das salas onde prevalece um crescente desinteresse do público pelo cinema português e não só, concentrando a atenção em sessões únicas, salvo algumas excepções. Para isso os promotores desta iniciativa contam com os cineteatros e auditórios espalhados pelo país, muitas vezes, apetrechados com projectores de última geração, e que só podem beneficiar com o facto de poderem apresentar programação que corresponda a um interesse genuíno das populações que ainda não se cansaram de ir ver cinema numa sala de cinema e num grande ecrã e, já agora, que em certos casos estão sistematicamente afastadas da oferta que os grandes centros urbanos, mesmo debaixo de fogo, continuam a oferecer.

Do filme, para além da presença muito material mas igualmente espiritual da obra de Paula Rego, sobressai uma sensação de encantamento que o João Botelho prefere descrever como divertimento. E percebo porquê. Deve dar muito gozo pegar naquelas figuras femininas, interpretadas por mulheres adultas, que vestidas e dirigidas com precisão se comportam mesmo como meninas, e criar ao seu redor um universo credível e um conjunto de atmosferas de conto de fadas, mas, lá bem nas entrelinhas, perverso como a sedução do diabo que nos convoca para os caminhos que nos escancaram o negativo do paraíso.

Neste reino das aparências, lugar privilegiado para as personagens adultas, as meninas exemplares vão conquistando a sua autonomia na subversão das regras do jogo que mais lhes convém, e no processo cada uma sabe de si e constitui um caso de estudo. Quando não podem fazer muito mais do que obedecer a uma lógica castradora, fazem os possíveis e os impossíveis por deixar as coisas de pernas para o ar. Neste capítulo, sem esquecer a prestação da globalidade dos actores, o destaque vai para a desastrada e desastrosa Sofia, imaculadamente interpretada por Rita Durão. Esta personagem pertence a uma galeria plural de figuras da qual se costuma dizer, se não existisse (e existem muitas) precisava de ser inventada. Ela, na sua inebriante individualidade, vai ser protagonista de um sem número de diabruras que, quer queiram quer não queiram as suas interlocutoras, acaba por mexer com as restantes criancinhas aparentemente mais normalizadas e bem comportadas que, ao contrário do que se possa imaginar, não são nada inocentes. Bem pelo contrário, se lhes dermos corda são capazes de provocar danos de grande ferocidade como os atribuídos a criaturas silvestres (que ao invés dos meninos e meninas usam o instinto em vez da racionalidade).

Todas as personagens, aliás, apresentam uma potencial, constante ou intermitente capacidade destrutiva, quer para o bem quer para o mal. Entretanto, um dos pontos mais sedutores na encenação e na direcção de actores de João Botelho prende-se com o modo como ele soube equilibrar as diferentes façanhas de Sofia com as vinhetas desenhadas para enquadrar o restante elenco, sobretudo, no campo feminino. Diria que no gineceu ficcional de «As Meninas Exemplares» grita-se sem berrar que o mundo pertence a quem o queira dominar e que as mulheres na sua aparente fragilidade, seja qual for a idade, só não vencem a parada se desistirem ou não quiserem jogar com o baralho completo. Trunfos que, por seu lado, o labor de João Botelho não desperdiçou ao contar com João Ribeiro na composição fotográfica e visual dos planos que ambos seguramente discutiram para se obter a melhor simbiose entre literatura e grafismos do Século XIX com o legado plástico de Paula Rego, unidos pelo que o digital nos proporciona em matéria de manipulação cinematográfica, nomeadamente na montagem e nas misturas prevalecentes na incisiva e belíssima banda sonora musical.

Muito podia dizer, mas parafraseando um velho cineasta da nossa praça visualmente citado no presente filme, mais do que usar as palavras aqui fica um convite sério e entusiasta para que o público de Norte a Sul, e os que sofrem os custos da insularidade, acorram ao apelo de “As Meninas Exemplares”. Neste contexto, acrescento que a exibição desta obra de ficção será acompanhada por uma exposição de gravuras e desenhos de Paula Rego, uma excelente ideia complementar que não posso deixar de saudar e assinalar como fundamental para não nos esquecermos que na arte não existem fronteiras, antes vasos comunicantes que precisamos de usar num contexto de criatividade sem limites.

Por fim, dou a palavra ao João Botelho nesta citação exemplar: “Tinha seis anos quando li “Os Desastres de Sofia”. Irmão mais novo de três irmãs, a biblioteca “azul” era o que havia lá em casa como literatura infantil. Com essa idade aprendi a ler, mas não podia entender a perversidade do texto. Com a idade que tenho hoje é normal regressar à infância. Perceber que as falas das crianças eram sobretudo falas de adultos. Assim neste filme os actores são adultos que representam as crianças. (…) Daí a proposta de um divertimento dos seis aos noventa e seis anos. Se o cinema hoje se transformou maioritariamente num divertimento infanto-juvenil façamos, de um divertimento infanto-juvenil, puro cinema”. Ou seja, Ar de Filmes. Nem mais, e que não fiquem por aqui…!

Título original: As Meninas Exemplares Realização: João Botelho Elenco: Victoria Guerra, Leonor Silveira, Rita Blanco, João Pedro Vaz, Margarida Marinho, Catarina Wallenstein, Rita Durão, Crista Alfaiate, Rui Morisson Duração: 82 min. Portugal, 2025

ARTIGOS RELACIONADOS
Mal Viver
Crítica MAL VIVER – estreia RTP

Mal Viver é a expressão última do trabalho de João Canijo (n.1957), a síntese perfeita do seu esforço e inspiração Ler +

Lume – trailer

No próximo dia 20 de junho chega à RTP1 LUME, um thriller jornalístico de 6 episódios que mergulha na origem Ler +

Daqui Houve Resistência
Daqui Houve Resistência: Do Norte Soprou a Liberdade

A revista METROPOLIS teve acesso antecipado aos três primeiros episódios de «Daqui Houve Resistência», da RTP1. A série inspira-se em Ler +

Cartas Telepáticas – trailer

Dia 20 de Março chega aos cinemas "Cartas Telepáticas", último filme de Edgar Pêra, que teve estreia mundial no Festival Ler +

O Teu Rosto Será o Último – estreia TVCine Edition

Uma história familiar que atravessa a História recente de Portugal, centrada no confronto de um jovem pianista com o dom Ler +

Please enable JavaScript in your browser to complete this form.

Vais receber informação sobre
futuros passatempos.