“Não Temos Outra Terra” ou, sobretudo, “Resistir Na Terra Ocupada…!”, qualquer destas frases podia servir para destacar a matéria de «No Other Land», 2023, produção conjunta entre a Noruega e a Palestina, dirigida por quatro corajosos cineastas onde se destaca uma dupla de activistas e jornalistas (no sentido de entregar o corpo e a alma de frente e sem medo contra a arrogância dos ocupantes israelitas durante as suas investidas contra as comunidades palestinianas da Cisjordânia), a saber, o jornalista palestiniano, formado em Direito, Basel Adra, e o militante e jornalista israelita Yuval Abraham, ambos com a mais significativa presença diante das câmaras, sem dúvida a mais acutilante e representativa ao longo do filme. Mas não podemos esquecer o contributo da jornalista Rachel Szor, que desde 2019 esteve igualmente na origem do projecto «No Other Land» e que em grande medida foi responsável pela componente da Direcção de Fotografia que permitiu conjugar e articular na montagem final materiais oriundos de várias origens, na sua maior parte imagens poderosas, mas não obtidas através de meios profissionais. Na verdade, Rachel Szor beneficiou ao longo da rodagem da sua maior capacidade de movimento na Cisjordânia ocupada (mesmo nas alturas de maior confronto em que os conflitos entre as populações e o exército atingiram picos de grande violência) graças ao seu estatuto de jornalista sediada em Jerusalém. Liberdade mesmo assim controlada e reprimida, e que as autoridades e o exército de Israel pura e simplesmente negam aos palestinianos. Para completar o quarteto de realizadores temos de salientar ainda o nome de um outro companheiro de Basel Adra, que como ele reside em Masafer Yatta (rede de pequenas aldeias situadas no Sul do Monte Hebrom), o palestiniano Hamdan Ballal. Será ali, naqueles locais remotos e desoladores (que, no entanto, representam para o povo daquela área da Palestina a sua memória histórica, as aldeias fundadas pelos seus antepassados) que iremos assistir a uma série sistemática e organizada de demolições de casas que, segundo Israel, se encontravam numa zona militar exclusiva. Destruição de casas e recursos vitais, com recurso a bulldozers, que por si só constitui um acto de prepotência e que naturalmente não se limita a provocar apenas danos materiais. Maior do que a perda de bens, maior do que a alteração das rotinas diárias, mais pungente do que a demolição de uma escola ou o deitar abaixo de um recinto destinado a criar animais para alimentação dos que ali vivem, sobretudo mais dramática do que a necessidade de após as referidas demolições os habitantes de Masafer Yatta só encontrarem refúgio entre ruínas ou no interior de grutas (como se os despojados do pouco que era seu fossem obrigados para sobreviver a recuar a uma espécie de existência pré-histórica), a máxima brutalidade da ocupação e dos sucessivos actos destinados a empurrar os palestinianos para fora das aldeias onde nasceram e onde possuem as suas raízes pode sentir-se nas palavras dos homens e mulheres destroçados no seu interior, no modo como reagem contendo a raiva.

Num ou outro caso mais explosivo, sofrendo as consequências atrozes da repressão como veremos suceder diante dos nossos olhos de espectadores avisados, porque capazes de melhor compreender hoje (basta acompanhar os relatos do que se passa na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no Líbano) aquilo que de forma cínica Israel considera ser o seu direito de auto-defesa, o direito de impor as suas leis e o seu modelo de governação, em geral pelo uso da força. Ninguém, nem mesmo os mais aguerridos como Basel Adra, ficam imunes a este imenso retrocesso civilizacional a que diariamente estão sujeitos e a que nós assistimos nas imagens e sons de «No Other Land». Desgraçadamente, algo que naquelas paragens acontece há décadas. Dito isto, numa significativa sequência iremos vê-lo e ouvi-lo confessar que está cansado e que uma depressão profunda o assalta e impede de encontrar forças para resistir. Mas logo a seguir a realidade nua e crua das agressões volta a despertar o activista, filho de activistas, sobretudo as que se realizam numa espécie de cumplicidade entre os colonos israelitas de rosto coberto e os soldados que supostamente deveriam refrear os ataques. Basel Adra regressa a uma luta que não pode parar, invocando qualquer pretexto subjectivo, nem abandonar por “mera”, apesar de legítima, fraqueza de espírito. E a sua luta, dada a desproporção de forças do ponto de vista bélico, passa pelo empunhar de uma câmara que ele pensa, e muitos de nós pensamos com ele, ser uma janela aberta para denunciar o que ali se passa e uma porta escancarada para que o mundo confirme e não esqueça que antes dos acontecimentos que ocorreram na Faixa de Gaza a partir de 7 de Outubro de 2023 já existiam razões mais do que suficientes para que a chamada comunidade internacional desse um murro na mesa e impusesse uma solução que não foi aprovada por nenhum grupo de sábios desconhecidos num planeta distante, mas sim pelas Nações Unidas, ou seja, uma solução que contemple a existência de dois estados, Israel e Palestina.

Parabéns ao INDIELISBOA que deu a ver este documentário no contexto de uma nova secção do festival chamada RIZOMA, dedicada a questões relevantes da actualidade, cineastas de renome e ante-estreias. Foi ali galardoado com o Prémio do Público. Parabéns a quem na plataforma FILMIN decidiu incluí-lo na oferta de streaming. Finalmente, pela mão da MIDAS FILMES, saúda-se a sua estreia em sala no próximo dia 20 de Fevereiro e pela estreia no CINEMA TRINDADE a 27 do mesmo mês. Trata-se de um verdadeiro acto de resistência: permitir dar corpo, voz e rosto aos que se querem livres, fazendo ecoar as razões dos que vivem cercados pela ocupação sionista e dos que contra essa ocupação combatem, nomeadamente israelitas, mas não necessariamente através do ponto de vista dominante nos meandros do poder instalado em Israel.
Para além da sua importância específica para melhor se conhecer o que está em causa na brutalidade dos acontecimentos latentes ou activos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, será necessário referir que a nível internacional «No Other Land», entre muitos outros, recebeu no Festival de Berlim de 2024 o Prémio para Melhor Documentário e o Prémio do Público Panorama. Foi o Melhor Documentário nos Prémios Europeus do Cinema e encontra-se na lista final de nomeações para os Óscares na categoria Documentário de Longa-Metragem. Terá inevitável concorrência, nomeadamente um acutilante exercício de denúncia sobre os acontecimentos que estiveram por detrás do assassinato do patriota e dirigente africano Patrice Lumumba (1925-1961), «Soundtrack To a Coup d’Etat», 2024, de Johan Grimonprez, mas a urgência e actualidade de se debater e não esquecer o problema palestiniano deverá, ou deveria, merecer a melhor atenção nos corredores e bastidores de Hollywood. Logo veremos…!
Título original: No Other Land Realização: Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal Duração: 92 min. Palestina/Noruega, 2024
OSCARS 2025
VENCEDOR Oscar Melhor Documentário (Longa-Metragem)

