MEU NOME É GAL

MEU NOME É GAL

Com uma voz doce e plena de harmonia, Gal Costa é mais do que uma das maiores cantoras brasileiras – é a História da Cultura Brasileira. «Meu Nome é Gal» conta parte da sua história, da menina tímida chamada Maria da Graça que se mudou da Baía para o Rio de Janeiro e que ganhou um nome que viria a ser eterno. A obra foca-se nos primeiros anos da carreira da artista, do seu crescimento enquanto cantora e como se encontra, na sua música, no palco e consigo mesma.

Tudo isto é contado, de uma forma quiçá demasiado acelerada, em «Meu Nome é Gal», assinado por Dandara Ferreira e Lô Politi. Essa é uma das lacunas da obra, devido à rapidez com que os acontecimentos são narrados e o abuso do recurso visual que alude às produções Super-8 acabam por distrair do arco principal. A obra consegue, no entanto, mostrar uma parte da carreira da artista que talvez nem sempre associamos a Gal.

Ora, em 1977, Portugal, recém-saído de uma ditadura de mais de 40 anos, parou para ver a ousadia da telenovela “Gabriela, Cravo e Canela”, num sucesso que até levou à suspensão de sessões na Assembleia Nacional para que os deputados pudessem assistir aos episódios. A voz do tema do genérico era, claro está, de Gal Costa, numa das músicas mais icónicas da sua carreira. Mas, antes disso, foi uma das principais vozes do Tropicalismo, movimento cultural brasileiro da segunda metade da década de 1960, que refletia, através da arte, o inconformismo perante a situação vivida no país (o Brasil viveu, de 1964 a 1985, uma ditadura militar).

No elenco, destaque para a interpretação de Sophie Charlotte, que carrega a obra com segurança e que viaja entre os diferentes momentos da vida da artista, transparecendo as suas várias nuances. A atriz é também bem-sucedida nos momentos musicais, interpretando até alguns trechos. O filme mistura as duas vozes, contudo, por vezes, denota-se alguma falta de sincronização entre o movimento labial e a música.

«Meu Nome é Gal» não é, de todo, um biopic perdido, mas é pouco aproveitado, ficando uns furos abaixo, por exemplo, de um retrato biográfico recente de outra cantora brasileira marcante: «Elis» (2016). Alguns dos ingredientes estão lá: uma história de vida de ampla magnitude, uma atriz assertiva e, claro, uma encantadora e poderosa banda-sonora – aliás, o título do filme alude ao título de um dos temas musicais do seu álbum “Gal”, lançado em 1969. Todavia, no final da obra, a impressão que fica é de que não chegamos perto de conhecer, verdadeiramente, a essência de Gal, a artista a quem João Gilberto, o pai da bossa nova, chamou “a maior cantora do Brasil”.

Título original: Meu Nome é Gal Realização: Dandara Ferreira, Lô Politi Elenco: Sophie Charlotte, Rodrigo Lelis, Camila Márdila Duração: 120 min. Brasil, 2023