Thrillers de entretenimento feitos com qualidade e voz autoral deixaram de ser financiados em Hollywood. Tornaram-se um género em vias de extinção. É por isso que o filme de Barry Layton ganha uma importância extra. É como se fosse um teste da Sony e dos estúdios Amazon para poder viabilizar um modelo de cinema do meio. Ou seja, algo para lá do blockbuster e um pouco acima das amarras do orçamento dos independentes.

Em «Crime 101» há um olhar de cineasta, mas também todo o dispositivo do heist movie na sua glória. Coisa raríssima e na qual os encargos das expectativas do grande espetáculo funcionam na perfeição. O cineasta apadrinhado pela Working Title domina com um design perfeito toda a escala da produção. Isso inclui cenas de ação aparatosas, perseguições e um ambiente visualmente deslumbrante. No entanto, o que mais impressiona é a exploração atmosférica e o clima que emergem deste conto moral entre o lado do crime e o lado da lei.

Do lado do crime está um assaltante solitário chamado Davis, alguém especialista em golpes minuciosos, planeados sempre sem violência e com um elaborado recurso a hacking digital. No seu encalce, está o detetive, homem amargurado na crise da meia-idade e subaproveitado no seu departamento.

Pelo meio, está a cidade, Los Angeles, como personagem principal com a sua marginal em Santa Mónica e a autoestrada infindável que dá o título, a 101. Uma cidade em modo de estado de espírito e onde cada alma está presa a um blues de solidão. As personagens de Halle Berry, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo e Barry Keoghan contém em si um desafio filosófico: encenar uma fuga do seu passado. São seres abandonados, quer ao asfalto, quer à falta de afetos. Por exemplo, o ladrão de bom coração de Hemsworth apaixona-se pela personagem da notável Monica Barbaro, mas não sabe dar-se. É essa a carga trágica que traz uma nuance nova a este jogo de gato e rato.

Infinitamente triste, «Crime» 101 não é um filme sósia de «Heat – Cidade Sob Pressão» nem tão pouco uma cópia. Layton plana pela Cidade dos Anjos de outra maneira, mas é óbvio que faz vénia a Michael Mann. Digamos que pode estar aqui o amuse-bouche para a tal sequela de Heat que vem aí.

A melhor notícia é que Hollywood ainda sabe fazer thrillers com gente real lá dentro. Acreditamos no drama da personagem de Halle Berry, uma mulher de negócios supostamente acabada para a sua empresa por ter 53 anos, ou na crise do polícia com ética de Mark Ruffalo. Afinal, tudo isso pode acontecer numa mise-en-scène que cita Hitchcock e cuja elegância do suspense nunca anula uma tensão verdadeiramente brusca. Grande, grande surpresa.

Título original: Crime 101 Realização: Bart Layton Elenco: Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Barry Keoghan, Halle Berry, Jennifer Jason Leigh Duração: 140 min. Reino Unido/EUA, 2026

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