Dos pecadores mais que elogiados aos monstros humanizados, estas nomeações um retrato elegante de uma indústria em mutação que aprende a gostar de si própria.
Há um momento, todos os anos, em que Hollywood pára para fingir que acredita profundamente na arte, na humanidade, na diversidade e na emoção universal. É o momento das nomeações para os Oscars®. Discursos bonitos, intérpretes em palco, palavras como “essência”, “ligação” e “narrativas que nos unem”. Depois, acabam os aplausos e começam as contas.
Este ano, as contas são simples: “Pecadores” (Sinners), de Ryan Coogler, aparece com 16 nomeações. Dezasseis é um recorde absoluto de nomeações. E um número que não é apenas estatística: é um selo de poder. É a Academia a dizer, sem rodeios, “este é o filme que nos representa”. Está em quase tudo: Melhor Filme, Realização, actores, argumento, som, imagem, figurinos, canções, elenco. Um filme pensado para falar de política, emoção e identidade, mas também, e sobretudo, para ganhar prémios.
Logo atrás vem Paul Thomas Anderson, com “Uma Batalha Atrás de Batalha” e 13 nomeações. PTA já não é o autor marginal que incomodava o sistema. É o sistema. É o realizador em quem Hollywood confia quando quer parecer adulta, séria, profunda e respeitável. DiCaprio, Sean Penn, Benicio Del Toro: o star system em modo clássico.
Depois surgem os dois monstros, literalmente e figurativamente. “Frankenstein”, de Guillermo del Toro, soma 10 nomeações e confirma que o mexicano é um génio a transformar fantasia em prestígio. Monstros, lágrimas, iluminação perfeita, moral humanista: receita infalível.
Ao lado, “Marty Supreme”, também com 10 nomeações, mostra como Timothée Chalamet já não é promessa: é instituição. Onde ele entra, entram votantes, campanhas e capas de revista.
Mais contido, mais literário, mais europeu, “Hamnet”, de Chloé Zhao, com 8 nomeações, representa o lado “sensível” da Academia: Shakespeare, luto, memória, silêncios longos. “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, com 7, — Melhor Filme Europeu, sábado passado nos EFA — confirma que o cinema nórdico continua a ser o estrangeiro “aceitável”.
Yorgos Lanthimos mantém o seu território com “Begonia” (6), estranho mas domesticado. “Train Dreams” (5) cumpre o papel do pequeno filme poético que faz bem à consciência colectiva, estreado apenas no streaming da Netflix. “F1” (4) prova que até os motores podem ser “de autor”, desde que bem embalados.
E depois há a verdadeira novidade.“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Quatro nomeações: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco. Quatro entradas diretas no coração da Academia. Sem condescendência. Sem rótulo exótico. Sem “quota”.
E, no centro disso tudo, Wagner Moura, a disputar o Oscar de Melhor Actor com Chalamet, DiCaprio, Ethan Hawke e Michael B. Jordan. Um brasileiro na fotografia oficial do poder cinematográfico mundial. Durante décadas parecia improvável. Hoje é factual. A nova categoria de Melhor Elenco também diz muito: Hollywood percebeu, com atraso, que o cinema não é só realizadores-geniais-e-sofridos. É equipas. É corpos. É química. É colectivo. E curiosamente, os nomeados são precisamente os filmes onde o sistema se reconhece. Nada disto é inocente.
Os Oscars® 2026 mostram uma indústria que quer parecer moderna, aberta e global, mas sem perder o controlo. Inclui, mas escolhe. Diversifica, mas enquadra. Internacionaliza, mas valida. É uma abertura com porteiro. E, mesmo assim, é impossível não reconhecer: há mais mundo nesta lista do que havia há dez anos. Há mais línguas, mais geografias, mais histórias fora do eixo habitual. Ainda pouco? Sim. Mas já não é zero. Entre pecadores premiados, monstros humanizados, batalhas morais e brasileiros finalmente reconhecidos, Hollywood ensaia uma nova imagem de si própria. Mais bonita. Mais simpática. Mais aceitável.
Resta saber se, na noite de 15 de Março, com Conan O’Brien como mestre de cerimónias, vai premiar quem fez o melhor filme ou quem soube melhor representar o sistema. Porque, no fim, os Oscars® continuam a ser isso: um espectáculo sobre cinema. Um negócio sobre poder. E um espelho onde Hollywood aprende, todos os anos, a gostar de si própria outra vez. Este ano em mutação, talvez ainda mais.
Fotos: Sinners © Warner Bros.

