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Uma Mãe e o Seu Filho – Saeed Roustaee

Com apenas 36 anos, o iraniano Saeed Roustaee é já um nome proeminente na cena internacional e um dos valores seguros do seu país, um viveiro constante de novos autores, apesar de todas as dificuldades que enfrentam, nomeadamente com as malhas apertadas da censura. Depois do assombroso «A Lei de Teerão» e «Os Irmãos de Leila», o realizador está de volta, com «Uma Mãe e o Seu Filho». Mahnaz é uma mãe solteira, que planeia voltar a casar. Mas uma tragédia familiar vai obrigá-la a lutar pela justiça. O filme é marcado pela presença da luminosa Parinaz Izadyar, com quem o realizador já tinha trabalhado. Uma nota importante: a conversa com o realizador teve lugar em maio de 2025, no Festival de Cannes, onde o filme de Roustaee esteve em competição, muito antes pois dos recentes ataques norte-americanos e israelitas ao Irão.

Depois de «Os Irmãos de Leila», regressa à unidade familiar como centro da narrativa.

Saeed Roustaee: Para mim. era muito importante escrever e criar a história de uma mulher. Sentia que tinha quase um dever internacional de fazer este trabalho. E, entre todas as histórias e argumentos em que estava a trabalhar, esta foi a que mais se impôs. Era como se me dissesse: “Tens de me fazer.” Ao olhar para o que está a acontecer na sociedade iraniana, senti realmente que fazer um filme centrado numa mulher era aquilo que tinha de fazer, aquilo que queria fazer, mas também o meu dever enquanto cineasta.

Qual é hoje a importância do conceito de mãe solteira na sociedade iraniana?

Saeed Roustaee: Há cada vez mais mães solteiras na sociedade iraniana. É algo que existe em todas as classes sociais. Existem mães solteiras de facto, ou mulheres cujos maridos estão muito doentes e que acabam por assumir sozinhas todas as responsabilidades da família. O interessante é que, dia após dia, tornam-se cada vez mais independentes e mais determinadas em procurar uma vida melhor para si próprias. E, claro, ao mesmo tempo, cada vez menos pessoas se casam no Irão e cada vez mais pessoas se divorciam.

No centro do filme está uma história familiar, mas a forma visual como a aborda é impressionante, na maneira como usa a câmara, a relação com a cidade, a casa.

Saeed Roustaee: Para mim é muito importante que aquilo que imagino ao escrever esteja presente na imagem final do filme. Quando escrevo um argumento, penso sempre em lugares muito específicos. Imagino exatamente como será a escola, a casa, os interiores. Queríamos filmar em película porque, para mim, o filme tem de ser habitado pela vida, tem de estar muito próximo da vida. E a película aproxima-nos mais disso, torna tudo mais real. Mas é muito difícil conseguir película no Irão.

“Há cada vez mais mães solteiras no Irão”

Não consegui então filmar em película?

Saeed Roustaee: Não, e mesmo que tivéssemos conseguido, teria alterado completamente o calendário das filmagens. Por isso, com o diretor de fotografia Adib Sobhani, encontrámos uma solução: filmámos com uma Alexa Super 35 e lentes Cooke, tentando reproduzir o mais fielmente possível o efeito da película. Fizemos um trabalho enorme para alcançar esse aspeto visual.

Quando escreve um argumento, já está a pensar no que pode ou não filmar por causa da censura?

Saeed Roustaee: Mesmo que tivesse liberdade absoluta, teria feito exatamente o mesmo filme. Haveria apenas uma diferença: não existiria a obrigação do véu. Mas a história seria a mesma. No Irão, enquanto cineasta, vive-se sob controlo constante. E, depois do movimento Mulher, Vida, Liberdade, o governo tornou-se muito mais sensível a tudo o que diz respeito ao véu obrigatório, sobretudo no cinema. Se quisermos continuar a trabalhar durante muitos anos no nosso próprio país, temos de respeitar certas regras, para conseguir fazer filmes e mostrá-los ao público.

Pensa que a situação vai mudar em breve?

Saeed Roustaee: Penso que, no futuro, acontecerá o mesmo que aconteceu com as cassetes VHS. Houve um tempo em que eram proibidas no Irão e, se fosse apanhado com uma, ia diretamente para a prisão. Hoje já não é assim. Acho que veremos mudanças semelhantes noutras áreas. Continuamos a empurrar essas linhas vermelhas, mesmo respeitando-as parcialmente, porque queremos continuar a fazer filmes. E acredito que chegará o dia em que poderei fazer filmes totalmente livres.

As crianças do filme são personagens, mas continuam a ser crianças. Acha que a geração deles viverá um dia num país democrático?

Saeed Roustaee: Sim, certamente. E eles não querem esperar. Basta olhar para o que está a acontecer nas ruas do Irão. É a Geração Z que está a impulsionar tudo. Eles não esperam, não obedecem, não se conformam. Vão trazer grandes mudanças.

A sequência de abertura de «A Lei de Teerão» é inesquecível e mostra drogas, pobreza… Como conseguiu mostrar a sociedade iraniana dessa forma?

Saeed Roustaee: Hoje seria impossível fazer aquele filme. Tornou-se muito mais difícil. No Irão é extremamente complicado fazer filmes, porque temos de responder a várias entidades diferentes. Não existe apenas uma censura, existem muitas. E é precisamente por isso que acho tão importante continuar no Irão, continuar a resistir e continuar a fazer filmes. Encontramos maneiras de os fazer, de observar a sociedade, de viver nela e de lutar para tornar o país melhor.

Kiarostami, quando filmou fora do Irão, já não foi o mesmo. O mesmo acontece com Asghar Farhadi…

Saeed Roustaee: É extremamente difícil fazer um bom filme no Irão. E não falo apenas das dificuldades práticas. Às vezes fazemos um filme e sentimos que há algo que não funciona totalmente. Mas eu sou daquele país. Estou profundamente enraizado na minha sociedade e na minha tradição. Se já é tão difícil fazer um grande filme no lugar que conheço melhor do que qualquer outro, como poderia fazer um filme profundo e verdadeiro numa sociedade que conheço muito pouco e que talvez conheça sobretudo através do cinema?

Fotos: © Amirhossein Shojaei, Saeed Roustaee

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João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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