«Lubo», do cineasta italiano Giorgio Diritti, é um filme que oferece uma reflexão profunda sobre a vida, o tempo e a perda da identidade humana, num cenário rural e selvagem, onde as relações interpessoais e a natureza convivem de forma intensa e intransigente. A obra retrata a vida de Lubo Moser (Paolo Pierobon), um homem quebrado, em busca de si e dos seus, mas também de vingança. No Inverno de 1939, quando da Alemanha sopravam ventos de fúria e morte, Lubo é convocado pelo exército suíço a fim de fazer parte de um corpo militar de guarda da fronteira contra uma possível invasão germânica. A guerra, que viria a ser mundial, ainda estava no seu início e a incerteza, mesmo para a Suíça, era a palavra de ordem. Casado e pai de filhos, Lubo ganhava a vida como saltimbanco percorrendo a região do Tirol numa vida nómada típica da etnia Ieniche – um povo itinerante, de língua e culturas próprias, muita vezes comparado e confundido com o povo cigano. Enquanto se aborrece na fastidiosa tarefa militar recebe a notícia que os seus filhos foram levados pelo Governo e que a sua mulher havia morrido ao tentar impedir esse sequestro oficial. O seu único objectivo passa a ser desertar e ir à procura da sua prole. Um inesperado encontro e um subsequente crime de morte permitem-lhe obter uma nova identidade e uma confortável fortuna. Começa a sua saga.

          A longa-metragem aborda as consequências traumáticas do programa “Kinder der Landstrasse” (Crianças das Estradas), uma medida real do governo suíço que envolveu a remoção forçada de crianças Ieniches às suas famílias, com o objetivo de «civilizá-las» e integrá-las na sociedade helvética. A medida que surgiu na década de 20 (e se prolongou, assustadoramente, até aos anos 1970) retirava estas crianças dos seus lares e colocava-as em orfanatos ou famílias adoptivas, distantes da sua cultura e etnia. A política de assimilação forçada tinha como objetivo eliminar o estilo de vida nómada e integrá-las no modelo de vida sedentária da classe trabalhadora tradicional negando-lhes o direito à autodeterminação cultural. A trama do filme não só nos apresenta as consequências individuais do programa, mas também lança luz sobre o impacto coletivo numa cultura forçada à invisibilidade, à perda da sua memória histórica e à destruição de laços familiares fundamentais. Este tipo de acções foram justificadas por uma corrente de pensamento dita Eugenismo que acreditava ser possível melhorar uma civilização ou «raça humana» podando das suas ramificações os elementos mais fracos. Algo que seria levado ao extremo pelo III Reich na sua louca demanda pela raça pura ariana. E é por aqui que o protagonista consegue a sua pequena vingança. Diritti baseou-se numa obra de Mario Cavatore, ainda não traduzida em português, cujo título dá a chave de toda a trama: “Il Seminatore”.  Em “O Semeador” ou “O Inseminador”, o protagonista literário vinga-se pela sua progenitura: produz duzentos filhos em mulheres suíças para compensar os dois que perdeu e que não consegue recuperar. A sua vingança não é de morte, mas de vida: «tingirá», para sempre, o puro sangue helvético com os seus genes Ieniches. A interpretação de Pierobon consegue transmitir, com uma economia de gestos e palavras, a complexidade emocional do seu personagem. Lubo é um homem quieto, introspectivo, de poucas palavras; e a sua melancolia, as suas hesitações e busca por algo maior do que si mesmo, são sentimentos que Pierobon expressa de forma subtil mas profunda. Porém, o actor enquanto conquistador e arrebatador de libidos femininas deixa algo a desejar. À gravitas do homem que tudo perdeu e procura a sua vingança não se conseguiu juntar a levitas necessária a um prolífero Casanova. E o distanciamento emocional do protagonista, preso a um passado nebuloso e doloroso, retira qualquer arroubo erótico às cenas de conquista e cópula. Precisava-se aqui, talvez, de um pouco do salero de um Emir Kusturica.

      

    O filme não tem pressa em desenvolver a sua narrativa sendo o ritmo deliberadamente lento, o que pode ser um desafio para alguns espectadores. Porém, tal  é essencial para a construção da atmosfera. Ao optar por um ritmo contemplativo, Diritti imerge o espectador no mundo de Lubo e nas paisagens naturais que o cercam. A natureza assume um papel quase simbiótico com o protagonista, mais do que ser usada apenas como pano de fundo para os acontecimentos.A região montanhosa, em toda a sua dimensão e imponência, torna-se numa extensão do trágico herói reflectindo as suas emoções, angústias e, por vezes, esperanças.  As cenas mais emblemáticas são aquelas em que o protagonista se perde na imensidão da montanha, como se a natureza fosse um espelho da sua própria busca por pertença. A fotografia do filme, a cargo de Giovanni Giommi, é um dos aspectos mais marcantes da obra. As imagens das montanhas, especialmente durante o inverno, são poderosas e hipnotizantes. A paleta de cores gélidas e os enquadramentos amplos transmitem a sensação de desolação e de uma luta constante contra o tempo e a solidão. Em certos momentos, a natureza parece ameaçar engolir o protagonista, mas também é através dela que ele começa a entender o seu dasein.  Acresce uma banda sonora  (composta por Stefano Nanni) muito minimalista que se mistura, de forma quase imperceptível, com o ambiente natural do filme e reforça o tom melancólico e introspectivo da narrativa, sem nunca invadir ou forçar a emoção do público. A músicas encaixam-se perfeitamente apoiando, mas nunca sobrepondo, a experiência visual e emocional que Diritti constrói e que acentua o seu estilo de direção conhecido por misturar o realismo social com elementos poéticos e filosóficos. Testemunhamos uma estética de realismo contemplativo, onde os gestos simples e os momentos do quotidiano se tornam actos carregados de significado. A técnica do cineasta em capturar o corriqueiro e transformá-lo em algo extraordinário é uma das forças do filme. A ausência de grandes reviravoltas dramáticas e a narrativa não linear, com frequentes flashbacks, criam uma sensação de descontinuidade e de quebra temporal a reflectir o estado fragmentado da psique do protagonista, que se vê perdido entre o que foi e o que ainda pode ser.

       

   O tema do passado e como molda a identidade do presente, está patente no retorno do protagonista à sua terra natal em busca de reconciliação com a vida que deixou para trás. Um retorno não apenas físico, mas também simbólico. O homem que Lubo foi no passado –  as suas escolhas, erros e perdas – são constantes fantasmas que o perseguem. Ele está numa espécie de peregrinação emocional a tentar lidar com a culpa e a saudade de um tempo perdido numa quixotesca tentativa de purificação e redenção.  A  sua relação com os outros personagens também serve como um reflexo da tentativa de resgatar a humanidade que sente ter perdido. No entanto, os seus encontros não são simples e a interação com os outros revolve de uma série de confrontos internos, mais do que duma comunicação genuína com o exterior.  Mas a sua história não será de redenção, antes uma busca contínua por entendimento e reconciliação. Giorgio Diritti, com a sua abordagem sensível e contemplativa, cria um filme que é, a um tempo, poético e realista. A relação de Lubo com a natureza, com o seu passado e consigo mesmo é explorada de forma profunda e envolvente. Uma obra complexa que não oferece respostas fáceis, mas que nos envolve num processo de reflexão sobre a vida, a memória e a solidão humana.

Título original: Lubo Realização: Giorgio Diritti Elenco: Franz Rogowski, Valentina Bellè, Joel Basman Duração: 175 min. Itália/Suíça, 2023

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