«Os Enforcados», de Fernando Coimbra, é um filme sobre quando Shakespeare desce o morro e descobre que o Brasil é, afinal, mais noir do que noir. Há quem ainda pense que o jogo do bicho — a lotaria clandestina — é aquela excentricidade simpática da mandinga carioca. Porém, basta ver, por exemplo, «Vale o Que Está Escrito» — a série da Globoplay que vos aconselho a ver, se tiverem acesso, já que explica melhor o Brasil da actualidade do que muito ensaio ou comentário jornalístico sobre a violência no Rio de Janeiro — para perceber que aquilo é a verdadeira ópera criminosa da capital fluminense: máfias, fortunas em dinheiro vivo, diplomacias paralelas, tiros, lavagem de dinheiro e, claro, o maior palco de todos, o Carnaval, onde a corrupção desfila pela Sapucaí como se fosse tema-enredo e sempre à frente das escolas de samba. Pois bem: “Os Enforcados”, de Fernando Coimbra, chega exactamente a este território, mas sem pedir licença, misturando Shakespeare com film noir, samba com sangue e a eterna vocação brasileira para transformar tragédia em espectáculo.

Coimbra já tinha provado, em «O Lobo Atrás da Porta» (2013), que sabe filmar a violência com uma elegância quase indecente, como quem não quer chocar, mas acaba a enfiar uma faca na costela do espectador. Agora, regressa ao Brasil dos “homens de bem”, essa categoria tão tipicamente brasileira que junta contravenção, mansões na encosta, escritórios de advocacia milionários e uma fé inabalável na impunidade. A premissa é simples: bicheiros, família, Shakespeare e… reforma de casa. Nada mais brasileiro.

Leandra Leal, sempre magnífica, encarna uma espécie de Lady Macbeth saída da Barra (da Tijuca), com o respectivo toque de perua da zona oeste do Rio e um humor venenoso que lembra Nelson Rodrigues depois de duas caipirinhas. O pernambucano Irandhir Santos — um dos maiores actores brasileiros da actualidade —, com o seu Valério, é aquele marido que vive no fio da navalha: acha que manda, mas só respira porque ela deixa. Ambos juntos são um espectáculo: sexo, manipulação, poder e uma tensão que podia iluminar metade do Rio, se a Light — a companhia carioca de fornecimento de eletricidade — não estivesse falida. O melhor do filme está nestas cenas: Coimbra abandona o velho plano/contraplano e deixa os dois circular como feras domesticadas, a rondar-se num jogo de sedução que é também uma guerra civil íntima.

Mas, se a relação é o coração do filme, o corpo é o próprio Brasil, esse país onde o crime organizado atravessa classes, religiões, carnavais e encontros familiares de domingo. Coimbra filma os bicheiros como aquilo que realmente são: empresários do submundo com gostos exuberantes, pretensões culturais e zero pudor. E faz isso com humor. Humor negro, daqueles que fazem rir com culpa. Há Irmãos Coen na mistura, há De Palma no sangue, há Polanski naquele curativo ridículo no nariz de Irandhir, porque o Brasil é, de facto, «Chinatown», com caipirinhas e samba-enredo.

A violência aqui, em «Os Enforcados», não é estilizada nem poética: é bárbara, suja, imprevisível. Mais Brasil que noir, na verdade. E Coimbra sabe disso: abraça o caos, abraça o exagero, abraça até as contradições do próprio sistema, aquele em que o “homem de bem” mata por causa de um camião do lixo, mas vai todos os anos ao camarote VIP da Marquês de Sapucaí financiar a “cultura popular”.

Há momentos em que o lado criminoso do jogo do bicho parece quase folclórico demais — como se faltasse profundidade ao inimigo invisível —, mas o filme não está realmente interessado em explicar a mecânica do crime. Está interessado em expor o seu teatro. E nisso acerta em cheio.

“Os Enforcados” é cinema brasileiro que morde, arranha e ri na nossa cara. Um filme noir tropical que sabe que a tragédia é inevitável, que a comédia é necessária e que, no Brasil, quem acaba pendurado raramente é quem devia.

Fernando Coimbra volta em grande. E volta ao Brasil real, esse país onde Macbeth se lê na varanda, com a Baía da Guanabara e o Porto do Rio ao fundo, enquanto a corda vai apertando no pescoço de quem achou que podia enganar o destino. Toma que já almoçaste!

TITULO ORIGINAL OS ENFORCADOS REALIZAÇÃO Fernando Coimbra ELENCO Leandra Leal, Irandhir Santos, Thiago Thomé, Irene Ravache, Stepan Nercessian, Ernane Moraes, Pepê Rapazote, Augusto Madeira, Ricardo Bittencourt ORIGEM Brasil/Portugal DURAÇÃO 123 min. ANO 2025

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