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CINEMA OU NADA*

José Vieira Mendes, Crítico de Cinema

Richard Linklater e a arte de não transformar a vida num anúncio de iogurtes ou alguns conselhos a um aspirante a realizador.

Quando se fala de Richard Linklater (n. 1960), fala-se de alguém que filma como quem respira: devagar, atento, aparentemente distraído — e, afinal, profundamente obsessivo. O autor de «Slacker», «Antes do Amanhecer» ou «Boyhood – Momentos de Vida» e outros pode parecer o guru zen do cinema “de conversa de café”, mas por trás daquele ar relaxado está uma regra simples e cruel: o cinema exige tudo. É um casamento sem divórcio. Quem sonha “experimentar” cinema ao fim de semana arrisca-se a acabar a filmar publicidade com um sorriso falso e um iogurte na mão.

Linklater nunca disse que isto era uma carreira glamorosa. Pelo contrário: o primeiro conselho seria o do fanatismo saudável. Os grandes realizadores chegam a ser maníacos: veem filmes enquanto o mundo faz abdominais. E a base é essa: construir um fundo de maneio cinematográfico, não apenas com diplomas das escolas de cinema, mas sobretudo com horas de sala escura, erros técnicos e a santa paciência de montar planos que ninguém vai ver. É quase um voto religioso, mas sem hábitos, apenas olheiras.

Depois vem aquela ideia de laboratório, de experimentar. Curtas, experiências, falhanços épicos. Copiar, imitar, testar. Toda a gente começa por fazer versões duvidosas de Kubrick até perceber que não é Kubrick coisa nenhuma. Linklater lembra que o “lixo”, as porcarias que não interessam a ninguém, fazem parte do processo de aprendizagem: é preciso sujar as mãos antes de limpar a linguagem. E, já agora, “dar o corpo ao manifesto”: estudar representação, sentir na pele o que é ser observado, falhar num casting e aprender que dirigir actores é, acima de tudo, falar a língua deles.

A comunicação, para ele, é meio filme. Um set é uma máquina cara e ansiosa, e ninguém suporta um realizador que vive no limbo do “logo se vê”. Decidir, mesmo com medo, é melhor do que pairar na nebulosa artística. E chega o momento inevitável: dar o salto. Não quando o mundo aplaude, mas quando o pânico e o desejo coincidem. A verdadeira estreia não é a do filme, é a do realizador que sai do casulo convencido de que vai morrer e, afinal, sobreviveu.

Linklater também prega o amor à primeira vista no casting. Cinema é química. Se um actor acende a lâmpada, dá uma ideia, vale mais essa faísca do que mil opiniões sábias. E, na rodagem, equilíbrio é preciso: nem ditadura técnica, nem caos emocional. O plano perfeito não vale nada se esmagar quem o interpreta, e o drama existencial não paga a conta da luz.

Sobre carreira, a pancada — ou melhor, o conselho — é directo: pensar no “próximo passo” é a morte criativa. Cada filme é o último. Ponto. O dinheiro existe, sim, mas para ser controlado, não venerado. Porém, os orçamentos não são poemas: cumprem-se. E o corpo também é ferramenta — dormir, comer, não implodir. O cinema já é autodestrutivo o suficiente sem ajudas externas.

Finalmente, é precisa a loucura necessária: só fazer filmes que mais ninguém conseguiria fazer. Parece arrogância, mas é identidade. E depois, a palavra mágica: timing. Há projectos que precisam de esperar, outros que exigem urgência. Saber quando avançar é quase tão vital como saber filmar.

No fim, o cinema de Linklater resume-se a isto: amor obsessivo e sentido de tempo. Conversas que parecem banais e revelam o mundo. Planos que parecem fáceis e custaram uma guerra. E a certeza de que quem entra nesse ofício sem compromisso total acaba, inevitavelmente, a vender laticínios. O cinema, para ele, não é uma carreira. É uma vida inteira, com menos efeitos especiais, mas muito mais verdade. Mas, no fundo, na vida e em todas as profissões, deveria ser mesmo assim.

*Esta crónica é uma releitura de um artigo publicado na MovieMaker Magazine, a propósito da estreia de «Nouvelle Vague» e «Blue Moon».

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