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Glória merece as alturas

Rodrigo Fonseca, Crítico de Cinema

Existe um famoso reclame publicitário no Brasil, ligado à campanha comercial de uma loja de departamentos, que diz: “Já é Natal na Leader Magazine!”. Chegou dezembro, não tem alma viva em solo brasileiro que não cante esse refrão, a clamar pelo Pai Natal e a esperar boas novas para o fim de ano, o que, no caso do cinema daquela pátria sul-americana, chega pelo nome de «Sexa». É uma das estreias mais esperadas do circuito exibidor latino na coda de 2025.

O filme passou – bem – pelo Festival do Rio e na Mostra de São Paulo apoiado apenas no fato de marcar a estreia de Gloria Pires na direção de longas-metragens. É um fato, em si, atraente, sabendo-se que estamos a falar de uma atriz que é um sintagma vivo de Brasil, capaz de falar com muitas classes sociais, a desmultiplicar-se bem do melodrama à comédia, com saltos do drama realista, sempre com eficácia. Trabalhou com titãs da direção (Nelson Pereira dos Santos entre eles), encabeçou as telenovelas que pararam o Brasil e ajudou Daniel Filho a dar alma, coração e vida à “neochanchada” [neo comédias brasileiras], há 20 anos atrás, com «Se Eu Fosse Você», um blockbuster que virou franquia. Aliás, a parte três acaba de ser filmada por Anita Barbosa.

Com este tamanho de proficiências, a passagem dela pelo posto de cineasta só poderia ser um evento. E é, mas ela entregou mais. Fez jus à ladainha histórica do “cinema é a maior diversão”, mas, de quebra, deixando as pessoas a pensar… e a sentir. 

Nota-se, no ecrã, uma riqueza na direção de arte de Mônica Delfino que trabalha diálogos, desabafos, transas e debates afetivos que sempre mantêm o pé no chão, com atenção ao real, sem alienações. Tudo se desenha a partir do “sacode” que a vida dá em Bárbara, uma revisora de livros, fã da literatura de Clarice Lispector, que, ao chegar aos 60 anos, enfrenta uma série de mudanças bruscas. Gloria encara esse papel com o garbo de sempre. Torna crível (e universal) o engasgo da personagem diante das imposições do filho músico e da vigília de um mundo que é duro para começa a ter cabelos grisalhos. 

No guião, Bárbara reaprende conjugar o verbo “amar” na desinência da leveza, diante de sua coqueluche frente ao técnico de Informática viúvo (porém 25 anos mais jovem) chamado Davi (um papel defendido com afinco por Thiago Martins). O rapaz mexe com o seu miocárdio, mas ela teme conflitos intergeracionais, teme abandonos (que não virão). Nessa trupe cheia de graça, destaque ainda Isabel Filardis a brilhar de carisma no seu trabalho como Cristina, a vizinha e amiga nº1 da protagonista. 

Um grande presente de Natal para o Brasil.

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