Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Miroirs No. 3

No panorama do cinema alemão, ou melhor, do cinema europeu contemporâneo, Christian Petzold continua a ser um dos realizadores mais estimulantes, que importa seguir de perto. Aquele tipo de autor capaz de traduzir um conjunto de ideias, maturações cinéfilas e obsessões pessoais em filmes discretamente assombrosos, que nunca parecem sobrecarregados, apesar de conterem muitas camadas na sua estrutura interna. Isso torna-se ainda mais notório neste último, «Miroirs No. 3», uma obra tão fina que facilmente se pode confundir com uma brisa de passagem ou um “filme menor”, até pela duração inferior a uma hora e meia.

Eis então o preconceito que apetece desconstruir logo à cabeça: sob a aparência “frágil”, delgada, «Miroirs No. 3» emerge como um enigma refinadíssimo, de influências tão diversas como a peça musical de Maurice Ravel citada no título, que remete para a vastidão do oceano, ou o clássico de Hitchcock «Rebecca» (1949), ambas comentadas pelo próprio Petzold aquando da apresentação do filme em Lisboa, no LEFFEST, onde acabou por ser distinguido com o Grande Prémio do Júri.

Voltando a ter na atriz Paula Beer uma misteriosa referência feminina – tal como acontecera nos anteriores «Transit», «Undine» e «Céu em Chamas» –, a história de «Miroirs No. 3» começa com um acidente de carro. Perto do local onde o sinistro aconteceu, uma mulher, que segundos antes tinha fixado estranhamente o rosto da jovem que ia no lugar do pendura, acode essa única sobrevivente e recebe-a em sua casa, seguindo-se dias de acolhimento que parecem suspender a existência de ambas num ato contínuo de coabitação algo perturbador… e regenerador. Laura (Beer), essa jovem que perdera o namorado no acidente, é uma estudante de piano que opta por não regressar de imediato à sua vida em Berlim; e Betty (Barbara Auer), a anfitriã, uma presença difícil de decifrar, oscilando entre a simpatia e uma sugestão de caso patológico, que vai sendo reforçado pelos olhares vacilantes do marido e do filho (ausentes da moradia mas em visita) e pela curiosidade de transeuntes que, volta e meia, se detêm à frente do portão da casa.

Que se passa com Laura? Que se passa com Betty? Só o poder das histórias de fantasmas explica as ações de uma e de outra. As ações de quem quer vestir uma identidade que não lhe pertence, e as de quem procura alguma forma de consolo numa estranha presença afetiva. Lembrando outro filme de Christian Petzold, «Wolfsburg» (2003), que também une personagens através de um acidente rodoviário, «Miroirs No. 3» entrelaça seres humanos numa musicalidade ambígua e impressionista. É a mais bela estreia a começar o ano.

TÍTULO ORIGINAL: Miroirs No. 3 REALIZAÇÃO: Christian Petzold ELENCO: Paula Beer, Barbara Auer, Matthias Brandt ORIGEM: Alemanha DURAÇÃO: 85 min. ANO: 2025

Também Poderá Gostar de