Por estes dias, uma das minhas principais companhias em transportes públicos é o livro Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, a obra que inspirou um dos filmes do momento. Uma das (boas) surpresas da recente época de prémios, o filme «Ainda Estou Aqui» (2024), de Walter Salles, arrecadou três nomeações aos Óscares: Melhor Atriz (Fernanda Torres), Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Filme. A distinção faz lembrar «Central do Brasil» (1998), do mesmo realizador, que levou a mãe de Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, à cerimónia em 1999 (onde perderia o Óscar para Gwyneth Paltrow). Num ciclo que se repete, fica desde logo a dúvida: terá esta história um final feliz com direito a estatueta?

A narrativa, baseada na história verídica da família Paiva, é um poderoso drama histórico que revisita uma das páginas mais sombrias do passado do Brasil: a ditadura militar. Com foco em Eunice Paiva (Fernanda Torres), a longa-metragem oferece uma reflexão profunda sobre a dor da perda, a resiliência para aguentar e a luta pela justiça, mas também pela memória. Esta dualidade está presente durante grande parte de «Ainda Estou Aqui» (2024): por um lado, há a necessidade de encerrar uma página e, dentro do possível, fazer justiça; por outro lado, o não esquecimento é um objetivo constante e um capítulo que nunca pode ser terminado.
A trama explica-se facilmente. Rubens Paiva (Selton Mello), um ex-deputado, desaparece após ser sequestrado, à imagem do que vinha a acontecer a outras figuras da oposição na sociedade brasileira. Por inconformismo ou ingenuidade, Rubens não seguiu o caminho de outros amigos e foi ficando, ajudando várias pessoas nos bastidores da ditadura. O “fantasma comunista” servia para afastar aqueles que representavam, no entender do poder instalado, uma ameaça ao regime; o que lhes acontecia era percetível, mas difícil de provar. Sem respostas, Eunice, que também é torturada com uma das filhas, tem de enfrentar o medo constante da repressão, enquanto cria os filhos sozinha, sem afastar a ambição de descobrir a verdade.
O sofrimento das vítimas às mãos da tortura é uma ferida aberta na história, como uma dívida que jamais poderá ser totalmente paga. «Ainda Estou Aqui» (2024) assume essa impossibilidade, mas recusa-se a aceitar o silêncio como resposta. Embora Fernanda Torres o represente tão bem.
A partir de Eunice Paiva e da sua luta, nomeadamente após o desaparecimento de Rubens, o filme constrói uma caminhada utópica na busca por justiça, não porque acredita na reparação total, mas porque entende que lembrar é o mínimo que se pode fazer quando encaramos o irremediável. Cada cena carrega o peso da ausência, cada diálogo ecoa a dor de quem nunca teve direito ao luto tal como o entendemos. No entanto, na preservação da memória e na recusa do esquecimento, há um gesto de resistência: insuficiente para apagar as marcas da violência, mas essencial para tentar impedir que ela se repita.
No livro Ainda Estou Aqui, Marcelo recorda a força da mãe, e a forma prática como encarava todos os problemas que lhe iam sendo apresentados. Fernanda Torres ilustra essa dimensão num nível próximo da perfeição, que já lhe valeu um Globo de Ouro e um Satellite Award, entre outras distinções. A atriz equilibra um lado sério – frágil, mas, ao mesmo tempo, aparentemente inquebrantável – com um lado emocional marcante. Ironicamente, Eunice Paiva, que tanto tinha feito para preservar a memória dos crimes da ditadura, haveria de passar os seus últimos anos de vida com Alzheimer.
Em «Ainda Estou Aqui» (2024), o luto não é um fim, mas um ato contínuo de resistência. Se a procura por justiça é utópica, isso não significa que seja inútil: a obra abraça essa contradição, porque, enquanto houver memória, há resistência. No processo de transformar a dor privada em memória coletiva, a obra de Salles reforça a importância do cinema como ferramenta de justiça histórica.
OSCARS 2025
VENCEDOR Oscar Melhor Filme Internacional




