Na imensidão indiferente do tempo histórico, há narrativas que procuram ligar o que foi ao que ainda está por vir, procurando no passado um mapa possível para as inquietações do presente. «La Venue de L’Avenir /As Cores do Tempo», escrito e realizado por Cédric Klapisch, propõe-se como uma comédia dramática de ampla ambição narrativa, combinando genealogia familiar, viagem temporal e reflexão sobre memória, identidade e arte. A vontade de construir um enorme supermercado com um desmesurado parque de estacionamento, leva a que uma empresa procure os herdeiros de um terreno há muito esquecido. Do grupo de descendentes, quatro primos — Seb (Abraham Wapler), Abdel (Zinedine Soualem), Céline (Julia Piaton) e Guy (Vincent Macaigne) — que não se conheciam e com vidas muito distintas entre si, tomam as rédeas da aventura de descoberta do passado comum. Surge assim um eixo de ligação entre duas épocas: 2025, quando a família herda uma propriedade em Le Havre (Normandia); e 1895, quando Adèle Munier (Suzanne Lindon), a esquecida antepassada comum, partiu em direcção à capital no auge da Belle Epoque, quando Paris fervilhava de inovações tecnológicas, científicas e culturais. A colisão destas duas temporalidades e a  gradual revelação dos segredos contidos nas cartas, nas fotografias e nos objectos deixados por Adèle, desencadeiam um processo introspectivo em todos os personagens, que se confrontam com o significado do seu legado familiar e das suas próprias escolhas de vida.

Ao optar por uma narrativa plural, Klapisch abraça tanto a leveza como a densidade dramática. Há um charme e doçura inegáveis na forma como o presente se cruza com o passado, permitindo ao espectador sentir simultaneamente a energia criativa de Paris fin-de-siècle e as inquietações existenciais dos protagonistas contemporâneos. O filme encontra o seu eixo emocional na figura de Adèle, uma jovem determinada e intuitiva, cuja trajectória na cidade surge como um gesto de emancipação num mundo ainda profundamente condicionado por normas rígidas. A sua presença funciona como catalisador para as dúvidas existenciais dos descendentes contemporâneos, que projectam nela as suas próprias frustrações, desejos adiados e incertezas identitárias. Este jogo de espelhos entre passado e presente é eficaz enquanto proposta narrativa, permitindo ao espectador reflectir sobre a herança não apenas como transmissão material, mas como carga simbólica e afectiva.

A abordagem de Klapisch assume um tom delicado, poético e frequentemente lúdico, sustentado por diálogos que exploram com subtileza as contradições entre tradições herdadas e valores em transformação. Essa leveza pode parecer limitar a profundidade dramática de algumas questões centrais, sobretudo quando temas como identidade cultural, emancipação feminina ou o impacto social da arte são apenas aflorados, sem um desenvolvimento mais incisivo. No entanto, essa aparente superficialidade pode ser lida não como falha, mas como coerência estética. Há um diálogo implícito com o Impressionismo, movimento que atravessa o período vivido por Adèle e que redefiniu a relação entre arte e realidade. Tal como os impressionistas recusaram a representação monumental e académica em favor da captação do instante, da luz e da sensação, «As Cores do Tempo» privilegia fragmentos, atmosferas e estados emocionais transitórios. O que está em causa não é a explicação cabal de uma época, mas a percepção sensível de um mundo em mutação. Klapisch filma a História como os impressionistas pintavam a cidade moderna: não como um sistema fechado de causas e efeitos, mas como um conjunto de impressões parciais, afectivas e instáveis, onde o sentido emerge mais da experiência e das sensações do que da análise.

Tecnicamente, «As Cores do Tempo» mostra a maturidade de um realizador que já explorou múltiplos géneros e formatos ao longo da sua carreira. A fotografia de Alexis Kavyrchine capta com sensibilidade os ambientes contrastantes de um interior rural atávico e envelhecido e as vibrantes avenidas da nova cidade de Haussman, criando uma dialéctica entre permanência e transformação. A dupla temporalidade é tratada com fluidez, alternando texturas visuais e sonoras que ajudam o espectador a transitar sem esforço entre eras. Esta riqueza estética, aliada a uma montagem que privilegia ritmos contemplativos sem cair na lentidão e uma atenção aos pormenores (repare-se na torre Eiffel com as cores originais: vermelho Veneza com acentos dourados) criaram uma agradável experiência imersiva. Acresce o trabalho do elenco, pensado como um conjunto de interpretações em diálogo permanente, fundamental para sustentar a complexa arquitectura narrativa. Suzanne Lindon, ao dar vida à Adèle, imprime à personagem uma autenticidade quase lírica, enquanto os quatro primos oferecem performances que capturam, com nuances diversas, as contradições dos seus personagens — entre a nostalgia, a curiosidade e o desconforto face às incógnitas familiares. Este conjunto de interpretações em coro densifica a experiência cinematográfica, conferindo humanidade e calor às distintas perspectivas em jogo.

No plano social e cultural, a forma como Klapisch articula a relação entre passado e presente pode ser lida como um comentário indirecto sobre os modos através dos quais as sociedades contemporâneas constroem e transmitem a sua memória.  Paul Connerton –  o grande pensador da memória social – adianta, em “Como As Sociedades Recordam”, que a memória colectiva não se organiza apenas através de narrativas históricas formais, mas sobretudo por meio de práticas incorporadas, rituais e gestos quotidianos que naturalizam certas versões do passado em detrimento de outras. «As Cores do Tempo» parece operar precisamente nesse registo: a herança familiar e cultural surge como espaço de reencontro e continuidade, estruturando-se mais pela partilha afectiva e pelo reconhecimento simbólico do que pela confrontação crítica com a História. Ao evitar conflitos mais duros com as tensões económicas e sociais que atravessaram as épocas retratadas, o filme privilegia uma memória reconciliadora, próxima do que Connerton identifica como formas de recordação que estabilizam identidades e reforçam a coesão social. Esta opção narrativa revela como a memória, longe de ser neutra, é sempre uma construção selectiva, orientada por necessidades presentes, e como o cinema pode funcionar como um dispositivo privilegiado dessa selecção, promovendo uma lembrança que apazigua, mas que simultaneamente silencia aspectos mais dissonantes do passado.

A obra de Klapisch merece aplauso por ousar articular múltiplas camadas narrativas e por convidar o espectador a contemplar como as histórias individuais e familiares se cruzam com movimentos culturais mais amplos. A sua direção demonstra um equilíbrio raro entre leveza e ambição, revelando um cineasta que compreende tanto a técnica cinematográfica quanto a necessidade humana de se reconhecer no tempo e no espaço. É-nos dada uma experiência cinematográfica rica e emotiva, marcada por uma sensibilidade estética refinada e um elenco que sustenta eficazmente a complexidade narrativa proposta. Se o filme por vezes adopta uma abordagem demasiado serena para temas que poderiam ser explorados com maior tensão crítica, é inegável que proporciona um olhar envolvente sobre as ligações que atravessam gerações e sobre as escolhas que definem não apenas a arte, mas a própria experiência humana. Tudo dado em rápidas e etéreas pinceladas, como num quadro de Monet.

Título original: La venue de l’avenir Título internacional: Colours of Time Realização: Cédric Klapisch Elenco: Suzanne Lindon, Zinedine Soualem, Abraham Wapler, Julia Piaton, Vincent Macaigne Duração: 124 min. França/Bélgica, 2025

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